DE VOLTA À SELVA - O mais bacana em
Manaus é que o centro da cidade, o seu eixo, é um teatro: o
Teatro Amazonas. Manaus começa e termina ali, diante do seu magnífico teatro, construído no meio da selva e inaugurado em 1886. A beleza da arquitetura é algo impressionante. O estilo
Art Noveau está presente nas escadarias, varandas, poltronas, colunas, teto, paredes... Tudo nos remete
a arte e a cultura na sua forma mais requintada. A construção fica no centro da praça
São Sebastião, o que valoriza ainda mais a imponência do estilo arquitetônico. Em volta da praça várias construções históricas que são museus, galerias de arte, bibliotecas e bares.
Foi no
Teatro Amazonas que assisti a intrigante ópera
Othelo, de Rossini, inspirada na peça de Shakeaspeare. Cantores afinados, orquestra brilhante, figurinos elegantes e cenários grandiosos que misturavam objetos cenográficos com projeções.
Bravo! Bravo! Bravo! A imponência da encenação se misturando com a imponência do teatro, transformou a noite numa inebriante viagem ao tempo através da arte. O espetáculo é uma das atrações do
X Festival de Ópera. De 20 de abril a 30 de Maio se revezarão no elegante palco da selva amazônica títulos como
Werther, de Jules Messenet,
Gianni Schicchi, de Puccini,
Fosca, de Carlos Gomes,
La Gioconda, de Almicare Ponchielli e as duas versões de
Othelo: a de Guiseppe Verdi e a de Gioacchino Rossini.
O festival é o maior evento do gênero na América Latina e conta com os sons e vozes da orquestra Amazônica Filarmônica, Coral do Amazonas, Orquestra Jovem da Floresta e Corpo de Dança do Amazonas.
JUNGLE FIGHT 6 – Não foi só a ópera Othelo que mobilizou minha atenção na última temporada em Manaus. Um outro espetáculo,
tão grandioso e apaixonante quanto uma ópera, também me encheu de emoção em plena selva: o
Jungle Fight, o campeonato de artes marciais do Amazonas. Com o estádio do
Hotel Tropical decorado como uma imensa tribo indígena lutadores de vários países se digladiaram numa competição que mistura diversos tipos de artes marciais.
Foram
nove lutas que pareceram nove atos de uma ópera. Cada luta carregando seus dramas, sofrimentos, dores e muita solidão. Quando no ringue, enfrentando o adversário, o lutador me parece a pessoa mais solitária desse mundo. Naquele momento ele está completamente só e parece que o adversário tem o mundo inteiro ao seu lado.
A luta que mais me comoveu reuniu o peruano
Tony de Souza e o curitibano
Katel Kubis . Tony é um cara simplório, desleixado, que recebeu da torcida o apelido de mendigo por causa do seu jeito de ser.
Katel Kubis é um rapaz belíssimo, um galã do Paraná, craque no boxe tailandês, que já participou de torneios na Bélgica, Suécia, Rússia, Alemanha e EUA. Até o último minuto a luta foi uma incógnita, já que
não havia favoritos na disputa. Logo no início Katel deu um soco no peruano que ele se desequilibrou e foi ao chão. O curitibano dominou o primeiro round e deu a entender que ia vencer a parada. Talvez essa condição de aparente favoritismo o tenha feito relaxar, pois, subitamente, Tony aplicou uma chave de perna que Katel não resistiu e acabou perdendo a luta.
O francês
Bryan Rafiq fala português quase sem sotaque já que treina na filial em
Paris da Academia Brazilian Top Team, com o brasileiro
Roan Jucão. Inquieto e bem humorado, ele venceu com garra seu adversário
Shinzo Machida. O fenômeno do jiu-jitsu
Ronaldo Jacaré massacrou o campeão russo
Alexsander Shamelenko, natural da gelada
Sibéria. Na manhã do dia da luta, quando foi feita a pesagem dos atletas, eu conversei com Shamelenko e avisei que ele ia enfrentar uma pedreira, um dos maiores lutadores brasileiros do momento. Auto confiante, ele fez cara de desdém. Acabou desmaiando com o estrangulamento que lhe foi aplicado pelo brasileiro.
Danilo Índio enfrentou com garra o dinamarquês Froid Hansen e se deu bem. Venceu a luta e dedicou sua vitória ao senador do PSDB
Artur Virgílio, que é atleta do jiu-jitsu e estava na platéia prestigiando o evento. Danilo é filho do Índio,
lendário lutador que agitou os ringues brasileiros nas décadas de 50 e 60. Eles estava muito nervoso já que o pai tinha vindo a Manaus só para vê-lo lutar
Outro que brilhou no ringue do
Jungle Fight foi o atleta
Thalles Leites . Escreve-se assim mesmo.
O leite dele é plural. Estrela em ascensão, Thalles derrotou o quase lendário
José Pelé Landin, numa luta que foi um verdadeiro épico devido a sua trama cheia de reviravoltas. Quando o juiz deu o sinal iniciando a disputa Thalles deu um pulo que foi quase um vôo, aplicando uma joelhada no queixo de Pelé. O golpe, devido ao caráter surpreendente e inusitado, levantou a platéia que cobriu o atleta de aplausos.
Quem também fez bonito no campeonato foi o jovem
Dimitri Wanderley. Sua luta com
Lyoto Machida fechou com chave de ouro a sexta edição do
Jungle Fight. Dimitri foi um guerreiro e partiu para cima do adversário com veemência. Lyoto reagiu com garra, técnica e força. O resultado foi um show sensacional. Eram
dois galos de briga em cena. Os golpes certeiros abriram
cortes nos rostos dos dois lutadores e logo eles estavam se esvaindo em
sangue. Mesmo assim nenhum dos dois fez menção de desistir. Eram
dois machos no ringue e eles pareciam dispostos a ir até o fim na peleja. Devido a quantidade de sangue os juízes decidiram acabar a luta. Acatando uma regra do torneio, venceu o que ficou menos machucado, Lyoto, cujo corte no rosto foi menor do que o de Dimitri.
As lutadoras
Davina Maciel e
Kanako Inaba fizeram a primeira luta feminina do Jungle Fight. As meninas causaram surpresa no público já que foram implacáveis e partiram pra porrada, lutando sem nenhuma compaixão. Davina é atleta da Seleção Amazonense de Judô e a japonesa Kanako Inaba é atleta de jiu-jitsu, esporte que pratica na Academia Gracie de Chicago, cidade onde vive. A brasileira nocauteou a japonesa com socos. Na tarde do dia da luta, quando estávamos todos de farra na piscina, eu perguntei ao treinador Bebeo Duarte, um dos articuladores da academia
Brazilian Top Team o que ele esperava da luta feminina. Ele me respondeu que não esperava nada. “Eu sou contra luta de mulher. Acho que não tem nada a ver. Luta é coisa de homem”.
Foi uma festa muito bonita. O estádio lotado. O público participou bastante do torneio, aplaudindo em alguns momentos, vaiando em outros. Haviam torcidas organizadas para alguns atletas. Além disso, o espetáculo foi muito bem produzido, com um show de danças indígenas no início, além das divertidas entradas dos atletas. Depois do torneio
o Hotel Tropical virou uma festa, já que todos estavam lá hospedados. Atletas, treinadores, jornalistas, empresários. Ficou todo mundo feliz já que tudo funcionou direito e as lutas foram bem empolgantes.
O nosso esporte ainda vai ser tão popular quanto o futebol, gritava cheio de orgulho Wallid Ismail, o organizador do Jungle que, mais cedo, na entrevista coletiva dos atletas, chorou ao rememorar o seu passado de lutador.
No bar que ficava na entrada do hotel cenas inusitadas.
Tony de Souza, cujo rosto não parava de sangrar foi levado pela produção até um hospital para receber um ponto no rosto.
Katel Kubis caminhava mancando pelos intermináveis corredores do Tropical. “Eu torci por você”, disse para ele que me deu um abraço e respondeu com a voz emocionada: “Eu sabia que você estava torcendo por mim”. Na madrugada foram todos para a boate
Mamute, a mais animada de Manaus, ponto de encontro da rapaziada descolada do Baixo Amazonas.
A noite era de festa e ficou todo mundo bebendo, azarando, dançando e dando boas risadas. Os lutadores ostentando seus curativos e hematomas com o
orgulho do dever cumprido.
CARTÃO POSTAL - Clique no link ao lado e veja algumas das fotos que fiz em Manaus.
SUPERGIBA - No ar desde março de 2006, este blog, especializado em artes plásticas, tem como finalidade difundir a produção contemporânea brasileira e internacional, estimulando o conhecimento e a compreensão das diversas poéticas visuais e conceituais. O blog é editado pelo jornalista carioca
Gilberto de Abreu, há mais de 10 anos especializado nesse tipo de cobertura, para os principais suplementos de cultura do país.