13.5.10

MENINO DE ENGENHO – A Editora José Olimpio está lançando a centésima edição de Menino de Engenho, de José Lins do Rego, um dos mais belos livros jé escritos em língua portuguesa. No próximo dia 20 vai ter até festa na Academia Brasileira de Letras para comemorar o lançamento. O livro merece. É um clássico indiscutível que atravessa gerações. Um momento mágico da literatura brasileira.


A primeira vez que li Menino de Engenho eu tinha quase dez anos e morava em Recife, como o protagonista do livro. Fiquei tão fascinado com o que li que, a partir de então, a literatura se tornou parte da minha vida. Havia a literatura, o jeito de contar a história, a magia que brotava da narrativa, a vivacidade dos personagens. Mas havia também uma identificação pessoal com aquele mundo, aquele cenário, aquela vida, aquele sotaque. Eu era um menino quando li o livro e aquilo me bateu muito forte, já que era um livro sobre a infância. Mas não era um livro sobre a infância idílica, como os livros de Monteiro Lobato, que eu estava acostumado a ler. Era um livro duro, que falava da vida real sem meias palavras, mas que, ao mesmo tempo, era carregado de poesia. Eu me via em Carlinhos, o personagem título. Fiquei tão fascinado que li o livro várias vezes, querendo com isso que ele nunca acabasse, que a história vivesse para sempre. Decorei para sempre a primeira frase do livro: “Eu tinha uns quatro anos no dia em que a minha mãe morreu”.


Menino de Engenho conta a história de Carlinhos da infância até a adolescência. Depois de uma tragédia na família, quando seu pai mata sua mãe, ele vai morar no interior de Pernambuco, no engenho do avô paterno. Ali Carlinhos tem uma vida livre, convivendo com a natureza, com os animais e com o cotidiano do engenho de cana de açúcar onde ainda se observa resquícios do tempo colonial e da escravidão. Numa narrativa onírica e carregada de lirismo Lins do Rego brinda o leitor com momentos de ternura, humor, emoção e fina literatura.
O meu pai nunca matou a minha mãe, mas não foi por falta de tentativas. Quando era criança algumas vezes fui levado por ele a um engenho de cana de açúcar em Ipojuca, no interior de Pernambuco. Meu pai ia a trabalho, mas ele também tinha uma razão muito pessoal para ir até lá: uma amante. Ele namorava a filha do dono do engenho e, para disfarçar, para minha mãe não ficar desconfiada, ele me levava junto com ele. Eu adorava ir ao engenho, que era exatamente como o livro descrevia. E era isso que me fascinava no livro. Eu tinha a sensação de ter vivido aquilo tudo.
Minha vida no engenho era uma maravilha. Eu adorava a natureza e, enquanto meu pai ou trabalhava, ou namorava a amante, eu me embrenhava pelo mato e ia curtir a natureza. Gostava de ouvir o canto dos pássaros no silêncio da floresta. Era tratado com carinho pelos empregados. Adorava a casa grande e o aroma de melado do lugar, igualzinho como Lins do Rego descreve no romance. Lembro que atrás da casa grande tinha uma pedra enorme, um morro, na verdade. Eu subia até lá em cima e ficava vendo o engenho lá do alto: a casa grande, as moendas, os galpões e as imensas plantações de cana de açúcar. Depois eu descia a pedra pelo outro lado e ali eu me deparava com um riacho onde eu ficava horas e horas mergulhando na água límpida, esquecido da vida, apreciando a doce convivencia com a natureza.
Uma das grandes lembranças que guardo dessa época era de um galpão onde os lavradores guardavam bananas. Era um galpão imenso e ali tinha uma montanha de bananas. Uma montanha imensa. E eu subia na montanha de bananas, sentava lá no alto e ficava comendo a fruta até não mais poder. A namorada do meu pai era uma moça bonita e me tratava com muita atenção e carinho. Ela me preparava lanches com caldo de cana e broa de milho e eu percebia que ela fica surpresa por eu tratá-la de modo gentil mesmo sabendo que ela era amante do meu pai. Mas eu sempre fui um garoto fino.
É claro que a minha mãe descobriu o caso do meu pai com a filha do dono do engenho. Ela sempre descobria as aventuras amorosas dele, que nunca foram poucas. Certa vez minha mãe veio me perguntar sobre a amante do meu pai e eu falei com doçura da pobre moça. Disse o quanto ela era gentil e bonita e como era gostoso o lanche que ela me preparava e servia na varanda da casa grande. Minha mãe ficou indignada, se sentindo duplamente traída. Naquele dia houve uma daquelas brigas furiosas entre ela e meu pai que sempre acabava em gritos, louças quebradas e pancadaria.


Foi depois de um desses inesquecíveis passeios no engenho que meu pai chegou em casa com esse livro e me deu de presente. Eu era um menino estudioso, tirava ótimas notas na escola e adorava ler. De pronto comecei a ler o romance e tive uma experiência literária única. Lendo aquela história, ainda menino, parecia que eu estava lendo a história da minha vida.


MENINO DE ENGENHO - Trechos:

Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã me acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá, e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse em um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la , quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a polícia e mais ninguém. Levaram-me para o fundo de casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai com o revólver na mão e minha mãe ensangüentada. “O doutor matou a dona Clarisse!” Por quê? Ninguém sabia compreender.

Era um menino triste. Gostava de saltar com os meus primos e fazer tudo o que eles faziam. Metia-me com os moleques por toda parte. Mas, no fundo, era um menino triste. Às vezes dava para pensar comigo mesmo, e solitário andava por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a cantoria dos pássaros.

Concorríamos no amor com os touros e os pais de chiqueiro. Tínhamos as nossas cabras e as nossas vacas para encontros de lubricidade. A promiscuidade selvagem no curral arrastava a nossa infância às experiências de prazeres que não tínhamos idade de gozar. Era apenas uma buliçosa curiosidade de menino, a mesma curiosidade que nos levava a ver o que andava por dentro dos brinquedos.

Tinha um medo doentio da morte. Aquilo de gente apodrecer debaixo da terra, ser comido pelos tapurus, me parecia incompreensível. Todo mundo tinha que morrer. As negras diziam que alguns ficavam para semente. Eu me desejava entre esses felizardos.

Tinha uns 12 anos quando conheci uma mulher, como homem. Andava atrás dela, beirando a sua tapera de palha, numa ânsia misturada de medo e de vergonha. Zefa Cajá era a grande mundana dos cabras do eito. Não me queria. “Vá se ccriar, menino enxerido”. Mas eu ficava por perto, olhando para a mulata com vontade mesmo de fazer coisa ruim. Ficou comigo uma porção de vezes. Levava as coisas do engenho para ela. Pedaços de carne, queijo roubado do armário; dava-lhe o dinheiro que o meu avô deixava por cima das mesas. Ela me acariciava com uma voracidade animal de amor: dizia que eu tinha gosto de leite na boca e me queria comer como uma fruta de vez.
Fotos: Waldir Leite

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