13.9.15

















UMA LÁGRIMA PARA BETTY LAGO - Muito antes de Gisele Bundchen o Brasil teve uma top model chamada Betty Lago. Eram outros tempos. Não havia a internet. A industria da moda não era tão voraz e poderosa como nos dias de hoje. Mas era um tempo em que havia a chamada alta moda. Um tempo em que a moda tinha o tratamento de uma grande arte. Era a época da fase áurea dos grandes costureiros. Sim, costureiros. Só depois é que eles passaram a ser chamados de estilistas. Nomes como Pierre Cardin. Yves Saint Laurent, Valentino, Christian Dior, Thierry Mugler e Azzedine Alaya. Betty Lago trabalhou com todos. Ou em desfiles, nos lançamentos das grandes coleções, ou em editoriais de moda para as revistas especializadas. Era um tempo em que não havia semanas de moda no Brasil. Mas algumas marcas brasileiras realizavam seus desfiles, sem muita assiduidade. Certa vez, na virada dos anos 70 para os 80, a Blu Blu, uma badalada boutique de Ipanema, promoveu um desfile de sua nova coleção na calçada em frente a loja, na Rua Montenegro. Betty Lago desfilou no espaço reservado a passarela mas, ao contrário das outras modelos que voltaram para dentro da loja, ela foi embora, desfilando pelas ruas de Ipanema. Nem precisa dizer que foi ovacionada.

Sempre fui admirador da Betty Lago e acompanhava com atenção a carreira dela como modelo. Mas só a conheci pessoalmente na época em que ela atuou como atriz na minissérie Sex Appeal, de Antonio Calmon. Na época eu era assistente do Calmon e, quando ele ainda escrevia os primeiros capítulos de sua minissérie, eu sugeri o nome de Betty Lago para o elenco. "Se você está escrevendo uma minissérie sobre o mundo da moda, é claro que a Betty Lago tem que estar no elenco", eu disse, mostrando a ele um exemplar da revista Vanity Fair, que tinha um anúncio de pagina inteira com uma foto da modelo. Uma linda foto em preto e branco. O Calmon sempre acatava minhas sugestões e aprovou o nome dela na mesma hora. E ainda me deu um presente. "Já que você é tão fã da Betty liga pra ela pra saber da disponibilidade de datas para a gravação". Daí eu liguei pra Nova York e fiquei horas com ela ao telefone. Durante a gravação da minissérie a gente se falava quase todos os dias. Certa vez ela me ligou, disse que estava indo ao cinema com o Mauro e me perguntou se eu queria ir junto. Pensei que ela estava se referindo ao Mauro Rasi, que era nosso amigo, mas quando cheguei no cinema vi que era o Mauro Taubman, o dono da Company, uma das marcas mais queridas da juventude dos anos 80. Fomos ao cine Leblon ver "O Piano", da Jane Campion. Assistimos ao filme, conversamos, demos risadas, depois eles me deixaram na porta de casa. Durante todo o tempo em que ficamos juntos notei que havia uma troca de carinhos entre a Betty e o Mauro, mas que havia uma certa melancolia na afeto entre eles. Dias depois o Mauro Taubman morreu...

Betty Lago vai fazer falta. Ela merecia viver mais, muito mais, com sua alegria, sua risada, sua elegância, sua inteligência e seu talento.

Certa vez, na gravação da cena final de Sex Appeal, ela chegou na locação, o antigo Automóvel Clube, no centro do Rio, completamente despojada. Era a cena de uma festa, então tinha todo o elenco, além de figurantes. Ou seja, era uma cena complicada pois envolvia muita produção. Quando ela chegou já havia muita gente no set. Então a diva sentou no chão, num cantinho qualquer entre os figurantes e, de cara lavada, abriu uma bolsa e pegou sua própria maquiagem. Ela mesmo se maquiou ali, sentada no chão, num cantinho, bem simplesinha. Minutos depois, quando se levantou, estava deslumbrante. Linda, pronta pra arrasar. Assim era Betty...

Descanse em paz, minha querida. Você sempre vai estar entre nós...



Um comentário:

Patrícia disse...

Olá Waldir, sabia que vc faria um lindo texto sobre a Betty Lago e não me enganei.
Eu achava a beleza da Betty singular e com um allure inexplicável. Adorei -a em Anos Rebeldes e sua música tema "Senza Fine" , maravilhosa, combinava com a atriz.
Gostava dela tb em Saia Justa, que hj em dia perdeu toda a graça , aliás, perdi o hábito de assistir tv, mudou o Natal (ops, a TV) ou eu mudei???

Beijos pra vc, apareça! Patrícia