7.12.15



UMA LÁGRIMA PARA MARÍLIA PÊRA - A última vez que vi Marília Pêra foi na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na missa de sétimo dia de sua sogra Cecília Motta, que todos chamavam de Xixa. Quando a cumprimentei ela me sorriu. Um sorriso, doce, meigo, sincero, cheio de ternura. Um sorriso que jamais vou esquecer. Não imaginava nunca que aquele dia seria a última vez que teria o privilégio de vê-la. A atriz incrível que, durante a sua vida, me fez feliz tantas vezes graças ao seu trabalho no cinema, no teatro e na TV.

Há quatro anos minha avó Rute ainda era viva. Chegou aos noventa anos firme e lúcida. A última vez que nos falamos foi por telefone. Fazia tempo que a gente não se via. Então liguei para ela, a fim de matar as saudades. Começamos a conversar sobre a vida e, num dado instante, ela me disse uma frase que define bem a importância que Marília Pêra teve na minha vida. Minha avó me disse: "Meu filho, toda vez que vejo a Marília Pêra na TV eu me lembro de você". Na época desse telefonema o Canal Viva estava reprisando a minissérie "JK", com Marília Pêra no papel da primeira-dama Sarah Kubitschek e minha avó Rute assistia todos os dias. É que durante um período da minha infância morei na casa da minha avó. Foi na época da novela Uma rosa com amor, em que Marília interpretava a protagonista Rosa Serafina Petrone. E todos os dias eu e minha avó assistíamos a novela juntos. Menino de calças curtas, eu vibrava com a atriz. Adorava aquela Marília jovem, que eu achava bonita, apesar de, na trama da novela, ela ser considerada uma moça feia. Eu falava da Serafina o dia inteiro e pedia para minha avó comprar as revistas em que ela aparecia na capa. Por causa desse momento da minha infância que minha avó Rute sempre lembrava de mim quando a via na TV.

Mas minha admiração por Marília Pêra começou dois anos antes de Uma rosa com amor. Foi na novela O Cafona, de Bráulio Pedroso. Fui criado assistindo novelas. Até hoje lembro de cenas de Beto Rockfeller que assisti no colo das minhas tias, tão pequeno que eu era. Mas foi nos capítulos de O Cafona que descobri Marília Pêra. Na verdade, tomei um choque quando ela surgiu na tela. A novela em si, era totalmente diferente de tudo o que as novelas mostravam até então. O Cafona era uma espécie de "Beto Rockfeller com produção global". E tinha o personagem Shirley Sexy, que era um verdadeiro furacão dentro da história. Foi o maior sucesso de Marília nas novelas, sem dúvida alguma.

Depois de Shirley Sexy ela fez Noeli Nogueira, uma taxista, na novela Bandeira Dois. Essa novela é sempre lembrada por causa dos bicheiros, interpretados por Paulo Gracindo e Felipe Carone. Mas o autor Dias Gomes criou o personagem da Marília em função do movimento feminista que havia na época. A divulgação fazia questão de ressaltar que Noeli era a primeira heroína de novelas desquitada. Uma ousadia para a época em que mulheres desquitadas ainda eram mal vistas pela sociedade. Noeli era uma moça da zona sul do Rio que decide se separar do marido e viver por conta própria, sem precisar depender de homem. Ela pega todo o dinheiro que tem e compra um táxi, para poder ter um trabalho. E como o dinheiro que ganha não permite que ela more na zona sul, ela aluga um apartamento em Ramos, subúrbio do Rio, e acaba se envolvendo com o filho de um bicheiro barra pesada. Como sempre Marília esteve magnífica no papel...

Houve uma época em que ela também fazia o Viva Marília um programa mensal na TV Globo onde aparecia cantando, dançando e interpretando textos diversos. Depois fez um espetáculo de teatro chamado A feiticeira. Foi quando a vi em cena pela primeira vez, no palco do Teatro Santa Izabel, em Recife. Uma emoção inesquecível. Quando a vi no filme O rei da noite, de Hector Babenco minha admiração só fez aumentar. Ela está magnífica nesse filme. Uma atuação digna de um Oscar. Depois, ainda sob a direção do Babenco, ela brilhou no filme Pixote. Sua atuação, num personagem de grande densidade dramática, impressionou os críticos de cinema dos Estados Unidos. E em 1982 ela ganhou o Prêmio de Melhor Atriz do Ano, concedido pela Associação de Críticos de Cinema dos EUA (Nacional Society of Critics Awards), vencendo Faye Dunaway, que concorreu com Mamãezinha Querida. Ganhou também o prêmio de melhor atriz do ano dos críticos de cinema de Boston. Em 1989 a Nacional Society of Crítics Awards a citou como uma das melhores atrizes da década de 80.

O prêmio dos críticos americanos não sensibilizou nem um pouco os cineastas brasileiros. Depois desse prêmio seria natural que todos os cineastas a convidassem para seus filmes. Afinal, ela tinha a aprovação dos críticos de cinema dos Estados Unidos. Mesmo assim foram poucos os filmes de sua carreira. Certa vez, numa entrevista, lhe perguntaram por que, apesar do prêmio da crítica americana ela fazia poucos filmes. Marília respondeu que adorava fazer cinema, mas quase nunca era chamada pelos produtores e diretores. "Talvez se eu tivesse sido "miss" os cineastas brasileiros me quisesse em seus filmes."

O teatro, obviamente, foi a arte onde mais se destacou. Era impressionante a capacidade que ela tinha de dominar a cena com o olhar, a voz, o gestual, a respiração. Era extremamente detalhista em suas atuações. Uma das suas peças que mais gostei foi "Quem matou a baronesa?", de Leilah Assumpção. Um monólogo sobre uma mulher extremamente neurótica, que tinha mania de perseguição. Como sempre, Marília dominou o palco demonstrando uma absoluta compreensão do significado do teatro. Master Class, onde ela vivia Maria Callas assisti diversas vezes. E cada vez que a peça acabava eu me sentia como se tivesse recebido um grande presente da vida. O privilégio de ver uma grande artista no auge da sua forma e de seu talento. Master Class foi um acontecimento teatral marcante. Mas houve também Doce Deleite, A Prima Donna, Adorável Júlia, Elas por ela, Toda nudez será castigada, Gloriosa e Apareceu a Margarida, um de seus maiores sucessos.

No teatro eu vi Marília Pêra interpretando Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, Maria Callas e Coco Chanel. Quatro mulheres completamente diferentes. E a atriz sempre esteve perfeita em suas caracterizações. Mademoiselle Chanel tive o privilégio de assistir em Paris. Em 2005 aconteceu o Ano do Brasil na França. Nessa época eu trabalhava no Jornal do Brasil e fui enviado pelo jornal para fazer a cobertura das festividades. Um dos eventos do Ano do Brasil na França foi uma curta temporada (dez apresentações) da peça escrita por Maria Adelaide Amaral, com patrocínio da Maison Chanel e da revista Marie Claire. (A peça foi apresentada em português, com legendas em francês). Então pude testemunhar como os franceses ficaram impressionados com a atuação de Marília, interpretando com verdade e elegância um dos maiores ícones da alta moda francesa. Aplausos e mais aplausos em cena aberta e no final do espetáculo. Sem dúvida foi um dos grandes momentos de sua carreira.

Quando soube a notícia de sua morte foi como se tivesse perdido uma pessoa da minha família. Um sentimento triste e devastador. Lembrei da minha infância na casa da minha avó Rute, quando a gente se reunia para vê-la em Uma rosa com amor e chorei muito...

Descanse em paz, Marília. Descanse em paz...
























2 comentários:

Patrícia disse...

Waldir; tinha certeza de que vc arrasaria com sua crônica sobre a morte de Marília. Tenho , mais ou menos,as mesmas lembranças que vc,desde a novela "Uma rosa com amor", "Viva Marília", entre outros. Assisti a peça sobre a Dalva de Oliveira e amei! Obrigada pelo seu lindo texto, tão à altura da grande atriz! Lembranças lindas da sua avó, que ela o abençõe sempre de ontem estiver. Beijos, feliz Natal !

Waldir Leite disse...

Obrigado pelo seu comentário, Patricia. Foi uma perda muito marcante. Sempre achei que ela ia ser dessas atrizes que ficam velhinhas atuando. Muito triste.
Fora isso, adoro quenod você aparece por aqui e faz um comentário. Um beijo!