28.9.11


No pôquer, olhar o jogo do adversário no reflexo do vidro atrás dele é trapacear. Em política, é antecipar.


A MALDIÇÃO DE EDGAR - Li a frase acima num livro chamado A maldição de Edgar, do escritor Marc Dugain. Estou me deliciando com o livro que conta a história de John Edgar Hoover, o sujeito que durante meio século foi o homem forte do FBI. O livro não tem nada a ver com o filme de Eastwood, sobre o mesmo personagem. É uma versão romaceada da história, supostamente contada por Clyde Tolson, o secretário e amante de Hoover, que ele chamava carinhosamente de Júnior.

É impressionante saber que por cinco décadas o poderoso FBI, uma espécie de Polícia Federal americana, foi comandado por um casal gay.

Hoover e Tolson foram duas bichas ardilosas e tiranas. Elas foram implacáveis. Perseguiram políticos, artistas, congressistas, intelectuais e todos que não se enquadravam nos seus padrões morais. Eram bichas moralistas, conservadoras. E malvadas! Faziam escutas telefônicas ilegais e depois chantageavam as pessoas. Eram homofóbicos e racistas. Certa vez Hoover disse que "se um crime foi cometido com elegância e classe o criminoso jamais seria um crioulo". Noutra ocasião quando lhe perguntaram por que não havia negros entre os agentes do FBI ele respondeu: "O meu motorista é negro". Hoover tinha teorias próprias sobre a criminalidade e certa vez afirmou: "Se um crime foi cometido com frieza, paciência e senso de oportunidade, certamente o criminoso é uma mulher".

O chefão do FBI e seu namorado gravaram a mulher do Presidente Franklin Roosevelt na cama com o amante mais jovem e "deram um jeito" do Presidente americano ficar sabendo. É incrível como "as duas" eram cheias de rígidos padrões morais. Viviam incomodados por que Eleonor Roosevelt era uma ativista dos direitos civis e ficaram indignadas por que a primeira dama também gostava de se relacionar com mulheres. Hoover e seu amante achavam isso um absurdo, já que defendiam ardorosamente os padrões "tradicionais" da família americana. Reprimiam com fervor a homossexualidade alheia, a infidelidade conjugal e as idéias liberais. Achavam que só elas podiam ser homossexuais. A primeira dama também não suportava Hoover e chamava o FBI de Gestapo.

(Homossexuais quando são reacionários e conservadores, são as pessoas mais perigosas que podem existir na face da terra. O mundo está cheio de bichas e lésbicas como Hoover e Tolson...)

A frase sobre o pôquer e a política é citada no livro quando Hoover grava conversas do jovem John Kennedy. Na época ele nem imaginava que um dia John pudesse vir a ser o Presidente. Mas desde sempre Hoover perseguia o pai de John, Joe, um arrivista ambicioso que ele não queria ver morando na Casa Branca. Joe Kennedy era um danadinho. "Esse cara já viu mais traseiros que um vaso sanitário", disse Hoover, quando quis descrever o furor sexual do machão Joe que, quando se aventurou a ser produtor de cinema, comeu muito a Glória Swanson. Hoover mandou agentes do FBI seguir os amantes e gravar as conversas telefônicas dos dois. O homem forte do FBI considerava Hollywood um antro de pervertidos e comunistas.

Comunistas! Hoover e Tolson tinham conseguido o prodígio de nunca definir o que era, exatamente, o comunismo. Tratava-se de um termo genérico em que eles se apoiavam para denunciar todo comportamento, toda atitude, todo pensamento, toda intenção desviante. Agrupava todas as formas de ações políticas e sociais que iam contra a América e que, de um jeito ou de outro, incitava à subversão. Não definir limites para o que era exatamente o comunismo era um modo que eles tinham de fazer entrar quem eles quisessem nesse espectro moralizador e de marginalizar os recalcitrantes.



Dentro desse raciocínio eles perseguiram Charles Chaplin, os escritores Pearl Buck, Thomas Mann, Ernest Hemingway, Aldous Huxley, Arthur Miller e Tennessee Williams. Classificavam os livros de John Steinbeck como "literatura de sarjeta que tenta passar uma imagem sórdida da América". Truman Capote, um escritor de língua ferina, também foi perseguido depois de ter chamado Hoover e Tolson de "Johnny and Clyde". Era uma referência ao casal Bonnie and Clyde, lendária dupla de assaltantes de banco.



Assim caminha a América!


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