20.2.15


Todas as falhas humanas provêm da impaciência.


PIERRÔS E COLOMBINAS - Estarrecido com o livro Carnaval, de poemas do Manoel Bandeira. Por puro acaso, fuçando as prateleiras da Livraria da Travessa, em Ipanema, ainda na ressaca de um carnaval maravilhoso, me deparo com essa jóia rara da literatura brasileira. Já ao tocar o livro, folhear suas páginas e sentir a textura do papel uma emoção estranha me provocou arrepios. Como se alguém tivesse, de propósito, colocado esse livro nas minhas mãos. "Depois do carnaval que você viveu, só Manuel Bandeira poderá colocar ordem nas suas impressões sobre o sentido da vida", parecia dizer no meu ouvido um folião sarado fantasiado de abelhinha. Sem pensar, busquei uma daquelas confortáveis cadeiras de leitura espalhadas pela livraria, sentei e comecei a saborear cada um dos poemas do Bandeira. 

Quanta beleza! Quanta magia! Quanta delicadeza no uso das palavras. O livro foi publicado originalmente em 1919, mas, o sentimento que de seus poemas exala, parece ter sido gerado no carnaval que acabou antes de ontem. As emoções que motivam a existência dessa festa pagã (mas de origem religiosa) são lindamente traduzidas nos jogos de palavras que a linguagem poética exige. O livro nos mostra o quanto o carnaval é eterno. Tudo o que motivou Bandeira a escrever seus versos na virada do século vinte é o que se vê e sente na folia gloriosa desse carnaval do alvorecer do século vinte e um.

Mesmo sendo um livro publicado em 1919, Carnaval fala de personagens que, naquela época, já eram do passado. Como os personagens clássicos  Pierrô e Colombina, ou mesmo a Vênus, deusa do amor e, obviamente, Baco, o deus da bebida. Você pensa que cachaça é água? Os poemas falam das fantasias, não apenas as vestimentas em si, mas também das fantasias que a mente repercute quando se enamora de alguém fantasiado. Romântico, o livro retrata o carnaval como uma festa pura.

   

Bacanal

Quero beber! Cantar asneiras 
No esto brutal das bebedeiras 
Que tudo emborca e faz em caco… 
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada 
No torvelim da mascarada, 
A gargalhar em douro assomo… 
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores, 
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos… 
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres, 
além de versos e mulheres? 
- Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!… 
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua, 
Por degolar a nuca nua 
Que me alucina e que não domo!… 
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!… 
Por que eu extático desfira 
Em seu louvor versos obscenos, 
Evoé Vênus!



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