7.3.15



Viver bem é a melhor vingança



QUE MARÇO SEJA UM MAR DE COISAS BOAS - O dia internacional da mulher sempre me faz lembrar Wilma Lessa, a pessoa mais feminista que já conheci. Ela vivia intensamente a questão feminista, lutava pelos direitos da mulher com muita valentia e autenticidade. Era paulista, mas morava em Recife. E Pernambuco é certamente o lugar mais machista do Brasil, que já é um país machista pela própria natureza. E Wilma, com seu jeito livre e independente, enfrentou com muita valentia o comportamento machista da cidade que escolheu para viver, quando cansou de São Paulo. Sua história daria um filme. Ela fundou uma ONG chamada Viva Mulher, onde usava de todos os recursos possíveis para defender os direitos da mulher. Principalmente das mulheres que eram espancadas por seus companheiros. Os machões pernambucanos adoram bater em mulher. "Todo mundo acham que Minas Gerais é o lugar mais machista do Brasil. Mas não é. O lugar mais machista do Brasil é Pernambuco", me disse certa uma vez, mostrando números de uma pesquisa realizada por sua ONG. Uma ocasião nós estávamos num restaurante japonês chamado Fuji que ela adorava, pois lembrava São Paulo. Daí um cara começou a bater numa garota em pleno restaurante. Ninguém fez nada, pois era uma briga de casal, mas ela levantou da mesa e partiu pra cima do sujeito aos gritos de covarde. Botou o cara pra correr e convenceu a moça a ir na delegacia dar queixa.

Wilma Lessa tinha um programa de radio onde estimulava as mulheres, principalmente aquelas mais pobres, a lutarem por seus direitos e não se deixarem sufocar por uma sociedade machista. Se dedicava com afinco a essa missão. Quando chegava no dia 8 de março ela comemorava como se fosse a data do seu aniversário. Era uma mulher culta, inteligente. Adorava literatura. "Você precisa ler esse livro. É incrível", me disse ela, com um exemplar de Pedro Páramo, do escritor mexicano Juan Rulfo, nas mãos. Foi ela quem primeiro me falou do escritor Raimundo Carrero e seu livro "A história de Bernarda Soledade, a tigre do sertão".  Curtia Osman Lins, Garcia Marquez e Manuel Puig. Era muito educada, delicada, jovial e elegante. Falava gesticulando com as mãos. Gostava de beber cerveja e ouvir músicas de Nina Simone e Ornella Vanone. Quando a conheci ela morava no vigésimo primeiro andar e, na porta do apartamento havia a foto recortada de uma borboleta colorida e, logo abaixo estava escrito: viver bem é a melhor vingança. Eu a admirava e gostava de escutar suas histórias de vida. Ficamos tão amigos que ela me concedeu a honra de ser padrinho do seu filho. 

Pena que ela não está mais entre nós para comemorar o próximo 8 de março. Hoje, em Recife, existe uma rua com o seu nome. Rua jornalista Vilma Lessa. Está grafado assim, com V. Mas é preciso corrigir. Afinal, ela tinha tanto orgulho do seu W. O seu nome também batiza uma ala do hospital Agamenon Magalhães, dedicado a atender mulheres que tenham sofrido violência física, psicológica ou sexual. Chama-se "Serviço de Apoio à Mulher Wilma Lessa".   




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