23.11.14






Clarice Lispector e as paixões da filosofia


Por que não podemos chamar Clarice Lispector de filósofa? Nos relatos biográficos a ela dedicados Clarice é sempre chamada de escritora, romancista e jornalista, atividades que ela realmente exerceu. Ela, realmente, sempre se colocou dentro desse universo profissional, onde é chamada de escritora. Mas, quem lê seus escritos, não pode deixar de reconhecer que ela foi, com muita verdade, uma pensadora. Como escritora ela nunca se contentou em apenas contar uma história, como faz a maioria dos romancistas. A reflexão, o pensamento, são partes integrantes das tramas, das situações e do caráter dos personagens de suas obras. “Cada coisa tem um instante em que ela é”, diz a misteriosa personagem do livro Água Viva.  Essa reflexão sobre o tempo, o instante, o passado, o futuro tem um consistente conteúdo filosófico. É uma divagação sobre a existência, sobre a vida do homem no planeta. E esse tipo de divagação está presente em toda a literatura de Clarice Lispector. Não seria ela uma autêntica filósofa, que se desviou do seu verdadeiro caminho e acabou se tornando romancista?

A proposta de realizar um curso de Filosofia que tem como base um texto de Clarice Lispector (em vez de um texto de Derrida, por exemplo) é algo que quebra um paradigma e promove algo de revolucionário no ensino acadêmico. Por que não estudar a filosofia contida na obra de Clarice? Aliás, isso poderia ser o início de uma revolução cultural. O IFCS poderia propor cursos de filosofia tendo como base textos de Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, ou mesmo de Gabriel Garcia Márquez. Por que não?
O texto filosófico é considerado – pelo menos nos círculos acadêmicos – como sendo superior, intelectualmente, ao texto puramente literário. O texto filosófico tem mais status intelectual. O texto literário é considerado algo menor, quando comparado a um texto filosófico. Mas, será justa essa discriminação?

Podemos tomar como exemplo o Gabriel Garcia Márquez, um escritor que merece ser estudado num curso de Filosofia. Em seu último livro, “Memória de minhas putas tristes”, ele conta a história de um homem velho que, sentindo a aproximação da morte, resolve se presentear com uma noite de amor com uma jovem prostituta. O ponto de partida literário do livro é esse. Mas, ao contar sua história, Garcia Márquez, faz uma  série de reflexões sobre a velhice, sobre a existência, sobre o tempo e sua relação com o homem. Ao leitor, impressiona não só o enredo do romance, mas, principalmente, as reflexões contidas no texto. Não poderíamos considerar esse, um texto filosófico? Em outro romance do autor, “O amor nos tempos do cólera”, a trama do livro serve de base para uma série de reflexões sobre o amor, a paixão e a existência humana. Não poderia esse livro ser adotado por um curso de Filosofia?

Jean Paul Sartre foi bem sucedido nos dois universos. Conseguiu se destacar não só com seus textos filosóficos, mas também com seus textos literários. Escreveu romances (A idade da Razão), peças de teatro (Entre quatro paredes) e textos filosóficos (Crítica da razão dialética).  Sartre foi essencialmente um filósofo e seus textos literários parecem ter sido construídos com o objetivo de fazer reflexões sobre a existência, não fosse ele um representante da corrente filosófica conhecida como existencialismo.  Pois bem. O próprio filósofo, em entrevista que faz parte do documentário “Sartre por ele mesmo”, distingue, de forma discriminatória, o texto literário do texto filosófico.  “A filosofia não pode ser exercida através da literatura, já que o texto filosófico precisa de uma linguagem própria, precisa usar termos técnicos para ser reconhecido como tal”, disse Sartre.

Será que devemos concordar com Jean-Paul Sartre? Com seu raciocínio o companheiro de Simone de Beauvoir busca ratificar a convenção intelectual de que a Filosofia é coisa restrita a poucos, é algo para iniciados. Não é qualquer um que pode filosofar. Não basta ser escritor para filosofar. Tem que ser filósofo. Talvez não adiantasse argumentar para ele que o texto literário de Clarice Lispector é absolutamente existencialista. Em Água Viva Clarice não busca contar uma história, uma trama engendrada, um conflito amoroso, ou uma tragédia passional. O livro fala apenas de alguém, um ser humano qualquer e suas reflexões acerca de fatos da vida. O narrador se mostra ser alguém perplexo diante dos dilemas da existência. E ficar perplexo diante de algo ou de um fato é um comportamento típico de um filósofo. O que seria da filosofia se não fosse a perplexidade? Pois ninguém estaria exagerando se dissesse que Água Viva é um texto sobre a perplexidade. Mas o conservadorismo que cerca a Filosofia impediria um filósofo acadêmico de reconhecer Água Viva como um texto filosófico. “Falta os necessários termos técnicos”, diria o saudoso Sartre. E, de certa forma, usar os “termos técnicos”, significa elitizar a Filosofia, fazer com que ela seja algo para iniciados, seja algo relativo aos círculos acadêmicos. Uma vontade clara de que a condição de filósofo seja restrita a poucos, ou apenas àqueles que possuem uma formação acadêmica específica. 

Ter a capacidade de usar os “termos técnicos” significa possuir um status dentro da hierarquia filosófica. Quanto maior a capacidade de usar os “termos técnicos”, maior o seu reconhecimento como filósofo. É o saber sendo usado como balizador de status intelectual. É o conhecimento sendo utilizado como um instrumento da vaidade. Muitos filósofos sem profundidade gostam de exibir conhecimento como forma de definir um status dentro de um grupo. Não é um comportamento muito diferente do de uma madame que usa uma roupa de grife para definir seu status perante as amigas que freqüentam o mesmo salão de cabeleireiro. Muitas vezes, na empolgação de exibir o status intelectual de grande conhecedor dos “termos técnicos” do pensamento filosófico, o pensador se esquece da máxima de Sócrates quando disse “só sei que nada sei”. Será que a humildade intelectual de Sócrates encontra eco entre os filósofos do nosso tempo?

É injusto definir um texto puramente literário como sendo “inferior” intelectualmente ao texto filosófico. É injusto que Clarice Lispector não tenha o tratamento de filósofa, coisa que, sem sombra de dúvidas, ela sempre foi. Seu trabalho nos mostra o retrato de uma pensadora perplexa diante da existência. Pode haver texto mais existencialista do que “A paixão segundo G H”? A literatura de Clarice se enquadra perfeitamente na premissa sartriana de que o ser humano primeiro existe e só depois ele é.
Eleger Clarice Lispector como tema de um curso de Filosofia quebrou um paradigma do ranço intelectual que permeia o estudo acadêmico. A presença da literatura como elemento de estímulo ao pensamento, à reflexão, é algo que só enriquece a Filosofia.
O ensaio “Paixões da literatura: ética e alteridade em Derrida”, da professora Carla Rodrigues, nos mostra o quanto Derrida se valeu da literatura como referencia para turbinar sua filosofia.

 
“Uma das paixões de Derrida pela literatura foi a possibilidade de embaralhar as supostas distinções entre ficção e não-ficção... Neste embaralhamento, a literatura ganhará ao mesmo tempo uma função e um lugar. Embora não sejam termos intercambiáveis, função e lugar vão aparecer como estratégia de questionamento da tradição ético-política, sobretudo como consequência da discussão que Derrida estabelecerá com Kant. A literatura será então o lugar privilegiado de “tudo dizer, tudo aceitar, tudo receber, tudo sofrer e tudo simular”.

Impressionante como o conteúdo do trecho acima nos remete a Clarice Lispector. De qualquer modo, Derrida nos parece fazer, como argumenta o texto, um apaixonado relato sobre o significado da literatura dentro de sua bagagem intelectual. Mas, de qualquer modo, ele coloca a literatura como algo à parte no que diz respeito ao universo filosófico.  O texto literário é uma coisa, já o texto filosófico é outra. Talvez seja o caso de unir esse dois universos. Um texto literário pode sim, servir de pretexto para elucubrações filosóficas. Afinal, não é raro o leitor encontrar reflexões contundentes em peças literárias de Garcia Márquez, Clarice, Guimarães Rosa, Dostoievski, Steinbeck, ou mesmo Nelson Rodrigues.  Trazer a literatura para o universo acadêmico pode injetar sangue novo ao estudo e a compreensão do que seja a Filosofia no século 21.


19.11.14



ENCONTRO DE ESTRELAS - Quando esteve em Los Angeles o Presidente Juscelino Kubitschek visitou os estúdios de cinema em Hollywood. Ali encontrou com Marlon Bando, que estava filmando cenas do filme "O grande motim". Marlon Brando foi muito simpático e gentil com o presidente brasileiro e, ao posar para fotos, segurou no braço de JK, puxando-o para ficar mais perto de si. A foto é de 1961 e, na ocasião, JK já não era mais presidente, pois já tinha passado o cargo para seu sucessor, Janio Quadros. O filme "O grande motim" foi dirigido por Lewis Milestone etinha no elenco Richard Harris e Trevor Howard.


13.11.14



UMA LÁGRIMA PARA DOM PEPE - Já dancei muito ao som desse cara. Desde a época em que os DJ´s eram chamados de discotecários. O querido Dom Pepe morreu essa semana. E essa notícia, além de tristeza, me encheu de nostalgia. Eu era um garoto quando ia ao Morro da Urca vê-lo tocar no Dancing Days. Naquele tempo eu adora boate, discoteca ou qualquer coisa que tivesse uma pista de dança. Mas lá no "Dancing" era diferente. (Era assim que os íntimos se referiam a casa noturna: "o Dancing"). Só lá tocava "Hurricane", com Bob Dylan, que na época eu achava a melhor música ara dançar que poderia existir. Quando Dom Pepe tocava "Hurricane" eu corria para a pista de dança. Isso se eu já não estivesse por lá, me esbaldando a noite inteira. Foram noites incríveis. A Scarlet Moon estava sempre por lá, linda, com aquele sorriso largo que era a cara do Rio. E tinha toda uma fauna de cariocas descolados que ficavam a noite inteira bebendo, fumando e curtindo. E quando a gente ia embora o dia estava amanhecendo. Tantas vezes eu desci do Pão de Açúcar com o sol nascendo no horizonte, e o bondinho lotado com um monte de gente doida e bacana. E Dom Pepe lá, entre eles. Mas isso foi nos primórdios de todo um movimento dançante da vida do Rio. Alguns verões depois o Dancing Days se transformou no Noites Cariocas, tocando essencialmente música brasileira. Depois teve a época do "African Bar", no Leblon. Esse lugar era uma loucura! E Dom Pepe estava no comando do som, arrasando nas carrapetas. E também teve os bons tempos do "Mamma África", que os bofes de Ipanema logo apelidaram de "Mamma Rôla". Era hilário. Em vez de falar que iam ao "Mamma África", os debochados falavam que iam ao "Mamma Rôla"...   Mas Don Pepe não era apenas vida noturna. Sua praia era o Arpoador, onde gostava de ficar até o pôr do sol, batendo papo com os surfistas veteranos do lugar.

Descanse em paz, meu querido...



5.11.14









Marilena Ansaldi: 80 anos em cena 


O público que lotou o Teatro Municipal na noite desta terça ficou boquiaberto com o espetáculo "Paixão e Fúria - Callas o Mito", criação do "Studio 3 Cia de Dança". A união perfeita entre uma coreografia original e uma sucessão de efeitos visuais bacanas mexeu com os sentidos de todos. No centro de tudo a lendária bailarina Marilena Ansaldi que, naquela noite, completava 80 anos. Festejou o aniversário como gosta: dançando. Com a leveza de uma adolescente, dominou a cena numa coreografia inspirada no mito de Maria Callas. Grata por estar participando de um momento tão especial da grande artista, a plateia encerrou a noite cantando parabéns, enquanto a diva rodopiava em cena. Foi comovente!