15.2.14



REVOLUÇÃO DE 64 COMPLETA 50 ANOS – As lembranças que tenho do governo militar são lembranças que estão atreladas a minha infância. Eu era menino quando os militares estavam no auge do poder político. Lembro que minhas tias Vasti e Virgínia me levavam para assistir a parada militar. Elas gostavam de ver o desfile e paquerar os soldados. E eu ia junto, menino, adorando tudo aquilo. Até hoje, todos os anos, eu vou à parada de 7 de Setembro. E aquele sentimento de infância me bate forte quando acontece o desfile, quando vejos os soldados marchando e a banda de música tocando o Cisne Branco, o hino da marinha, que é uma das músicas mais bonitas que eu já ouvi.

Minhas tias diziam que comunistas comiam criancinhas. Comiam no sentido alimentar, no sentido canibal. E isso marcou minha infância. E não eram só elas. Lembro de outros adultos comentando, sempre baixinho, em tom conspiratório, que os comunistas comiam criancinhas. Falavam outras coisas horríveis sobre os comunistas, mas, o que me atingia era essa história de que os comunistas comiam criancinhas. Eu ficava assustado e sempre me imaginava sendo assado num espeto. “Será que eles botam algum tempero? Sal, molho à campanha, pimenta do reino?”, eu me perguntava, nas minhas fantasias.

Havia muita ignorância sobre o que era realmente o comunismo e essa ignorância sobre algo que não se conhecia gerou muito conflito, muita dor, naqueles tempos. Lembro que certa vez carros do exército pararam em frente a casa de um vizinho da nossa rua. Eles ficaram o dia inteiro parado lá na porta, enquanto lá em casa se cochichava que eles estavam atrás do dono da casa, que era comunista. Daí eu e meus irmãos fomos proibidos de brincar com os filhos dele. E minhas tias pararam de falar com a mulher do vizinho. Mas eu me recusei a aceitar as determinações dos adultos. Eu era um menininho, mas já tinha personalidade. Continuei falando com meus vizinhos. Lembro de uma vez que minha tia Virginia, ao me ver falando com a vizinha, me puxou rude pelo braço e me disse no ouvido, entredentes. “Eles são comunistas e comunistas comem criancinhas”.

Essas lembranças da minha infância me serviram de inspiração para escrever o livro Ipanema em Lágrimas, que vai ser lançado no próximo dia 20 de Fevereiro, na Livraria da Travessa, em Ipanema. É, essencialmente, uma história de ficção sobre o governo militar, que em Março completa 50 anos. Mas os pilares que sustentam a história são as lembranças que tenho da minha infância, quando se dizia que comunistas comiam criancinhas.

Leia o livro no site da Editora Faces 

14.2.14



LEONARDO LEITE SÓ EXISTE UM – O judoca e lutador de MMA Leonardo Leite contou ontem, no seu Facebook, que existe alguém se fazendo passar por ele  e assediando mulheres, por telefone, skype e e-mail. O lutador parecia muito chateado. Leonardo é um gentleman, um cavalheiro. Quem o conhece sabe que ele é um atleta dedicado e um homem de caráter. E também um sujeito discreto. Para ele ter vindo a público e denunciar esse clone é por que a coisa deve ter ficado complicada.

Segundo Leo contou no Facebook, já há bastante tempo alguém vem contatando mulheres como se fosse ele. “Infelizmente e sinceramente não sei o motivo pelo qual essa pessoa faz isso. Algum “amigo” meu e quando digo que é amigo, é porque essa pessoa sabe muito sobre a minha vida”, escreveu Leo na sua página. Eu diria que é um amigo da onça. O sujeito liga para mulheres, se fazendo passar pelo atleta, e as seduz. Muitas garotas caem na conversa, acreditam que estão sendo assediadas pelo campeão e quando descobrem a verdade entram em paranoia. Criam casos, fazem ameaças, se descabelam. A coisa chegou num ponto tal que o lutador teve que ir na polícia denunciar o que estava acontecendo.


Espero que depois dessa denúncia esses fatos desagradáveis parem de acontecer. E que esse falso amigo tome vergonha na cara e pare de ficar enganando mulheres desavisadas. Mas, quando li o drama do lutador do Facebook, a primeira coisa que me ocorreu é que esse fato daria um ótimo roteiro para um filme. Um lutador famoso, um pilantra invejoso, e várias mulheres sendo enganadas. Sem dúvida, é uma história para o cinema. 


CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO – Foi exibido ontem à noite, no Canal Brasil, o filme Como Esquecer, dirigido por Malu de Martino. Não conhecia o filme, mas tive o maior prazer em conhecer. É um filme sério, com uma narrativa densa e  uma linguagem própria. Parece um (bom) filme argentino. E tem um toque de Bergman que dá um charme todo especial a história. Tem também os enquadramentos feitos com capricho, e que valorizam as imagens captadas pela fotografia. E o trabalho dos atores é primoroso. Ana Paula Arósio está muito bem interpretando uma professora de literatura inglesa amargurada e sofrida. Assim como Murilo Rosa,  que surpreende com uma atuação sutil e inteligente. A diretora sabe conduzir os atores e consegue tirar o melhor de todo o elenco: Bianca Comparato, Natália Lage, Arieta Correia, Ana Kutner e Analu Prestes.  Tudo embalado ao som de K D Lang. Quero ver novamente...

12.2.14


Viver é aprender a medida das coisas.

NÃO É POR VINTE CENTAVOS! – O prefeito Eduardo Paes publicou no Facebook nota de pesar pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes. Muito elegante da parte do prefeito. Mas, não podemos esquecer que nada teria acontecido ao cinegrafista se Eduardo Paes não tivesse aumentado as passagens de ônibus. Nesse momento em que a mídia destaca de forma implacável a prisão do rapaz que teria lançado o rojão que atingiu o profissional da imprensa, é importante lembrar que o estopim de todos os acontecimentos foi o o aumento das passagens de ônibus, autorizado pelo Prefeito Eduardo Paes.

Há pouco mais de seis meses quase acontece uma revolução nesse país por conta do aumento das passagens de ônibus em São Paulo. “Não é por vinte centavos”, gritavam os manifestantes por todo o país, numa referência ao valor do aumento da tarifa do transporte público. Foi, no mínimo, falta de sensibilidade com a opinião pública a atitude de Eduardo Paes. Seu decreto autorizando o aumento das passagens é que provocou toda essa confusão. Vale lembrar que parecer do Tribunal de Contas do Município recomendava que o valor da passagem deveria diminuir. Mas o prefeito, atendendo seus interesses políticos, decidiu aumentar o valor.

Certamente Eduardo Paes apostou naquela teoria furada de que o brasileiro não tem memória. Ou então acreditou demais na sua esperteza política. Achou que ia aumentar o valor das passagens de ônibus e ia ficar por isso mesmo. Acreditou que as manifestações eram coisa do semestre passado e que não ia acontecer nada de anormal. O fato é que sua atitude resultou numa manifestação onde aconteceu a morte de um profissional da imprensa. A mídia, de um modo até compreensível, por ter se sentido diretamente atingida, só está preocupada em crucificar aquele que teria acendido o rojão que atingiu o cinegrafista. E, de forma cega e tendenciosa, está ignorando o estopim dos acontecimentos: o aumento das passagens.

O incidente que resultou na morte do cinegrafista merece uma reflexão. Há pouco mais de seis meses o país viveu momentos de tensão com uma série de passeatas e manifestações, com diversas reivindicações do povo brasileiro. Era de se esperar que depois de tudo aquilo acontecessem mudanças no governo, nos partidos políticos, no modo das autoridades lidar com as aspirações da sociedade. Mas, nós podemos observar claramente que nada mudou. E a atitude do Eduardo Paes é um exemplo claro disso.

Para os políticos brasileiros, foi como se não tivesse acontecido nada. Seja a nível municipal, a nível estadual ou a nível federal, não houve mudança alguma. Da presidente da república, ao mais reles dos vereadores, foi como se as manifestações tivessem acontecido em outro planeta. Todos ignoraram solenemente tudo o que houve no Brasil durante a Copa das Confederações. Dilma Roussef e todos os outros agem como se aquilo não tivesse nada a ver com eles. Todos fizeram ouvidos moucos aos gritos de desespero do povo brasileiro.

É sintomático que tudo isso esteja acontecendo no ano em que se comemora os 50 anos do governo militar. É chegada a hora de se fazer uma grande reflexão sobre a democracia brasileira. Será que vivemos mesmo uma democracia?   


10.2.14



A leitura é a viagem de quem não pode pegar um trem.

9.2.14



CRIMES E PECADOS – Nunca assisti a um filme do Woody Allen que eu não pudesse chamar de obra-prima. Inclusive todos que foram estrelados por Mia Farrow, como Simplesmente Alice, A Outra, A era do rádio, Setembro e Crimes e Pecados. Tenho grande admiração pelo cineasta e tenho acompanhando com perplexidade e cinismo toda essa confusão envolvendo seu nome, que veio à tona depois que sua filha adotiva escreveu uma carta ao site do New York Times acusando o diretor de ter praticado abuso sexual quando ela era criança.

Não acredito que seja verdade. Woody Allen me passa muito mais credibilidade do que Mia Farrow. Sei que o assunto é delicado e ninguém mais do que as pessoas envolvidas deveriam estar discutindo esse assunto. Mas foi a filha adotiva Dylan Farrow quem começou. No momento em que o cineasta foi homenageado pelo Globo de Ouro e está indicado ao Oscar, ela trazer esse assunto novamente à tona, de forma tão crua, é por que ela está querendo que o assunto seja discutido. Dylan não é mais uma menina de sete anos. Ela agora é uma mulher adulta e quer se vingar do seu pai adotivo. Em sua resposta às acusações, Allen sugere que a carta de Dylan deve ter sido escrita pela própria Mia. (Sabiam que o verdadeiro nome da Mia é Maria de Lourdes?)

Anos atrás, quando estava em Nova York, eu encontrei Monique, uma velha amiga que morava por lá. Ela é uma pessoa muito divertida e sempre foi muito rebelde. Certa vez, enquanto passeávamos no Central Park, Monique me contou uma história que nunca esqueci. Ela me disse que quando tinha sete anos estudava num colégio de freira. Ela não gostava de viver ali e detestava as freias. Então, um dia, quando seus pais foram visitá-la, a pequena Monique bolou um plano para se livrar do colégio. Quando a freira foi buscá-la, no seu quarto, Monique começou a bater sua própria boca contra a quina da porta. Bateu várias vezes, até seus lábios começarem a sangrar. Depois começou a fingir que estava chorando e correu em direção aos seus pais gritando que a freira lhe tinha dado um soco na boca. Os pais, diante daquela menininha linda, de cabelos loiros, chorando com a boca ensangüentada, não tiveram dúvida que ela tinha mesmo levado um soco. “A freira se fudeu e meus pais nunca mais quiseram saber de me botar em colégio interno”, me confessou Monique, às gargalhadas.

Não sei o por quê, mas Dylan Farrow me lembra muito minha amiga Monique!

Sempre achei muito esquisita essa mania de Mia Farrow adotar crianças. Entre legítimos e adotados, ela tem quatorze filhos. Como uma pessoa pode cuidar de quatorze filhos? Ter um único filho já demanda muito cuidado, muita atenção, muita energia de uma mãe. Imagine quatorze filhos! Vamos supor que fosse verdade, que a pequena Dylan tivesse mesmo sido vítima de um abuso. Não seria o caso de perguntar onde estava a mãe dela? Sete anos é uma idade em que uma mãe tem a obrigação de monitorar todos os passos de uma filha. Com quatorze filhos, será que uma mãe tem como fazer isso? Ela parece ter sido negligente no quediz respeito ao bem estar dos seus filhos.

A gente sempre tem que lembrar que essa história do suposto abuso sexual aconteceu em meio a separação do casal. Já vi tantos casais que se amavam, se adoravam e que, depois de um briga, uma separação, devotam um ao outro o mais venenoso dos ódios. Nem antes, nem depois, jamais surgiu nenhuma outra alegação sobre a conduta do diretor. “O céu conhece a fúria de uma mulher rejeitada”, costumava escrever Paulo Francis em sua saudosa coluna Diário da Corte. Acredito que essas acusações façam parte de uma vingança de uma amante rejeitada. Mia, Maria deLourdes, nunca deve ter assimilado a separação. Ter sido trocada por uma mulher mais jovem, é sempre doloroso para qualquer mulher. No caso da Mia foi muito pior. A mulher mais jovem era sua filha adotiva deum casamento anterior com o maestro André Previn. E tem mais. Não podemos esquecer que ela é uma atriz. E ao perder o companheiro, Mia perdeu também seu diretor. Durante o casamento ela protagonizou alguns dos melhroes filmes de sua carreira. Com a separação, nunca mais ela fez um grande filme. Com Woody ela fazia um grande filme praticamente todos os anos.

Esse é ou não um bom motivo para que uma atriz se transforme num pote até aqui de mágoas?

Em sua defesa publicada no New York Times Woody Allen sugere que a raivosa carta de Dylan deve ter sido escrita pela própria Mia. “E se fosse com sua filha Cate Blanchet?” É possível. Mia deve estar morrendo de inveja de Cate Blanchet, indicada ao Oscar pelo papel principal no filme Blue Jasmine. Mia deve estar pensando: “Se ele ainda fosse casado comigo, certamente eu teria feito o papel de Blue Jasmine e eu estaria sendo indicada ao Oscar”.  Ao citar Cate Blanchet na carta, Mia certamente espera que os membros da academia não votem na colega. Acredito que ela seja má o suficiente para fazer isso. Só uma pessoa movida por muito ressentimento seria capaz de expor uma filha a uma situação tão constrangedora como ela expôs. Mesmo que o abuso fosse verdade, expor a criança da forma como ela sempre expôs, só faz tornar tudo mais doloroso para a própria vítima. E, me parece, que prejudicar Woody Allen é, para ela, mais importante do que manter o bem estar dos seus filhos.

Sempre fui fã de Mia Farrow e vou continuar sendo. Já gostava dela quando, ainda criança, a via na TV, no seriado A Caldeira do Diabo. Ela está magnífica em dois dos meus filmes favoritos: O Bebê de Rosemary e O Grande Gatsby. E tem também Terror Cego, Cerimônia de Casamento, Cerimônia Secreta e Jonh and Mary.

Também sou fã do Woody Allen e vou continuar sendo. Agora mais do que nunca. Não vejo a hora de assistir seu próximo filme. Toda essa baixaria só fez com que eu gostasse ainda mais de ambos. Afinal, eles estão protagonizando um filme divertidíssimo. Só que na vida real.



7.2.14



DE OLHO NA NOTÍCIA – O jornalista Sidney Rezende publicou nesta primeira sexta-feira de fevereiro, no SRZD, um interessante editorial sobre o momento em que vive a sociedade brasileira. Sou fã do Sidney desde à época em que fomos colegas do curso de Comunicação Social da PUC. Ele sempre foi assim: um sujeito que respira jornalismo por todos os poros. Observador atento da vida brasileira, ele tem se mostrado muito preocupado com os rumos do país. Apaixonado por sua atividade profissional, ele está indignado com o atentado sofrido pelo cinegrafista da TV Bandeirantes, atingido por um morteiro durante uma manifestação no centro do Rio. Em solidariedade a Santiago Ilídio Andrade, reproduzo abaixo o texto assinado por Sidney e publicado no SRZD.



Editorial - Que país queremos? 

O que quer a sociedade brasileira? O que cada um de nós espera para nosso país já, imediatamente? Chegou a hora da verdade. As perguntas essenciais estão sem resposta. O ciclo de inteligência e representação terminou. A nossa agenda mofou e não estamos sendo capazes de produzir uma mais atual para nortear os próximos anos. Ela terá que ser curta, objetiva, simples e fácil. O SRZD entende que a raiz dos nossos problemas não está no efeito chamado corrupção e sim na causa, falta de capacitação educacional para solucionar problemas gerados por nós próprios. Diante da incapacidade de criar, operacionalizar e implantar uma agenda nacional, partimos para o espaço sem cabos presos a nada. Somos o país que não consegue fazer 3 operações na implantação de projetos públicos e privados: início, meio e fim. Nós já estamos na rota imperfeita tão prestigiada pelos "fora de rumo". O destino, mesmo que não saibamos claramente em que momento haverá a primeira parada, pode ser a barbárie irreversível. O governante rouba dinheiro público, não é preso, e para nós tudo bem. Até adotamos um risinho conformado. A polícia não age, não tem importância, nós próprios escolhemos na rua um negro, pobre, sem camisa, magrelo, autor de pequenos furtos e o dizimamos, esfolamos e depois botamos uma tranca de bicicleta na garganta dele. Isto com apoio de âncoras populares que sacam impropérios nos seus programas de TV. E tudo bem, também. Alguém praticou um assalto no ônibus e nós não hesitamos em apoiar o justiçamento. Aparece um cidadão qualquer, saca uma arma e estraçalha a cabeça dele e o mata. Também, "tudo bem" para nós. O transporte público é tétrico em todas as cidades brasileiras, a escola é ruim, os hospitais não funcionam, as entidades médicas que representam estes profissionais são clubes de corporativismos, o aparelhamento do estado, a desfaçatez de quem enriqueceu de forma escusa e que posa de cidadão de bem... Tudo isso é o fruto da sociedade sem rumo, de ética duvidosa e de gestos covardes. O SRZD clama ao povo brasileiro: "Que país queremos?" Nesta sociedade sem controle, serão comuns tragédias chocantes e, que, breve, se tornarão banais. Veja o caso simbólico que envolve um trabalhador em pleno exercício legal do seu ofício. Nos referimos ao cinegrafista da "TV Bandeirantes" Santiago Ilídio Andrade, que foi atingido por uma bomba durante manifestação na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. O profissional gravava o protesto contra o aumento de passagens quando uma bomba explodiu ao lado de sua cabeça. Depois de submetido a uma delicada cirurgia, as primeiras informações são de que ocorreu perda de massa encefálica e sacrifício de uma das orelhas. O sentimento é de desolação entre os colegas de profissão. Nestes dias de confusão mental, até profissionais da imprensa já questionam se o jornalista deve estar fisicamente presente em situação de risco. A posição oficial do SRZD é crua: o jornalista deve estar onde não se quer que ele esteja. E também estar onde se espera que ele não deveria deixar de estar jamais. 
O que quer a sociedade brasileira? O que cada de um nós espera para nosso país já, imediatamente? Basta, abaixo a covardia. (Sidney Rezende)

2.2.14



A HORA E A VEZ DE DIRA PAES – Em entrevista concedida a jornalista Roni Filgueiras, para a revista ELLE, que está nas bancas, a atriz Dira Paes diz “achei que a TV não era o meu meio por estar fora dos padrões estéticos”. Adoro Dira Paes. Eu me tornei seu fã desde que a vi, ainda menina, no filme A floresta de esmeraldas, obra-prima dirigida por John Boorman.

A floresta de esmeraldas é o melhor filme, já produzido até hoje, que tem por tema a destruição da natureza pelo homem. Na época em que foi lançado, 1985, falar do meio-ambiente não era moda. Ninguém falava em preservação da natureza. As pessoas viviam como se o planeta Terra fosse uma fonte inesgotável de maravilhas para deleite do ser humano. Mas John Boorman foi um visionário e realizou um filme contundente sobre os excessos do homem na sua obsessão capitalista de transformar os recursos do planeta em dinheiro.

Como já disse, o filme é uma obra-prima. Merecia ser visto e revisto pelas novas gerações. E Dira Paes está lá, linda e talentosa, fazendo uma menina índia por quem o jovem protagonista do filme, interpretado pelo ator Charley Boorman, o filho do diretor, que a menina Dira acabou namorando, na vida real. John Boorman dirigiu clássicos do cinema como Amargo Pesadelo, Zardoz e Excalibur.

O fato de ter estreado no cinema pelas mãos de um grande diretor premiado duas vezes em Cannes não foi exatamente um cartão de visitas irrecusável para a atriz. Depois do filme, ela se mudou de Belém para o Rio a fim de tentar carreira artística, mas as coisas não foram fáceis. Dira ficou anos e anos na batalha, ganhando pouco, sendo esnobada pela grande indústria brasileira de diversões. Mas ela sempre foi guerreira, profissional e, o melhor de tudo, uma pessoa tranquila. Sempre soube que o que era dela estava guardado e que seu destino era ser atriz. Mas, se a TV não lhe deu espaço, o cinema brasileiro nunca lhe deixou faltar trabalho.

Conheci Dira Paes na época em que eu era assistente do Antonio Calmon, na TV Globo. Ela estava trabalhando no espetáculo Capitães da Areia, que tinha no elenco os meninos André Gonçalves, Lui Mendes e Pedro Vasconcelos, que são meus amigos. Fui assistir a peça e quando a vi por ali não resisti. “Sou seu fã, adorei você no filme do John Boorman. Aquele filme é uma obra-prima”. Ela ficou surpresa por eu ainda lembrar que ela tinha feito o filme. Então perguntei porque ela não estava na Globo se ela tinha um filme do John Boorman em seu currículo. Dira sorriu e me disse: “Nem todo mundo é como você e reconhece a importância daquele filme. A maioria das pessoas nem se lembra que fiz o filme do Boorman”, disse, com serenidade.

Acabamos ficando amigos. A gente se encontrava sempre na praia, no Posto Nove. Eu a achava belíssima e adorava vê-la saindo do mar de Ipanema com seu corpo molhado refletindo os raios do sol. Lembro que certa vez eu a encontrei no Baixo Gávea com uma minissaia, toda bonita, e a beleza da moça, mais uma vez, me impactou. Como eu trabalhava com o Antonio Calmon, sempre que havia uma oportunidade eu sugeria o nome da atriz para o elenco das produções escritas por ele. E o Calmon sempre me respondia: “na minha novela não tem papel de índia”. Aquilo me deixava indignado. Sempre achei Dira Paes dona de uma beleza tipicamente brasileira. Seus traços indígenas são apenas um charme a mais.

Um belo dia a TV Globo divulgou que ia fazer um remake da novela Irmãos Coragem. Na primeira vez que a encontrei no Posto Nove depois dessa notícia chamei a atriz num canto e disse pra ela. “Dira a Globo vai fazer um remake da novela Irmãos Coragem. E nessa novela um dos principais personagens femininos é uma índia. A índia Potira. Se tem uma índia na novela, então é você quem tem que fazer esse papel”. Lembro até hoje da expressão doce do seu rosto quando lhe disse isso. Ela não tinha visto a novela original e não sabia da personagem. “Você tem que procurar a produção da Globo. Leva uma cópia do filme do John Boorman, e diz que você quer fazer um teste para o papel da índia Potira”. Dito e feito. Dira procurou a produção da novela. Acabou sendo recebida pelo diretor Luiz Fernando Carvalho que já foi dizendo que tinha uma outra atriz em mente para o papel da Potira. Mesmo assim ele fez um teste e Dira acabou ganhando o papel. Até hoje ela me agradece por ter lhe dado essa dica.

Logo depois de Irmãos Coragem sugeri o nome de Dira Paes para fazer o papel de Madalena, a protagonista da novela Salsa e Merengue, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. Foi uma dificuldade muito grande para chegar ao nome da atriz que faria a heroína da novela. Todo o elenco já havia sido escolhido, mas ninguém havia chegado a consenso sobre quem seria a atriz ideal para o papel da mocinha, uma jovem que saía de uma cidadezinha às margens do Rio São Francisco e vinha morar no Rio, na fictícia comunidade da Vila Vintém.  Um belo dia foi feita uma reunião para decidir quem ia fazer o papel. O diretor Wolf Maya havia testado algumas jovens atrizes e a direção da Globo sugeriu alguns nomes do seu cast. No meio da reunião eu disse que achava que o papel de Madalena devia ser feito por Dira Paes. Uma pessoa da produção contestou minha sugestão. “Você enlouqueceu, Waldir? A Dira Paes não tem cacife para ser a protagonista de uma novela. Dira Paes é um curumim”.  E essa pessoa usou a palavra curumim para ironizar os traços indígenas da beleza da atriz. Madalena acabou ganhando o rosto e o corpo de Patrícia França, que fez muito bem o papel.


Tudo na vida tem seu tempo e hora. Hoje Dira Paes está no auge da sua carreira. Tem o justo reconhecimento pelo seu trabalho de atriz. E também está com a sua beleza tipicamente brasileira fazendo o deleite do público. Apenas acho que a TV Globo demorou muito para descobrir que Dira Paes sempre teve de sobra aquilo que o Daniel Filho chama de “star quality”. A qualidade da estrela!




Não julgue cada dia pela colheita que você obtém, mas pelas sementes que você planta.

TARSIS, UM LUTADOR - Na  minha opinião o quimono é a peça mais elegante do vestuário masculino. Qualquer um fica elegante quando veste um quimono. Que o diga Tarsis Humphreys, o elegante faixa-preta da foto acima. Tarsys é um atleta paulista formado pela conceituada academia Alliance Jiu-Jitsu. Em seu currículo vitórias em diversos campeonatos mundiais realizados pelo mundo afora. Também tem duas medalhas de ouro adquiridas em Abu Dhabi, no famoso torneio promovido pelo Sheik dos Emirados Árabes. Quando não está participando do circuito internacional de lutas Tarsys dá aulas de jiu-jitsu em São Paulo. Tem facilidade em transmitir seus conhecimentos do esporte que pratica. Mas os golpes, e as técnicas de defesa e ataque não são os únicos temas de sua aula. Tarsis faz questão de transmitir aos seus alunos a ideia de que o melhor lutador é aquele que também é um exemplo de cidadão. Aplausos para ele. 


ELES MERECIAM UM GRAMMY - Gostei muito da vitória do Daft Punk na última edição do Grammy, o grande prêmio da música pop internacional. O disco do Daft Punk é sensacional. Escutei desde o primeiro dia em que foi lançado. Mas acho que o Grammy cometeu uma injustiça esquecendo o album Electric, da dupla Pet Shop Boys. O CD tem a mesma pegada do disco do Daft Punk, mas com aquela personalidade que é uma característica de Neil Tennant e Chris Lowe. A música Thursday é uma das que mais tenho escutado neste verão...