29.9.05







CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO - O que mais me chamou a atenção em Amor para sempre, é que o filme é absolutamente igual ao livro. Eu acho que nunca vi uma adaptação de obra literária que fosse tão fiel ao original. Sendo assim, o filme é tão prazeroso quanto o livro, que tive a oportunidade de ler no final do século passado. Uma história perturbadora sobre um professor universitário que passa a ser perseguido por um sujeito esquisito que ele conhece quando se envove num acidente. É uma fábula sobre como uma pessoa consegue sufocar e enlouquecer a outra, apenas com a sua presença. O sujeito esquisito se apaixona perdidamente pelo professor e quer convencê-lo de que o pobre homem também está apaixonado por ele.


Outro filme que tive a oportunidade de ver no Festival de Cinema do Rio foi Mistérios da carne, cujo título original é Mysterious Skin. É um filme forte e perturabador do diretor Gregg Araki. É a história de um treinador de um time infantil de baseball que seduz os garotos da equipe. Seu alvo principal é o craque do grupo, um menino de 8 anos que vai ficar o resto da vida apaixonado pelo treinador, um sujeito bonitão que parece um vaqueiro americano. O filme é bem adulto e não coloca panos quentes nos conflitos resultantes dessa relação, digamos que, perturbadora. É um belo filme sobre um tema controverso mostrado de forma adulta e inteligente.

23.9.05




SHOW DE BOLA - Alexander Pickl é um diretor de publicidade alemão que sempre foi apaixonado pelo Brasil. Quando teve a oportunidade de dirigir o seu primeiro longa-metragem decidiu filmar a história no Brasil, inspirado em Cidade de Deus, filme de Fernando Meireles, que também é um exímio diretor de comerciais. Aproveitando que o seu país será sede da próxima Copa do Mundo, ele decidiu ter o futebol brasileiro como tema do seu primeiro filme. Assim surgiu o filme Show de bola, rodado no Brasil no primeiro semestre de 2005, com um elenco totalmente brasileiro.


Com ritmo de videoclipe, uma eficiente fotografia e belas cenas de jogos de futebol, o filme Show de Bola conta a história de Tiago, um garoto da favela que tem muito talento para futebol e sua luta para se tornar jogador profissional. A exemplo de Cidade de Deus, o filme tem um grande número de cenas filmadas na favela e o elenco é formado por atores do grupo Nós do Morro, de Gutti Fraga. No papel do jogador de futebol se destaca o jovem astro Thiago Martins que, além de bom ator, dá um show jogando futebol.


Lui Mendes personifica Tubarão, o bandido que comanda o tráfico de drogas na favela. O modelo Gabriel Mattar tem uma ótima atuação como o irmão mais velho do protagonista. E a atriz Sandra Pêra tem uma magnífica atuação como a mãe dos rapazes, uma mulher doente, que precisa ser cuidada pelos filhos.


O filme foi rodado em maio e junho de 2005, então a equipe pode filmar no Maracanã antes do estádio fechar para reforma. Também foram feitas cenas no Arpoador, Botafogo, São Conrado, no campo do Fluminense e numa favela no Catete. O diretor quer lançar o filme na Alemanha, um mês antes do início da Copa do Mundo. O sonho de Alexander Pickl é que o prestígio do futebol brasileiro faça com que seu filme tenha o mesmo sucesso de Cidade de Deus.

22.9.05

VINICIUS, UMA COMÉDIA ROMÂNTICA - O filme Vinicius , de Miguel Faria Jr, pode ser classificado como uma comédia romântica. Comédia porque o filme é muito engraçado e faz o espectador tanto sorrir como gargalhar. Romântica porque o personagem retratado foi um homem que viveu do amor. Amor pela vida, pelos amigos, pelas mulheres, pela arte. E o diretor conseguiu, com muito talento, traduzir no filme a personalidade do homem, do diplomata e do poeta Vinicius de Moraes. Intercalando com muita propriedade imagens do artista com depoimentos de pessoas que conviveram com ele, clipes de algumas de suas mais famosas canções, e poemas recitados pelos atores Ricardo Blat e Camila Morgado, o filme constrói um painel informativo e inteligente deste que foi um dos grandes artistas brasileiros e um filósofo do estilo brasileiro de viver.


"O Vinicius ajudou o povo brasileiro a ser feliz", diz Ferreira Gullar no seu depoimento. E o filme mostra isso de forma bem clara: com sua música, sua poesia e o seu jeito de viver, Vinicius fez o Brasil se divertir, sonhar e amar. O depoimento das pessoas que conviveram com ele comovem pela sinceridade. O diretor, que já foi casado com Suzana de Moraes, filha de Vinicius e conviveu com ele e com alguns de seus entrevistados, se aproveitou dessa intimidade para extrair depoimentos muito sinceros dos seus entrevistados, todos amigos ou parceiros do poeta. A diva do teatro brasileiro Tonia Carrero dá um depoimento magnífico. "O Vinicius era capaz de fazer qualquer baixaria para conquistar uma mulher" diz ela, ao descrever o sofrimento e o ardor do artista quando envolvido em suas conquistas amorosas.


Aliás, os amores de Vinicius têm a função de dividir o filme em capítulos. A cada novo amor, novas histórias, novas músicas, novas aventuras. A cantora Maria Bethânia provoca gargalhadas ao contar como Vinícius conheceu sua amiga Gesse, no bar Pizzaiolo, em Ipanema. Suzana de Moraes também diverte o público ao contar seu drama quando descobriu que seu pai tinha uma filha, Luciana, com outra mulher. Os depoimentos são todos recheados de histórias deliciosas. Caetano Veloso diverte a platéia ao contar como, quando adolescente, confundiu Vinicius de Moraes com a ator Haroldo Costa, protagonista da peça Orfeu da Conceição. Edu Lobo emociona quando descreve um dos seus últimos encontros com o poetinha.


Entretanto, quem rouba o filme, é o Chico Buarque. Totalmente à vontade, relaxado, de um jeito que o público nunca viu, Chico conta várias histórias de sua convivência com o Vinícius, desde os tempos de garoto até a época em que trabalharam juntos. Com humor e carinho, é dele o maior depoimento que, praticamente, conduz o filme, como se Chico fosse um mestre de cerimônias. Se não bastasse a qualidade do seu depoimento, que dá vontade de aplaudir, Chico ainda dá um show de charme e beleza. Ele está lindo. Deslumbrante. Parecendo ter menos que a metade dos seus sessenta anos. Vê-lo falando de Vinicius já é uma razão para assistir a esse filme. Mas existem outros motivos relevantes como, por exemplo, a beleza das imagens de época, fruto de um atento trabalho de pesquisa, assim como o material do arquivo da família que registram cenas preciosas como o Vincius cantando, cercado de amigos, numa festa na sua casa.


Mas nada se compara as cenas de Vinicius de Moraes e Tom Jobim bêbados. A platéia vai ao delírio com as bobagens divertidas que eles falam. É nesse momento que o público sente, com mais verdade, como eles foram loucos maravilhosos, que mergulharam na vida de peito aberto e por isso fizeram com que sua arte tocassem o coração das pessoas. Se existe uma crítica a ser feita a esse filme, é a de que ele acaba muito rápido. Não que seja um filme curto. Ele tem as duas horas usuais de um espetáculos cinematográfico. Mas o filme é tão envolvente, gentil e delicado com a platéia que acaba deixando no espectador um adorável gosto de quero mais.




SAMBA PARA VINICIUS (Chico e Toquinho)


Poeta
Meu poeta camarada
Poeta da pesada
Do pagode e do perdão
Perdoa essa canção improvisada
Em tua inspiração
De todo o coração
Da moça e do violão
Do fundo


Poeta
Poetinha vagabundo
Quem dera todo mundo
Fosse assim feito você
Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer
A vida é pra levar
Vinicius, velho, saravá


O AMOR NOS TEMPOS DO FUNDAMENTALISMO - Em pleno século XXI, enquanto a ciência, a medicina e a tecnologia surpreendem com a sua evolução, setores da sociedade ainda preferem lidar com o diferente através das lentes nebulosas da intolerância e do preconceito. Foi por causa dessa mesma dupla dinâmica, a intolerância e o preconceito, que milhões de judeus foram exterminados pelos alemães na Segunda Guerra. A tragédia inerente a esse fato histórico parece não ter servido de aprendizado para os homens que hoje, mais do que nunca, continuam tratando como inimigos aqueles quem têm hábitos culturais contrastantes.


O fundamentalismo, seja religioso, ideológico, sexual ou econômico, continua circulando livremente no mundo moderno. Pois é num mundo que prioriza o ódio como uma maneira de lidar com o diferente que acontece a história de amor entre John Pitt e Shirin Faramed, protagonistas do livro Um bom lugar para morrer, que está sendo lançado pela Record. A despeito da tirania dos que cultuam o ódio como elemento de comunicação com o outro, muitas vezes, a pureza do amor faz com que alguns diferentes sintam-se irresistivelmente atraídos uns pelos outros. É o que acontece com os protagonistas do livro, um casal separado por enormes barreiras culturais que, depois de uma simples troca de olhares, descobrem que querem viver juntos o resto de suas vidas.


Essa apaixonante história de amor tem como cenário o Irã, em meados dos anos 70, quando o país entrou num processo revolucionário que acabou destituindo o Xá e permitiu a ascensão do aiatolá Khomeini. John Pitt é apenas um jovem inglês que quer conhecer o mundo e acaba indo morar no Irã pois tem uma curiosidade juvenil por culturas diferentes da sua. Como forma de sobreviver no Irã ele dá aulas de inglês para jovens em Isfahan, uma das maiores cidades do País. É no curso de inglês que ele conhece a bela Shirin Faramed filha de um alto oficial do governo cujo líder político é o Xá.


A atração entre o jovem professor e a voluntariosa aluna cuja beleza se oculta no xador, surge quando trocam o primeiro olhar. Afinal, os olhos são a única parte do corpo que o xador, o típico traje feminino iraniano, deixa a descoberto. Desde o primeiro olhar, um sentimento forte e verdadeiro se instala no coração daquelas pessoas. John e Shirin se amam e isso é tudo o que existe para eles. Nada mais importa. Eles querem ser um do outro. Querem se tocar, se beijar, conversar e esquecer as barreiras culturais e morais que separam suas vidas. O amor que os une é rejeitado pela sociedade conservadora que os cerca. Cegos de paixão decidem ficar juntos, a despeito do mundo cruel que condena aquele amor. Pressionados, decidem fugir e se escondem nas ruínas de um palácio, às margens de um lago que descortina uma paisagem de rara beleza. Ali, escapam de um atentado. Na fuga, ao observar a beleza do lugar, a jovem heroína diz ao amado que ali seria um bom lugar para morrer.


A situação piora quando o aiatolá Khomeini, guia espiritual do povo iraniano, tira o poder das mãos do Xá e instaura a República Islâmica do Irã, caracterizada pelo cerceamento das liberdades individuais. Aliando fervor religioso e sentimentos antiimperialistas o novo regime rejeita conquistas da sociedade como a educação laica e a presença feminina no mercado de trabalho, considerados males do mundo moderno. No meio dessa confusão o casal apaixonado se esconde às margens do golfo pérsico onde obtém uma paz provisória até que o desdobramento da revolução transforma o sonho de amor num pesadelo. John é preso como espião e separado de sua amada. Na prisão é torturado e submetido a humilhações enquanto a jovem é obrigada a viver escondida com a filha do casal.


Anos depois, quando sai da cadeia, obcecado pela mulher que ama, John continua no Irã, tentando encontrar a bela dama que conquistou seu coração com apenas um olhar. Essa história de amor que atravessa duas décadas é contada com verdade e lirismo pelo romancista James Buchan, que durante dez anos foi correspondente internacional do jornal Financial Times em diversos países. A velha trama literária do amor impossível funciona com perfeição no livro ambientado num mundo que parece ter sucumbindo ao fundamentalismo. Enquanto narra as agruras do romântico casal num intricado labirinto político, o romance descreve com ardor as descobertas cotidianas dos segredos culturais de cada um. Como no trecho a seguir, pinçado do décimo capítulo do livro:


Ergui a saia dela até o seio. Uma esfoladura profunda espalhava-se até as costelas. Lutei contra a tentação de beijar a escoriação. Peguei Shirin nos braços e caminhei para a casa. Ela se debateu. Enquanto eu subia os degraus, ela fechou os olhos; mas não de dor, ou não só de dor, mas pelo contrário. Percebi, horrorizado, que ela nunca tinha sido carregada, nunca lhe haviam permitido o luxo da fraqueza, nunca ficara doente ou exausta, nunca fora amada. Seu prazer percorreu meus braços e liquefez meu coração. Senti a força diminuindo. Puxei a saia dela e enterrei a cabeça em seu colo.


(Texto publicado no Caderno B, do Jornal do Brasil).

19.9.05




Não tem ciúme só quem ama, mas também quem deseja amar.

14.9.05

JET SAMBA - É puro luxo o disco JET SAMBA do cantor e compositor Marcos Valle. Fã de carteirinha, fui ao lançamento só para ter um disco autografado. Adoro as canções do Marcos, que considero um dos maiores da música brasileira, ao lado de Jorge Benjor, Chico Buarque e Tom Jobim. Sem medo de ser tiete, levei um um outro disco do compositor, uma coletânia que eu escuto com frequencia, para que ele também autografasse.


JET SAMBA é todo instrumental. Ele começa o disco com uma nova versão de Selva de Pedra, o tema musical da novela de Janete Clair. Em seguida emenda com uma série de novas composições que só revelam o artista sensível e maduro que ele é. La Petite Valse é a minha faixa favorita, um tema romântico que me deu vontade de ficar ouvindo várias vezes. Mas também gostei de Bar Inglês, Posto 9, Campina Grande e Jet Samba.


Marcos Valle chegou no lançamento acompanhado dos filhos adolescentes e recebeu o carinho dos fãs que foram lá prestigiá-lo. Roberto Menescal, Dé, Charles Gavin, Joyce e Carlos Lyra, assim como Hugo Sukman e Antonio Carlos Miguel, os jornalistas mais quentes do Segundo Caderno, fizeram questão de prestigiar o artista. Renato Costa, que trabalhou na produção do show do Moby no Riocentro, nos contava os bastidores e Denise Romano distribuía sorrisos e alto astral. Foi uma noite bem carioca, como a música de MR. Valle.




GABEIRA PRESIDENTE - Um sucesso o debate promovido pelo jornal Folha de São Paulo com o deputado federal Fernando Gabeira. Sempre lúcido e inteligente, Gabeira fez uma análise muito lúcida da situação política do Brasil. Ele disse que os políticos precisam se conscientizar que são todos funcionários e que, quem quiser ficar rico, deveria procurar a iniciativa privada. Sobre a possibilidade de disputar algum cargo no Executivo, Gabeira disse reconhecer que dificilmente seria bem-sucedido:


Eu não ganho nem de um poste em cargo Executivo porque eu vou sempre ser o veado e maconheiro. O deputado disse que, enquanto houver esse tipo de preconceito na sociedade, "eles [políticos] vão explorar isso até o fim.


Pois eu acho que o deputado Fernando Gabeira deveria concorrer a Presidência da República exatamente com essa bandeira: de veado e maconheiro. Ninguém teria razão para chamá-lo de ladrão, incompetente ou burro. Deixe que os adversários chamem de veado e maconheiro. Eu acho que a resposta da população seria exatamente o contrário: votaria do veado e maconheiro. Afinal, se os caretas e heterossexuais só fizeram decepcionar o cidadão brasileiro, quem sabe se um veado e maconheiro surpreende e coloca um pouco de dignidade na política brasileira.




VIVA OS VEADOS E MACONHEIROS!





ASSUNTOS ALEATÓRIOS - Quem quiser se informar e se divertir com um texto inteligente leia o blog Assuntos Aleatórios, do jornalista Júnior de Paula. Júnio é uma grande figura, um sujeito incrível, que sempre está antenado com o lado mais pop do mundo. Nos "posts" mais recentes ele fala do show do Moby e de sua aventura no meio de um tiroteio no centro da cidade.




A NOITE DO 10 - O programa de TV apresentado por Maradona, na TV Argentina. é o melhor programa de TV da atualidade. É dez vezes melhor que os programas do Sergio Groissman e do Faustão juntos. O que mais impressiona é como o jogador está à vontade no papel de animador de TV. É como se ele sempre tivesse feito aquilo a vida inteira. Além disso, o show é muito bem produzido. Aquelas moças que aprecem no palco, meio bailarinas, meio chacretes, são maravilhosas. Na TV Maradona é simpático, divertido, inteligente e um ótimo entrevistador. Ele contracena de uma forma muito bacana com os convidados. Além disso o programa A NOITE DO 10 transita com muita propriedade entre o humor e a emoção. Alguns momentos são, realmente, muito comoventes. Vale destacar a participação de Goycochea, que faz uma bela dupla com a estrela do programa. A participação de Pelé, na estréia, foi algo de genial. Principalmente quando Maradona cantou um tango que contava a história de um jovem que sonhava ser jogador de futebol. Ainda bem que o canal SPORT TV está transmitindo o programa todos os sábados.




MEU NOME É REGINA - Esse blog é um campeão de audiência da Internet. Afinal, desde os anos 60 que tudo o que tem a ver com a Regina Duarte é campeão de audiência. Leia e divirta-se...




DORME, QUERIDA, TUDO VAI DAR CERTO - A editora Record está apostando todas as suas fichas nesse livro, da escriotra Nilza Rezende. É uma espécie de versão brasileira do livro O diabo veste Prada. Narra o cotidiano de uma mulher que é diretora de marketing de uma grande rede de lojas. A partir daí, ela fala dos bastidores do mundo da moda e da publicidade, de um modo divertido e inteligente. Leia, a seguir, um trecho do livro.




"Descolado", eese era o principal atributo para ingressar na SLC. Ser uma pessoa antenada, saber o que está se usando - e usar; saber o que está se falando - e falar; saber aonde se deve ir - e ir. Fundamental ser charmoso, elegante, fashion oriented. Se você é fashion oriented, é você que estamos procurando. Essencial também saber inglês. Desejável ter o jipe da moda, ter morado em São Francisco e usar griffes internacionais (atenção, querida: griffe ou marca? Verificar). Não importa a sua idade ("a Gap usa mulher velha nas propagandas, a gente precisa de umas mulheres assim, com ruga, fica bem bacana"); não importa a cor (mentira, negros só para o andar de baixo, departamento fiscal; "aqui em cima só se for uma puta negra do tipo Naomi, isso é legal"); não importa muito a preferência sexual ("toda empresa de moda tem que ter uns veados, faz parte; agora, ao mesmo tempo, tem que ter uns caras equilibrados para segurar os veados", dizia Pedro Paulo).


6.9.05







Acordei com uma vontade de saber como eu ia
E como ia meu mundo
Descobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos
Preciso de uma casa para minha velhice
Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos
Preciso às vezes ser durão
Pois eu sou muito sentimental meu amor
Preciso falar com alguém que precise de alguém
Prá falar também
Preciso mandar um cartão postal para o exterior
Prá meu amigo Big Joney
Preciso falar com aquela menina de rosa
Pois preciso de inspiração
Preciso ver uma vitória do meu time
Se for possível vê-lo campeão
Preciso ter fé em Deus
E me cuidar e olhar minha família
Preciso de carinho pois eu quero ser compreendido
Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui
E se ela ainda gosta de mim
Preciso saber urgentemente
Porque é proibido pisar na grama


PORQUE É PROIBIDO PISAR NA GRAMA (Letra de Jorge Benjor)










Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
nao existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a sonhar
cruzamentos febris e inopinados.
Você diz “claro” e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursoes.
Abutres devoram-me as decisoes
e uma ponta do fígado mas digo
E daí? Dia desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhoes.


O GRITO (Poema de Antonio Cícero)










Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma,. presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.


Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração como
o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.


Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.


E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raizes em meu ser,
- e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.


CANTO INTEGRAL DO AMOR (Poema de J G de Araújo Jorge)


O ESCRITOR E A CIDADE - Simon Lane é um sujeito que adora o Rio, cidade que sempre visitou regularmente, até que se apaixonou pela carioca Betsy Monteiro de Carvalho, quando se conheceram em Paris. Começaram a namorar em 2001 e hoje são casados. Felizes e apaixonados, o casal escolheu morar no Rio apesar das constantes viagens à Europa. Discretos, eles não têm muita vida social e preferem ficar em casa curtindo um ao outro. São tão apaixonados que dividem até o mesmo e-mail. É no escritótio da linda casa onde mora com a mulher, em São Conrado, que ele escreve poemas e dá forma final a um novo romance. Além disso, Simon é correspondente free-lancer de revistas estrangeiras.


O poeta e romancista Simon Lane nasceu na Inglaterra em 1957, diplomou-se em artes em Londres, antes de viajar pelo mundo. Morou em Berlim, Nova York e Milão estabelecendo-se em Paris em 1988. Foi lá que conheceu o artista plástico Tunga, ficaram amigos e o escritor acabou descobrindo o Brasil.
O Brasil é um país que não tem explicação. É um país que não se explica com a razão e sim com a emoção. Os ingleses escondem seus sentimentos, os brasileiros não. Nisso eu me identifico com os brasileiros, pois sou extrovertido.


Da janela do seu escritório se descortina uma vista paradisíaca da cidade que ele descreve como magnífica. Mas, e os defeitos do Rio? A violência, os assaltos...
Eu já fui assaltado. Fiquei olhando para o cano de um revólver. Dei todo o dinheiro que eu tinha naquele momento, R$ 200, para o assaltante. Foi uma experiência assustadora, mas que não mudou em nada meu amor pelo Rio. Todas as cidades têm seus problemas. Em Londres, eu posso explodir no metrô com um homem-bomba. No Rio, pelo menos, eu dou meu dinheiro e o assaltante vai embora. Em Londres, eu não vou me livrar do homem-bomba com R$ 200.


Simon Lane sempre gostou de escrever. Na adolescência foi um jovem rebelde que gostava de contestar os valores conservadores da sociedade inglesa. Sofreu muito nessa época, até que descobriu a literatura como válvula de escape.
Quando escrevo fico calmo, sóbrio e sereno. Escrever é a minha maneira de reagir ao mundo.


O romancista já escreveu roteiros para TV, tentou a vida em Hollywood, mas gostou mesmo de Nova York onde conseguiu editar dois livros: Still Life with Books e Fear. Na Europa lançou Le Veilleur, escrito em fracês. Seu último livro Word of Mouth foi lançado no Brasil pela Record com o título de Boca a boca, traduzido por Bárbara Heliodora.
Esse livro foi escrito em 1999, logo depois que meu pai, Peter Lane, morreu. Ele era o meu melhor amigo, um homem por quem sempre tive muita admiração. A sua morte me deixou muito triste. Para conseguir superar a dor escrevi o livro pensando que estava contando a história para ele.


Boca a boca é ambientado em Paris e conta a história de um imigrante ilegal que trabalha como faxineiro para cinco pessoas. Um dia, ao chegar para trabalhar, encontra um de seus patrões assassinado. Com medo que pensem que ele é o criminoso, decide se livrar do corpo e isso dá início a uma trama de suspense e tragédia, temperada com muito humor.
O humor é a maneira mais eficaz de se expor idéias sérias. Por isso eu adoro comédias e procuro ter sempre o humor ao meu lado. Eu já passei momentos muito difíceis na minha vida. Nos anos 90 tive sérios problemas de saúde e, se sobrevivi a tudo isso, foi graças ao humor.


(texto de reportagem publicada no Jornal do Brasil)





Deus não prometeu dias sem dor. Risos sem sofrimentos. Sol sem chuva. Ele prometeu força para o dia, conforto para as lágrimas e luz para o caminho...

GABEIRA PRESIDENTE - No site do deputado federal Fernando Gabeira tem discursos, artigos, entrevistas e opiniões do parlamentar. Vale a pena ler o texto Em nome do macho, escrito por Nelson Motta e publicado na Folha de São Paulo.






PARIS EM CHAMAS - Um pouco de sabedoria nesses dias de inverno. Leia a seguir o texto de Danielle Mitterrand, esposa do ex-presidente François Mitterrand, ao povo francês, após ter recebido críticas impiedosas por ter permitido a presença da amante do marido e de sua filha, Mazarine, na cerimônia fúnebre.


Antes de mais nada devo deixar claro que não é um pedido de desculpas. Muito menos um enunciado de justificativas vãs,comum aos covardes ou àqueles que vivem preocupados em excesso com a opinião dos outros. Aos 71 anos, vivendo a hora do balanço de uma existência que é um sulco bem traçado e profundo, já não mais preciso, e nem devo, correr atrás de possíveis enganos. Vivo o momento em que as sombras já esclarecem e que as ausências são lindas expressões de perenidade e
vivencia. Sombras e ausências podem ser tudo, ao passo que luzes e presenças confundem os mais precipitados,os mais jovens.


Vivi com François 51 anos. Estive com ele em muito desse tempo e me coloquei sempre. Há mulheres que não se colocam, embora estejam; que não se situam embora componham o cenário da situação presumível. Uma vida de altos e baixos. Na época da Resistência nunca sabíamos onde iríamos passar a noite - se na cama, na prisão, nos bosques ou
estendidos por toda a eternidade. Quando se vive assim em comum, cria-se uma solda e a consciência de que é preciso viver depressa.


Concentrar talvez seja a palavra. Por isso tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as variações de sua pessoa e não de seu caráter... Quem entende ou, pelo menos luta para compreender as variações do outro, o ama realmente. E nunca poderá dizer que foi enganada ou que jamais enganou. Não nos enganamos, nos confundimos quando nos perdemos da identidade vital do parceiro, familiar ou irmão. Ou jamais os conhecemos, o eu também, não é um engano. Quem não conhece, não tem enganos.


Nas variações do outro, não cabe o apaziguador que destrói tudo antes do tempo em forma de tranqüilidade. Uma relação a dois não deve ser apaziguada, mas vibrante, apaixonada, e não, enfastiada. Nessa complexidade vi que meu marido era tão meu amante quanto da política. Vi, também, que como um homem sensível poderia se enamorar, se encantar com outras pessoas, sem deixar de me amar.


Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente. Não somos o centro amorável do mundo do outro. É preciso aceitar, também, outros amores que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.
Simone de Beauvoir dizia bem, que temos amores necessários amores contingentes ao longo da vida.


Aceitei a filha de meu marido e hoje recebo mensagens do mundo inteiro de filhos angustiados que me dizem: - "Obrigado por ter aberto um caminho. Meu pai vai morrer, mas eu não poderia ir ao enterro porque a mulher dele não aceitava". É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores e aos paranóicos azedos que teimam em sujar tudo. Espero que as pessoas sejam generosas e amplas para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades, divisões e pequenas paixões.


Isso é amar por inteiro e ter confiança em si mesmo.


Danielle Mitterrand