29.8.10

Viver é amar e correr riscos.



QUEM TEM MEDO DE BEATRICE M ? – Sempre que posso assisto à novela Ti Ti Ti, escrita por Maria Adelaide Amaral, a partir de uma trama original de Cassiano Gabus Mendes. A novela é muito divertida. Tem um texto inteligente, ágil e sofisticado. Claro que é mais fácil para Maria Adelaide escrever sua novela tendo como base uma história já produzida e bem estruturada. Uma novela que já deu certo. Mas isso não invalida de modo algum o mérito de Maria Adelaide. O Cassiano Gabus Mendes escreveu uma trama inteligente e bem elaborada. Mas os seus diálogos estavam longe de ter o nível de sofisticação dos diálogos com que Maria Adelaide vem brindando o público da novela das sete.


Merecem elogios tanto a direção de Jorge Fernando, quanto a atuação dos atores e o trabalho da produção. É tudo muito equilibrado em termos de talento e competência técnica. Os atores, tanto os veteranos quanto os novos talentos, vêm apresentado atuações marcantes. Um elenco vibrante e talentoso que tem oferecido diversão inteligente e culta ao telespectador. Além disso, há um toque de transgressão que considero fundamental para o sucesso de qualquer novela.


Há alguns aspectos da novela que merecem ser destacados. Para começo de conversa Ti Ti Ti é a novela mais gay já produzida pela televisão brasileira. Não precisa que os personagens sejam homossexuais para que a trama seja gay. O melhor exemplo disso é o personagem da adorável Cláudia Raia, que parece um travesti que deu certo. O ambiente da novela, os figurinos, as tiradas inteligentes, o universo da alta moda, a afetação dos protagonistas... Tudo nos remete ao universo GLS. E isso é ótimo!


Uma coisa que chama minha atenção nos diálogos da novela é o modo como, o tempo inteiro, os personagens citam ícones da moda, nomes de costureiros e celebridades, gente da música e da cultura pop. O texto da novela cita Valentino, Givenchy, Saint Laurent, Lady Gaga, Paris Hilton e até Sidney Sheldon, entre tantos outros. Isso chama minha atenção por que esses nomes são grifes, são marcas, e os departamentos comerciais das redes de TV sempre censuram os autores que citam marcas e nomes de celebridades em seus textos. E citar marcas e celebridades acontece todo o tempo em Ti Ti Ti.


Quando trabalhei com o meu querido Antônio Calmon na minissérie Sex-Appeal, por exemplo, aconteceu um episódio que vale a pena ser citado. Sex-Appeal era uma minissérie que, a exemplo de Ti Ti Ti, se passava no mundo da moda, com modelos, estilistas, grifes e tudo o mais. Foi a minissérie que lançou estrelas como Camila Pitanga, Carolina Dieckman, Danielle Winnits, Luana Piovani e atores como Lui Mendes e Felipe Folgosi. Pois bem. Na minissérie havia um personagem chamado Mauricinho, interpretado pelo belo e saudoso Rômulo Arantes. Mauricinho era filho do dono de uma agência de modelos. Seu nome traduzia o que era o caráter do personagem: um autêntico mauricinho. Ele era um rapaz rico, deslumbrado, que gostava de impressionar as jovens modelos da agência dos seus pais. Por causa das características desse personagem Antônio Calmon criou falas em que ele vivia citando grifes. Mauricinho adorava dizer que seu relógio era Rolex, que sua gravata era Hermès, que seu perfume era Dior, que sua camisa era Lacoste, que seu terno era Armani, que seu jeans era Dolce & Gabanna, etc e tal. A minissérie foi gravada e Rômulo Arantes deu show como Mauricinho, atuando com as falas que Calmon com tanto esmero escreveu para seu personagem.


No dia da estréia da minissérie, seguindo orientação do Departamento Comercial da Globo, o Boni (naquela época ainda havia o Boni) mandou cortar todas as falas em que o Rômulo Arantes citava as grifes. O Calmon teve o cuidado de só citar grifes estrangeiras exatamente para não ter problemas com o Departamento Comercial. Mas mesmo assim as falas foram cortadas. O Departamento Comercial alegou que as falas do personagem faziam propagandas gratuitas. Calmon fez mil alegações, argumentou que as citações eram importantes para demonstrar o deslumbramento do personagem, lembrou que a grife Dolce & Gabanna nem tinha representação no Brasil, mas não houve jeito. A participação do Rômulo Arantes ficou toda picotada. Ficou parecendo que ele fazia um personagem secundário, uma figuração de luxo, quando na verdade seu personagem foi criado para ser um dos destaques da minissérie. O pior é que tudo aconteceu depois que a minissérie já havia sido gravada e não havia mais como dar novas falas para o Rômulo, que acabou vendo seu personagem sumir da história.


(Um parêntesis: Eu amava Rômulo Arantes! Um cara muito legal. Um homem belíssimo. Um sujeito de bom coração, apaixonado pelo seu trabalho. Um artista batalhador e disciplinado. E exatamente quando ele estava começando a acontecer como ator, houve aquele acidente fatal. Que tristeza! Não consigo me conformar. Fico emocionado sempre que lembro dele com seu sorriso que era ao mesmo tempo sexy e pueril.)


Um instante, pois preciso enxugar as lágrimas!


Pois bem. Tudo o que foi negado ao Mauricinho de Rômulo Arantes na minissérie Sex-Appeal é amplamente utilizado por quase todos os personagens de Ti Ti Ti. Será que o Departamento Comercial da Globo concedeu uma autorização especial para que as marcas e as celebridades sejam citadas? Será que em tempos de internet eles conseguem faturar com todo aquele festival de citações? Não entendo o que aconteceu. Mas acho ótimo que os personagens da novela de Maria Adelaide Amaral usem e abusem de citações da cultura pop. É original quando Claudia Raia, com seu hilariante tom afetado, diz algo como: “Esse vestido nem chega aos pés de um Valentino!” Tem tudo a ver com o texto e com a novela. Adoro quando os personagens dizem que Lady Gaga ou Paris Hilton estavam em algum lugar usando um vestido do costureiro Victor Valentim.


(Um outro parêntesis: Recentemente, quando eu trabalhava na equipe da novela Os Mutantes, na Rede Record, aconteceu um episódio semelhante. Um dos redatores da equipe do Tiago Santiago, não lembro exatamente quem, escreveu uma fala em que a Irma, personagem da Patrycia Travassos, dizia que iria usar um vestido Chanel, em determinada ocasião. E o querido Tiago Santiago, preocupado com o Departamento Comercial, gentilmente pediu que a fala fosse reescrita. Achou que citar Chanel era fazer propaganda gratuita. “Citar Mademoiselle Chanel só vai acrescentar estilo, charme e elegância a Record”, disse eu, com uma gotinha de veneno...)


Outra coisa que eu adoro em Ti Ti Ti é que a novela fala em blogs o tempo inteiro. Todo mundo tem blog. As últimas notícias do mundo da moda são sempre lidas nos blogs. A palavra blog é repetida à exaustão no texto da novela. Eu, como sou um veterano do mundo blogueiro e tenho blog desde a época em que ninguém sabia o significado dessa palavra, me sinto homenageado. Essa semana, inclusive, surgiu toda uma trama na história envolvendo uma blogueira misteriosa chamada Beatrice M., que está agitando os conflitos da novela com seus posts envenenados.


Beatrice M, na verdade, é o codinome de Maria Beatriz Spina, a filha de Jaques Leclair (Alexandre Borges), personagem de uma atriz fantástica chamada Clara Tiezzi. É uma jovem atriz genial, melhor que a Tatum O´Neil quando fez Lua de Papel. Através do seu blog Maria Beatriz Spina, ou melhor, Beatrice M, está criando conflitos entre vários personagens que estão dando fôlego e provocando um tremendo ti ti ti na saborosa novela das sete.


Beatrice M, na verdade, me lembra Marina W, codinome da jornalista Adriana Rezende. Nos primórdios do mundo blogueiro, quando pouca gente tinha blog e essa ferramenta era uma novidade, Adriana criou várias personalidades, causando muita confusão na internet. Num blog ela era Marina W, no outro era Flávia Cintra, no outro era Jackie Miller, no outro era Meg. Ela criou tanto ti ti ti na web que teve gente que achava que até Waldir Leite era um personagem fictício criado por essa talentosa e criativa blogueira. Isso é que é ti ti ti!

28.8.10


Nosso destino dispõe de nós, mesmo quando ainda não o conhecemos.

O PRAZER DE LER – Tive o prazer de entrevistar o escritor Zeca Fonseca para o site do jornalista Sidney Rezende, um dos mais populares sites jornalísticos da web. Tentei provocar ao máximo o escritor Zeca e consegui dele algumas tiradas dignas de nota. O que mais gostei foi o modo como ele definiu a relação entre homens e mulheres no século 21. “Comparo o heterossexualismo ao rádio: vai sobreviver às novas mídias, mas vai ser lentamente relegado ao ostracismo”. Leia a íntegra da entrevista clicando no link abaixo:
Sou apaixonado por livros e escritores. E quando digo escritores, me refiro àqueles que escrevem livros. Sem nenhum preconceito com relação aos que escrevem peças de teatro, roteiros de cinema, poesias ou novelas de TV. Mas é que, desde sempre, o livro exerceu um fascínio, um poder especial sobre a minha personalidade. Antes de conhecer o cinema, a TV ou o teatro, eu conheci o livro. E foi paixão à primeira vista.


Uma das minhas mais gratificantes experiências profissionais foi o período em que eu fazia resenhas e crítica literária para o Caderno B, do Jornal do Brasil. Como eu amava fazer aquele trabalho! Como eu me sentia realizado com aquilo. Um dos momentos mais felizes do meu trabalho como jornalista foi quando fiz a resenha de um livro chamado Um bom lugar para morrer, de James Buchan. Eu gostei muito do livro, fiquei entusiasmado com o que li e escrevi uma resenha enorme. Ficou grande mesmo. Eu sabia que estava grande. E os editores costumam cortar os textos quando eles ficam grandes. É o trabalho deles: editar. Pois bem. Meu editor na época, o Ziraldo, publicou o texto integralmente. “Eu ia editar teu texto, fazer uns cortes, mas a tua resenha ficou tão boa que resolvi publicar assim mesmo”. Foi um dos dias mais felizes do meu tempo de JB.


Noutra ocasião eu escrevi, aqui mesmo no blog, uma resenha sobre o livro de Toby Young, Como fazer inimigos e alienar pessoas. Eu me diverti muito lendo o livro, publiquei trechos e recomendei a leitura aos freqüentadores desse blog. Dias depois encontrei meu querido amigo Júnior de Paula e ele me disse que depois de ler meus comentários no blog havia comprado o livro e estava adorando. Vibrei com a capacidade do meu blog de influenciar pessoas. Principalmente um cara inteligente e sofisticado como o Júnior, que está se preparando para ser diplomata.


Como fazer inimigos e alienar pessoas é um livro sobre os bastidores da imprensa americana. O autor foi editor assistente da Vanity Fair (minha revista favorita). Então é um livro sobre os bastidores da mais sofisticada e elegante revista de cultura e comportamento dos Estados Unidos. Ele fala da sua relação com o todo poderoso Graydon Carter, editor da revista e narra, com saborosas doses de veneno, o cotidiano dos bastidores de Hollywood. É inteligente e divertido. (Alguém pode lembrar de O diabo veste Prada, que é sobre os bastidores da revista Vogue. Acontece que o livro de Toby Young foi publicado antes. E é mil vezes melhor.)


Raimundo Carrero é outro escritor que tive a oportunidade de entrevistar para o site do Sidney Rezende, logo depois que ele foi agraciado com o Prêmio São Paulo de Literatura, o mais importante prêmio literário do Brasil. Uma espécie de Prêmio Nobel da literatura brasileira. Foi uma premiação justa. Ninguém mais do que Raimundo Carrero merecia essa honraria. Leia a entrevista clicando no link abaixo:


http://www.sidneyrezende.com/tag/livros



18.8.10


Maria Paula mostra a capa do livro Pandemonium. A foto é do próprio Zeca Fonseca e o modelo é o cantor Paulinho Moska.


"Que bom que você veio meu amigo."


Beijando Rita, a mãe do seu filho José, sorrindo ao fundo.

A grande atriz Anna Cotrim e o grande escritor Zeca Fonseca.

Zeca com a cunhada Claudia Abreu e com a sobrinha Maria.

Uma dupla de bonitões: José e Paulo, netos do escritor Rubem Fonseca.

Bia Correia do Lago entre o irmão Zeca e o filho Antônio Pedro.

Zeca ficou feliz com a presença do Ivan Santanna.

Fiquei emocionado ao fazer essa foto. Zeca e Rita foram meus colegas de faculdade. Eles formavam o casal mais charmoso dos meus tempos da PUC. Na verdade, eles sempre foram uma das lembranças mais presentes do meu tempo de estudante. E agora, tempos depois, eles estavam ali, com o filho José.

A livraria Argumento e seus livros de arte.

João Ubaldo Ribeiro fez questão de um autógrafo do Zeca.

Trio de bonitões. Os irmãos Fonseca e um amigo de infância.

Zeca resume sua história para Leilane Neuberth.




A DROGA DO AMOR - O que mais chamou minha atenção na noite de autógrafos do livro Pandemonium foi a felicidade do autor. Zeca Fonseca esbanjava “joie de vivre”, alegria de viver. E sua alegria contagiava o ambiente. E contagiava seus fãs e amigos que foram adquirir um exemplar autografado. Eu já vi aquela expressão estampada no rosto de outros homens. Mas sempre quando nasciam seus filhos. Publicar um livro não deixa de ter esse sentido. É como se o autor estivesse dando à luz!


Pandemonium é muito bem editado. O livro está bonito. Papel de boa qualidade, uma capa bonita, um design cheio de charme. Não resisti e li o primeiro capítulo na própria livraria. “Isso aqui é puro Nabokov”, pensei, enquanto saboreava uma taça de suco de maracujá, a “fruit de la passion”, como dizem os franceses. Na data de lançamento, 17 de Agosto, se comemora o dia do amor. E eu que nem sabia que o amor tinha um dia para ser comemorado.


Que bom que você veio, meu amigo”, me disse Zeca, com um abraço carinhoso, assim que cheguei à livraria. Entre um autógrafo e outro, a gente conseguiu conversar um pouco. Eu comentei sua atuação, na noite anterior, no Programa do Jô Soares. Demos boas risadas lembrando das piadas do Jô. E Zeca me contou que no final do ano vai publicar um livro infantil. “Eu acho que estou com um estigma de escritor de livros eróticos”, comentou, mas eu disse para ele não se preocupar com isso.


Zeca Fonseca é um escritor romântico. Acho, inclusive, que ele é o mais romântico dos escritores da sua geração. Suas histórias falam da paixão mais arrebatadora. Mas, como ele não tem pudores de escrever sobre sexo, seus livros acabam tendo certa aura de livro erótico. Mas, o que torna Zeca Fonseca original como escritor, é a sua capacidade de retratar o sexo como um elemento da paixão, do amor. Nos seus escritos o sexo é tradução física de um amor sempre intenso. E ponto final.


Na contracapa do livro, a cantora Zélia Duncan escreveu:




Viver e pensar a vida ao mesmo tempo pode ser, sim, um pandemônio. Especialmente para quem se coloca no limiar, na beirinha do abismo e olha para ele. Assim é Lemok, personagem de Zeca Fonseca. A partir de seus atos e pensamentos, constatamos a crueza da vida, “nos intervalos da emoção”, como diria Alice Ruiz. Mas, para além da vida nua e crua, á alguém ali que vislumbra algo que poderia ser melhor. Por isso, algo de poesia vai escorrendo junto com toda a lama. Viver é bom?




Veja a entrevista de Zeca Fonseca ao Jô Soares clicando no link a seguir:




16.8.10


A ironia é a última instância dos inteligentes; nos ignorantes, é a violência.




O ADORADOR ESTÁ DE VOLTAO escritor Zeca Fonseca lançou, nesta sexta-feira 13, em São Paulo, seu novo romance, Pandemonium. A noite de autógrafos carioca será dia 17, na Livraria Argumento, ali no coração do Leblon. Pandemonium traz de volta a literatura o personagem Lemok, protagonista do seu livro de estréia, O adorador. Lemok é um personagem fascinante. Um romântico apaixonado que, ao se ver abandonado pela mulher que ama, se entrega de corpo e alma ao sexo sem compromisso com mulheres casadas. É um adorador de mulheres. Mais específicamente, Lemok é um adorador de xoxotas.


A Editora Faces apresenta Pandemonium como, antes de tudo, uma história de amor. Não seria diferente uma história com esse personagem. Lemok é movido pelo amor que sente pelas mulheres. É um personagem que ama com todos os órgãos do seu corpo. Em Pandemonium, depois de descobrir que a mulher por quem sente um amor platônico deseja seu amigo, Lemok mergulha fundo no mundo das drogas e da bebida, como um beatnik perdido no final dos anos de 1980. Quando o alvo de sua paixão casa com seu amigo, Lemok busca anestesiar a dor do sofrimento se entregando a uma série de mulheres devassas. Ao sofrer por amor ele se vinga se entregando ao sexo. E só um outro amor, mais forte, poderá mostrar uma luz no fim do labirinto de sofrimento em que se encontra perdido o nosso herói.

Não é lindo, o amor?


Romancista e fotógrafo, Zeca Fonseca se equilibra com muito talento entre essas duas atividades. Para celebrar o lançamento do livro a Editora Faces produziu três vídeos onde as imagens fotográficas de Zeca tem como trilha sonora trechos do seu romance.

Veja os vídeos aqui:

http://www.editorafaces.com.br/pandemonium/

A seguir excertos de Pandemonium publicados no blog de Zeca Fonseca:

Eu era a redundância ambulante da loucura.Estava largado, drogado, e ocupado demais com meu processo de auto-destruição para perceber que minha vida escoava pelo ralo.Vivia como num transe.


Tudo me impelia para a escuridão do meu poço inexplorado. Alguma transformação importante acontecia em meus subterrâneos; sentidos importantes foram perdidos; fronteiras internas foram abolidas.Era o fim. Ou algo parecido com fim.


Vivemos em uma sociedade de conveniência, composta por cidadãos coniventes com um sistema corrosivo de classes. Pobres criaturas ignorantes que desconhecem sua parcela de culpa na destruição do meio ambiente em que vivemos. Pessoas desprovidas de ética. Não sentem desconforto em atirar lixo, desordenadamente, no planeta. O homem comum será o grande vilão de um futuro muito próximo.


Rogava aos deuses, todas as noites, para que aqueles dias de agonia acabassem logo. A um só tempo, era vítima e algoz de mim mesmo. Desejava morrer e não desconfiava daquele meu plano macabro.


O tempo diria quanto mais eu precisaria morrer para um dia poder viver de verdade.

14.8.10

A Loba de Rayban falando no celular depois da estréia.


Um abraço apertado no sobrinho Gabriel Mattar.


Christiane com o marido, o filho o sobrinho e suas namoradas.


Maria Maya recebendo elogios de Liége Monteiro e Luiz Fernando.


O bonitão Gabriel Mattar foi prestigiar titia Christiane na estréia da peça.


Mãe e filho


Allan Souza Lima era todo sorrisos na estréia de sua peça 7 Vidas, no Teatro Laura Alvim.


TEATRO QUASE SEMPRE - Um pastiche de uma história de Agatha Christie. Assim é a peça 7 vidas, que o ator Allan Souza Lima me convidou para assistir. 7 Vidas é uma surpresa agradável, na sua proposta de criar uma história de crime e suspense, ambientada numa casa isolada no campo. Uma festa de aniversário reúne todos os membros de uma família. Uma tempestade deixa a casa isolada. Então as pessoas começam a ser assassinadas. O grupo de artistas envolvidos nesse projeto consegue transmitir com segurança a história que pretendem contar. Uma história de crimes nos moldes do teatro inglês, mas com um tempero bem brasileiro. Faltou pouco para que eles atingissem o climax teatral. A peça é divertida, bem realizada, mas tem seus poréns. Alguns atores têm atuação irregular, mas existem momentos de destaques individuais que merecem registro. Vale a pena assistir. Com sua história cheia de reviravoltas, a peça prende a atenção da platéia e faz com que ela tenha bons momentos de diversão.


Allan Souza Lima foi meu colega na novela Os Mutantes, na TV Record. Seu personagem era um jovem geneticamente modificado chamado Meduso, que lançava raios pelos olhos. Meduso era mau e queria se vingar do mundo por ter sido criado no laboratório da Doutora Júlia Zacarias, a cientista louca que fazia experiências genéticas numa clínica de reprodução. Seu personagem vai aparecer em breve na reprise da novela, que está sendo exibida pela Record.


Allan Souza Lima fez muito bem o personagem. Seus olhos amendoados valorizavam o efeito especial dos raios nos olhos. Junto com Gór e Metamorfo, ele formava uma trinca de mutantes malvados que deu o que falar na trama sobre experiências genéticas. A equipe que escrevia a novela junto com o autor Tiago Santiago adorava escrever as cenas de Meduso, Gór e Metamorfo. Nós gostávamos dos atores (Allan, Juliane Trevisol e Sacha Bali), dos figurinos, dos cortes dos cabelos e das situações que eles viviam. Vivemos bons momentos junto a esses personagens.


Allan Souza Lima está muito bem na peça 7 Vidas. Está seguro e muito à vontade em seu papel, um sujeito misterioso, que é um dos suspeitos de ser o assassino. No coquetel que se seguiu à estréia Allan estava em estado de graça. Tinha ficado feliz com o resultado da peça. E ficou surpreso com as gargalhadas do público. “Tinha algumas cenas que não era para rir, mas o público caiu na gargalhada”, dizia ele, com um sorriso de orelha a orelha. Depois ele me contou o seu telefonema para a crítica Bárbara Heliodora. “Faço questão que a senhora venha ver a nossa peça. Queremos ser criticados pela Senhora, mesmo que seja uma crítica arrasadora”. Allan disse que a Bárbara é muito simpática com ele e que sempre que pode liga para a poderosa crítica, para um bate-papo sobre os caminhos do teatro brasileiro. Allan Souza Lima tem uma forte ligação com o teatro e participou de peças como Don Juan e Bent.


Também assisti no teatro a vigorosa performance de Christiane Torloni na peça A Loba de Rayban. Esse sim é um espetáculo que atinge o climax teatral. O texto, a direção e a atuação dos atores se encaixam com perfeição. A peça é dedicada a Dina Sfat e quem admirava essa atriz vai entender o quanto o seu estilo influenciou a concepção do espetáculo. É uma verdadeira celebração à magia do teatro.


A loba de Rayban é uma peça sobre o próprio teatro. Num primeiro plano fala sobre o teatro, a arte de representar e a angústia da profissão do ator, sempre vivendo personagens diversos, capazes de influenciar seu comportamento fora dos palcos. Num segundo plano a peça aborda as relações humanas a partir de suas paixões, seus desejos. Como o desejo pelo outro interfere no sentido da nossa vida. É um espetáculo poderoso, a partir do momento em que ele diverte e faz o público refletir.


Um triângulo amoroso é o ponto de partida da história. Tudo começa quando uma grande diva do teatro brasileiro, que está atuando em Medeia, interrompe o espetáculo em meio a representação. A diva teve uma crise por não estar suportando a separação do seu marido, o ator com quem contracena na peça. Tudo fica ainda mais complicado quando, depois do espetáculo, sua namoradinha, uma jovem atriz do elenco, avisa que vai abandonar a peça. No mesmo instante a diva do teatro brasileiro está perdendo o seu marido e a sua jovem namorada, Leonardo Franco e Maria Maya, respectivamente. A situação provoca cenas de discussão, conflitos, acusações e crises de choro. Mas também é motivo para impactantes cenas de amor. O público estremece com as ousadias de Christiane Torloni, Maria Maya e Leonardo Franco nas cenas de sexo. O conflito entre esses três personagens resulta num espetáculo de grande vigor teatral.

Fotos: Waldir Leite

6.8.10

Viver bem é a melhor vingança!




O LIVRO É O MELHOR AMIGO DO HOMEM – O escritor pernambucano Raimundo Carrero acabou de receber o Prêmio São Paulo de Literatura pelo seu romance A minha alma é irmã de Deus, uma história sobre pobres e miseráveis que se deixam levar pelo fanatismo religioso. Foi uma premiação mais que merecida. Raimundo é um escritor brilhante. Da mesma linhagem de autores nordestinos que já rendeu a literatura brasileira nomes como José Lins do Rego e Raquel de Queiroz.


Conheci a literatura de Raimundo Carrero ainda adolescente. Eu tinha dezesseis anos e morava em Recife quando a jornalista Wilma Lessa me apresentou o primeiro livro desse autor. Ela era uma grande amiga e nós estávamos bebendo cerveja no seu apartamento na cobertura do Edificio Apolo. Tínhamos bebido bastante enquanto conversávamos sobre livros e autores, um dos temas favoritos de nossas longas conversas. Foi então que ela se dirigiu a sua estante, pegou um livro e me disse num tom incisivo e definitivo: “Você tem que ler esse livro!”.


A história de Bernarda Soledade – A tigre do sertão.


Era esse o nome do livro que eu peguei nas mãos, enquanto ouvia sua voz rouca, com um irresistível sotaque paulista, repetindo com veemência: Esse escritor é genial! Brilhante! Bernarda Soledade é o melhor livro que li desde Pedro Páramo! Ela comparava o livro de estréia de Carrero com o clássico da literatura mexicana Pedro Páramo, de Juan Julfo, que ela já tinha me apresentado meses antes.


Eu tinha lido Pedro Páramo e ficado muito impressionado com o livro. A história, os personagens, o tom barroco com que a história era narrada. Foi uma descoberta e tanto. E o fato de Wilma Lessa ter me apresentado aquele livro fez com que eu ficasse ainda mais admirado por sua inteligência. Ela era uma mulher bela e intelectualmente estimulante. Imediatamente li A história de Bernarda Soledade e fiquei apaixonado pelo livro. No frescor dos meus dezesseis anos a leitura daquele livro fez com que um mundo novo se descortinasse à minha frente. O modo inteligente e sensível como o autor manipulava as palavras me deixou maravilhado. Dias depois nos encontramos no Mustang, nosso bar favorito, que todo mundo chamava de Mustangay, e eu lhe disse o quanto tinha adorado Bernarda Soledade. E tomamos mais um porre enquanto discutíamos a história, a narrativa, os personagens, a força das palavras contidas no romance. Havia um afinidade intelectual muito grande entre a gente e isso marcou essa época da minha vida.


Por conta dessas lembranças de adolescente é que eu vibrei muito com a vitória do escritor Raimundo Carrero. Para mim foi como uma homenagem póstuma a bela e culta Wilma Lessa. Sempre que surge o nome do Raimundo Carrero eu me lembro com saudade e ternura de Wilma Lessa. Lembro do seu rosto maquiado e dos seus brincos, anéis e pulseiras pegando o livro Bernarda Soledade na estante e me intimidando com a voz carregada de paixão: Você tem que ler esse livro!. Enquanto a trilha sonora do filme Borsalino tocava na vitrola, ela pegou o livro da minha mão e ficou lendo trechos que escolhia com a segurança de quem já tinha lido aquilo várias vezes. Wilma lia os trechos do romance, adquiria uma expressão dramática no rosto e repetia cheia de tesão: Não é incrível isso? Não é maravilhoso esse autor?

Saiba mais sobre Raimundo Carrero no site:

Ouça a trilha do filme Borsalino: