29.8.07




Não há nada tão frágil quanto o sucesso.


CIDADE NUA - Existe um pequeno grupo de marginais que costumam assaltar turistas na praia de Ipanema e no Posto Seis, em Copa. Eles nunca assaltam os moradores. Suas vítimas são os turistas que, encantados com a beleza da cidade, se distraem, e são roubados pelos malandros. Como os covardes só atacam turistas eles circulam cheios de marra pela praia, como se sua atividade criminosa não estivesse sujeita a críticas das pessoas honestas que circulam no pedaço e se sentem incomodadas com isso. Muitos moradores ficam indignados com a presença dos ladrões circulando livremente no seu território. Vários já ligaram para a polícia, dando todas as informações sobre as atividades do grupo, mas não adianta. Reprimir ladrões de turistas não é uma prioridade para a polícia carioca.

Nesse grupo de bandidos existe um que se destaca. É o mais atuante. O mais presente nessa atividade deplorável. A primeira vez que vi esse sujeito eu estava no Posto Seis, conversando com um grupo de jogadores de futebol de praia, quando um deles apontou para o pilantra e disse: Tá vendo aquele cara ali? Ele é ladrão da favela. Fica rondando aqui na praia, roubando os turistas. Isso faz mais de dez anos. Depois disso, sempre que via esse sujeito na praia, eu ficava de olho nele e, invariavelmente, o flagrava roubando algum turista.

Esse ladrão é aquilo que o meu saudoso avô chamava de descuidista. O ladrão que se aproveita do descuido da vítima para roubar. O sujeito fica na praia, posando de banhista, e quando vê um turista distraído surrupia seus pertences e sai de fininho. Ou sai correndo em disparada. Geralmente tem um segundo que dá cobertura. O fato é que esse ladrão faz da sua atividade criminosa uma profissão. Os moradores que vão a praia nessa região já o conhecem e o detestam. Apesar de não roubar os locais ele não respeita os moradores e furta os turistas na frente de qualquer pessoa. Quando alguém esboça alguma atitude para proteger as vítimas ele faz ameaças. Fica olhando de cara feia. Intimidando as pessoas honestas.

A cara de pau desse ladrão é tanta que, no último verão, junto com um comparsa, ele montou uma barraca para vender cervejas na praia gay de Ipanema, que estava lotada de estrangeiros. Era uma coisa bem rústica. Apenas um isopor cheio de latas de cerveja. Aquilo era apenas uma desculpa, um disfarce, para ficar ali, no meio dos banhistas. Quando algum estrangeiro se distraía, ou mergulhava na água, o canalha surrupiava objetos de valor, sumia algum tempo, depois voltava, já que havia um comparsa que lhe dava cobertura. Ou seja, o pilantra é um ladrão profissional.

Pois bem.

Para minha surpresa, semana passada, quando fui ao lançamento do livro Todos os dias, de Jorge Reis-Sá, na livraria da Travessa, no Shopping Leblon, eu dei de cara com o ladrão de turistas. De cara, levei um susto. "O que é que esse cara tá fazendo aqui no shopping?", pensei diante das fotos de Gisele Bundchen na vitrine da Colcci. Foi então que eu observei direito e percebi algo que naquele momento me deixou cabreiro: o sujeito estava trabalhando no Shopping Leblon. Isso mesmo, queridos leitores.

O maior ladrão de turistas de Ipanema está trabalhando no Shopping Leblon.

Vestido com um macacão branco onde estava escrito a palavra Quality, nome da empresa terceirizada que presta serviços de limpeza ao shopping, ele circulava pelos corredores empurrando um carrinho de limpeza, segurando uma vassoura na mão. O sujeito está trabalhando como faxineiro. Circulando com seu carrinho de limpeza por entre as vitrines de grifes elegantes como Blue Man, Sandpiper, Salvatore Ferragamo, Sara Jóias, Mont Blanc Maison, Villa Borghese, Aviator, Calvin Klein, Ermenegildo Zegna, Fruit de la Passion, Maria Bonita e Swarovski.

Waal!, diria o saudoso Paulo Francis. Diante da figura do maior ladrão de turistas de Ipanema refletido na vitrina da grife Lacoste eu pensei com os botões das elegantes camisas ali expostas: Será que esse sujeito se regenerou? Será que ele tomou vergonha na cara, arrumou um emprego e resolveu viver uma vida honesta? Será que esse canalha agora vai deixar os turistas de Ipanema em paz? Será que ele resolveu se tornar um homem bom? Um homem de bem?

Ao mesmo tempo a minha parabólica mental cogitou uma segunda possibilidade. Será que aquilo é só um disfarce? Será que os lojistas e clientes chiques do elegante shopping estão correndo sério perigo? Será que uma onda de furtos vai acontecer no sofisticado centro de compras? Acho bom a direção do centro comercial ficar de olho. Ontem à noite o escritor Doc Comparato me disse que, dias atrás, sua filha teve a bolsa furtada no Shopping Leblon.

Elementar, meu caro Warson!


23.8.07




Aprende a viver e saberás morrer bem.


A NOITE DA LÍNGUA PORTUGUESA - O escritor português Jorge Reis-Sá veio ao Brasil participar do lançamento do seu romance Todos os dias. Como um Pedro Alvares Cabral dos tempos modernos o jovem lusitano atravessou o oceano e chegou sábado ao Brasil. Volta para o Farmelicão, sua aldeia no norte do Portugal, na próximo domingo. Veio acompanhado da mulher, a jovem e doce Ana, uma bióloga que conheceu na Faculdade. Na terça ele deu autógrafos na Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, onde participou de um debate sobre as relações Brasil-Portugal na literatura. Foi uma noite de papo inteligente e idéias saudáveis.

Um rapaz muito bonito. Foi essa a primeira impressão que tive de Reis-Sá. No seu charme lusitano havia algo do Primo Basilio, na descrição de Eça de Queiroz. Bonito como um príncipe, ele também escreve bonito. Sua figura nos remete a um poeta romântico. Algo que na verdade o é. Todos os dias é seu primeiro romance, mas o charmoso português já publicou livros de poesia. Mesmo quando escreve prosa Reis-Sá tem um texto lírico, poético. Uma narrativa é pungente. Delicada. Seu texto valoriza a língua portuguesa quando simplesmente descreve o cotidiano de uma família qualquer como um quadro de um grande artista. Uma simples réstia de sol que atravessa o postigo da janela adquire dimensão de epopéia quando narrada por Reis-Sá, com seu estilo gentil e educado de contar sua história para o leitor.

Na fila de autógrafos muitos escritores e admiradores da língua portuguesa como falada e escrita em Portugal, já que a edição brasileira manteve o texto original do livro. Não foram feitas correções para o português do Brasil. Um acerto da editora Luciana Villas Boas, entusiasta do livro. Antes da sessão de autógrafos, porém, houve um animado debate no elegante auditório da livraria do Shopping. Esse é um costume em Portugal. Sempre que ocorre o lançamento de um livro é promovido um debate entre o autor e convidados. Os convidados de Reis-Sá foram os poetas brasileiros Antônio Cícero e Eucanãa Ferraz, que os admiradores classificam como os novos drummonds. A apresentação do debate foi feita pela todo-poderosa diretora editorial da Record Luciana Villas Boas.

A unificação da lingua portuguesa nos oito paises do mundo que falam essa língua foi o palpitante assunto que norteou toda a discussão. Com a unificação Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, Timor-Leste, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Brasil e Portugal passarão a escrever da mesma maneira. A discussão foi muito interessante já que ali todos pareciam ser contra a unificação. Todos, menos Antônio Cícero que se revelou radicalmente a favor. Com seus argumentos e seu entusiasmo Cicero parecia um bravo guerreiro lutando contra um batalhão de adversários. Eucanãa Ferraz contemporizou lembrando que a unificação daria força política a língua portuguesa, subjugada ante o poder das línguas inglesa e francesa. Jorge Reis-Sá disse que prefere o português com suas particularidades e diferenças. Lembrou que Portugal, mesmo sendo um país de pequena extensão territorial, tem suas proóprias diferenças internas. Cicero contestou citando o inglês, que tem amplo domínio internacional, por ser uma língua falada de um jeito único em todos os países de influência anglo-saxônica. Com veemência Luciana interviu e afirmou convicta: existe sim diferenças entre as diversas línguas inglesas faladas no mundo.

Luciana Villas Boas é uma figura. A maior prova de que ela acredita no livro de Jorge Reis-Sá é que ela foi com tudo ao lançamento do livro. E quando eu digo com tudo, eu quero dizer que ela não foi lá apenas fazer um número. Foi brigar pelo livro num mercado editorial competitivo. Luciana é uma mulher muito inteligente e isso ficou claro nas suas intervenções durante o debate. Foi sensacional o momento em que ela contestou Cicero e defendeu com firmeza que sejam mantidas as diferenças regionais da língua portuguesa.

A presença de Luciana Villas Boas no lançamento de Jorge Reis-Sá não se limitou a uma participação incisiva no que diz respeito ao contexto intelecto-cultural da literatura. Antes de tudo, Luciana é fashion. E como é fashion ela foi à noite de autógrafos do gracioso português vestida para matar. Luciana sempre foi uma mulher bonita, mas nessa noite ela estava radiante. A maquiagem perfeita, o cabelo correto. A mulher estava linda com um vestido preto belíssimo que eu classificaria de fechativo e que poderia tanto ter a assinatura do Christian Lacroix como de John Galliano. Para arrematar chiquérimas botas negras até o joelho. Quando pegou o microfone e contou como descobriu o livro Todos os dias e falou sobre sua relação com os livros, os autores e a literatura a platéia ficou encantada. Sobre sua figura elegante e carismática parecia haver uma legenda de gibi que dizia: Sou linda, mas também sou inteligente!

E salve a língua portuguesa.

A seguir um poema de Jorge Reis-Sá, do livro A palavra no cimo das águas.








FADO TROPICAL - Circulando por entre escritores como Angela Dutra de Menezes, Antônio Torres, Bia e Pedro Correia do Lago estava o jornalista portugues João Pereira Coutinho. O rapaz é um bem sucedido colunista do jornal Expresso. O sucesso de sua coluna no mais popular jornal de seu país atravessou fronteiras e chegou ao Brasil. Sendo assim ele foi convidado para assinar uma coluna na Folha de São Paulo. Dias atrás um de seus textos recebeu uma consagração do leitor brasileiro ao ser transformado em corrente da internet. Com o título de Não existem homossexuais, seu texto deu o que falar, provocou discussões e lançou um novo olhar sobre um assunto que parecia esgotado. Coutinho veio ao Brasil passar uma temporada em Sâo Paulo e veio ao Rio prestigiar Jorge Reis-Sá que é seu amigo pessoal e seu editor em Portugal.

Leia a seguir o artigo Não existem homossexuais, do cronista portugues João Pereira Coutinho, publicado na Folha.

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?

A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?

Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.

Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award. Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.

E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão. Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.



21.8.07




Ninguém jamais afundou em seu próprio suor.


A CAMINHO DA LIDERANÇA - Uma história de amor e suspense que mistura jovens mutantes, experiencias genéticas, artistas de circo, estudantes de filosofia, cientistas loucos, gays assumidos, lutadores de kung-fu, empresários ganaciosos e paixões avassaladoras. Assim é Caminhos do Coração, a novela de Tiago Santiago que estréia dia 28 de agosto na Rede Record. Para promover o lançamento da novela a emissora reuniu jornalistas, elenco e produção num café da manhã no estúdio G do Recnov, o luxuoso centro de produção da empresa.


Um clipe exibido num telão mostrou cenas da novela. Em belíssimas sequências filmadas na Flórida surge o ator americano Lance Henriksen, de Alien 4, contando ao herói, Leonardo Vieira, que misteriosas experiências genéticas foram feitas numa clínica de reprodução no litoral paulista. Corta para uma cena de perseguição nas ruas de Miami enquanto agentes da Policia Federal pulam de um helicóptero na cobertura de um edifício. As imagens se intercalam com performances de artistas de circo e cenas curtas com os principais personagens. Depois da exibição do clipe o autor, Tiago Santiago, muito emocionado, agradeceu ao elenco e a equipe e foi ovacionado.


Claudio Heinrich foi um dos atores mais celebrados da festa. É que seu personagem, Danilo, vem provocando expectativa na emissora. Danilo, um dos herdeiros da Progênese, uma milionária rede de hospitais, é gay. Por causa dessa caracteristica do seu personagem Claudio Heinrich vai aparecer dando pinta, tirando sobrancelhas com uma pinça, admirando seu corpo malhado só de cuecas em frente ao espelho, e last but not at least, falando de bofes. Tudo isso ao som de Robocop Gay, antigo sucesso dos Mamonas Assassinas. Danilinho não é o único gay da novela. Bené, personagem de Déo Garcez, também é do babado. Um estudante sensível que sonha encontrar o homem dos seus sonhos. No início ele acha que esse homem é o dr. Carvalho (que nome!), o advogado interpretado por Rocco Pitanga, irmão da Camila. Bené não resiste ao vê-lo de terno e gravata e lhe dá uma cantada. O advogado, que é um homem fino, recusa o assédio com elegância: "Desculpe, Bené, mas eu sou hetero".


Os personagens gays estão bem à vontade na trama por uma razão muito simples: a novela é um tratado sobre "ser diferente". Eles transitam por entre jovens que foram alvo de experiências genéticas numa clínica de reprodução e desenvolveram características especiais. Seus amigos também são diferentes. Um rapaz que ouve o pensamento dos outros. Uma menina que tem asas e pode voar. Uma garota paranormal que consegue mexer objetos. Um jovem super veloz que quer ser famoso por isso. Um menino pobre que tem o olfato de um cão. E um bebê que se desenvolve com muita rapidez e logo vai ficar adulto. Eles têm os mesmos sonhos e desejos de todo ser humano. Mas, ao mesmo tempo, são diferentes.


Fazem parte do elenco os atores Bianca Rinaldi, Walmor Chagas, André di Biase, Gabriel Braga Nunes, Eduardo Lago, Monica Carvalho, Angelo Paes Leme, Taumaturgo Ferreira, Cássio Scapin, Felipe Folgosi, Monica Carvalho, Jean Fercodini, Théo Becker, André Segatti, Maria Claúdia, Perfeito Fortuna, Marina Miranda, Angelina Muniz, Ana Rosa e muitos outros. Chama a atenção no elenco de Caminhos do Coração a presença de Fafá de Belém, fazendo sua estréia em novelas, interpretando Ana da Luz, a dona de um circo que protege os jovens mutantes. É uma mãezona no melhor estilo Ana Magnani. Outra curiosidade é Preta Gil vivendo uma vilã arrependida, que namora dois irmãos bandidos, os galãs Tuca Andrada e Alexandre Barilari.


Patrycia Travassos foi muito assediada pelos jornalistas que queriam saber se ela vai continuar apresentando seu programa no canal GNT. Quando confirmou que vai continuar fazendo o seu Alternativa Saúde e a novela ao mesmo tempo, seu colega de elenco André Segatti, um homenzarrão enorme que interpreta um agente da policia civil, se aproximou e lhe fez uma confissão. Disse que era fã da atriz desde criança. Irma, personagem da Patrycia, é uma típica vilã de novelas: ambiciosa, egoísta e cruel.


Em novembro a Record vai estrear a primeira novela da TV brasileira escolhida através de concurso público. Amor e Intrigas, da publicitária Gisele Joras ganhou, ano passado, o primeiro lugar num concurso de sinopses promovido pela emissora. No concurso cada um dos participantes deveria mandar uma sinopse e três capítulos. Foram mais de mil concorrentes. Agora a novela será produzida sob a supervisão de Luiz Carlos Maciel.


20.8.07




A simplicidade é o máximo da sofisticação.


MOVIMENTO DOS BARCOS - Renata Sorrah sabe tudo de teatro. A minha admiração pelo seu trabalho começa pelas peças que ela escolhe para encenar. Nessa escolha já é possível perceber a sua visão particular do teatro e da arte de representar. E a palavra "inteligente" sempre me ocorre duas horas depois de eu ter assistido uma peça com a atriz. Duas horas é o tempo que preciso para me recuperar da emoção de ter visto um belo espetáculo. E foi assim depois que assisti a encenação de Um dia, no verão, do noruegues Jon Fosse. Eu sai do teatro chapado. Com a certeza que os deuses do teatro tinham abençoado aquela peça que eu tinha acabado de assistir.


Ingmar Bergman não morreu, a peça parecia dizer nas entrelinhas. Na encenação em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues existe algo de Interiores, o magnifico filme em que Woody Allen homenageia o cineasta sueco. E uma pitada de A mulher do tenente francês. Ao mesmo tempo o texto é absolutamente original. É um comovente ensaio sobre a solidão. Ou um discurso sobre o fim das coisas.


Num lindo dia de verão, em sua casa de frente para o mar, a mulher sem nome, personagem da Renata, recebe a visita de uma amiga que ela não vê faz anos. Enquanto a amiga sai para dar uma volta na praia, a mulher sem nome relembra o dia em que seu marido saiu para dar um passeio de barco e nunca mais retornou. Faz tanto tempo que ele se foi, mas ela ainda tem alguma esperança que o sujeito surja no horizonte e volte para casa. Enquanto ela fica parada olhando o mar pela janela, de costas para a platéia, com o rosto refletido no vidro, Silvia Buarque e Gabriel Braga Nunes encenam o último momento que o casal viveu junto. O último beijo, o último toque, a última briga. Tudo o que forma um casamento é vivido nesse dia em que ele foi pasear de barco e jamais voltou.


O cenário de Hélio Eichbauer merece ser descrito. É uma casa de praia. Poucos móveis. Alguns livros e um abajour. No lado direiro uma janela envidraçada onde a mulher sem nome fica olhando o mar. Do lado esquerdo quatro persianas grandes, que vão do teto ao chão, e que nem sempre estão abertas. Atrás das persianas o cenário sugere que existe uma varanda. Ao fundo uma projeção do oceano. Sendo asim, durante toda a peça, o público vê o mar ali atrás. Às vezes calmo e sereno. Às vezes revolto e ameaçador. O certo é que o mar ao fundo, de uma forma bem sutil, sublinha os climas da peça.


A direção de Monique Gardenberg optou pela suavidade, pela delicadeza. O texto pode ser encenado como uma história de suspense, mas a diretora ignorou esse aspecto da dramatrurgia. Eu não quero Hitchcock, eu quero Bergman, parecia ter dito Monique aos atores durante os ensaios. E ela conseguiu. Um dia, no verão é um Bergman com toques modernos. Vale registrar o bom gosto da trilha sonora escolhida pela diretora. As músicas funcionam à perfeição as intenções da peça. Só para se ter uma idéia, após o monólogo final da mulher sem nome, surge a voz de Toni Platão cantando Movimento dos barcos.

Bravo! Bravo! Bravo!

Renata Sorrah está perfeita como a mulher sem nome. Como já disse, ela sabe tudo de teatro. E, vamos combinar, ela sempre foi bergmaniana. Renata ama aquilo que faz. Quando está representando fica claro para a platéia que o palco é a sua vida. Em alguns momentos de Um dia, no verão, ela atua de costas para o público, que vê seu rosto apenas no reflexo da vidraça. Ela também anda pela palco, vagando, e o seu caminhar traduz a angústia e a solidão da personagem. Num dado momento, no centro do palco, ela recita um monólogo comovente, quando conta da agonia que viveu durante as buscas pelo marido, quando os bombeiros encontraram o barco à deriva. Enquanto narra os fatos o mar ao fundo fica extremamente revolto e cai uma tempestade. O efeito da chuva caindo é muito bem feito. Dá ao público a impressão que está caindo um dilúvio sobre a cidade. E Renata ali, no meio daquele turbilhão, narrando o drama da mulher sem nome. Uma atriz poderosa demonstrando controle absoluto sobre os eventos que fazem do teatro uma nobre arte.

Aplausos. Aplausos. Aplausos.

Silvia Buarque também impressiona como a mulher sem nome no dia em que o marido sumiu. Ela defende muito bem o papel da jovem esposa insegura na relação com o homem que ama, o belo e sexy cabeludo Gabriel Braga Nunes. Quando ele surge em cena de pés descalços e cabelos longos a platéia entende porque sua mulher fica mais de duas décadas esperando que ele volte do mar. A dupla Silvia e Gabriel se entende muito bem ao representar os altos e abixos do casal protagonista.


Certa vez, na praia de Ipanema, eu presenciei a Silvia Buarque contando para sua prima Bebel, que estava morando no exterior, como era a atuação da Renata Sorrah na novela Senhora do Destino. Ela falava com entusiasmo, imitava os trejeitos da vilã Nazaré e repetia várias vezes o quanto admirava a Renata como atriz. Ao assistir Um dia, no verão eu lembrei muito desse dia num verão e pude imaginar o quanto Silvia estava gostando de estar no mesmo palco que sua atriz favorita.


Malu Mader, que estava na platéia no último sábado, foi uma das pessoas mais entusiasmadas. Depois do espetáculo, diante do elenco, parecendo ainda sob o efeito embriagador da peça ela afirmou: Eu adorei tudo. O texto, a direção, a atuação dos atores e, principalmente, aquele mar enorme.


Aplausos. Aplausos. Aplausos.






MOVIMENTO DOS BARCOS

Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento


16.8.07




As únicas respostas interessantes são aquelas que destroem as perguntas.


15.8.07

ACONTECIMENTOS - O poeta Antonio Cicero é a nova sensação da literatura brasileira em Portugal. O mercado editorial português se atirou aos pés de Cicero, cultuado naquelas plagas como poeta, filósofo e articulista. Finalidades sem fim, seu livro de ensaios sobre poesia e arte recebeu várias resenhas elogiosas da crítica lusa. Apenas uma não foi tão favorável, mas isso significa consagração. Agora os portugueses estão descobrindo o blog do Cicero que se chama Acontecimentos. Não é hilário esse nome?

Os portugueses fazem blogs incríveis. Blogs com conteúdo, texto inteligente, opiniões relevantes. Blogs que demonstram um apaixonado orgulho da lingua portuguesa, sua melodia, sua forma, seus conceitos. Os portugueses gostam de valorizar quem trata bem sua lingua. Foi nesse contexto que nossos irmãos lusos descobriram Antonio Cicero, que já conheciam das letras para as canções de sua irmã Marina.

Cicero acabou de chegar de Portugal onde participou de palestras e debates sobre filosofia e política. E semana que vem ele participa de um lançamento de livros à moda lusa na Livraria da Travessa, no Shopping Leblon. É que o escritor portugues Jorge Reis-Sá vai lançar seu livro Todos os dias à moda da sua terra: com debate. A discursão de idéias na livraria é quase uma tradição nas noites de autógrafos da terra de Cristiano Ronaldo.

No lançamento do livro Todos os dias haverá um debate sobre as relações de Brasil e Portugal na literatura com o autor do livro Jorge Reis Sá, Antonio Cicero e um outro gênio da moderna literatura brasileira: Eucanãa Ferraz, professor de literatura e grande conhecedor da nossa língua.

Ora bolas! Nem só de Sandpiper, Colcci, Ellus e Lacoste vive o Shopping Leblon. O lugar também tem espaço para o pensamento inteligente e a alta poesia. Viva o Rio de Janeiro...

Enquanto isso no Arpoador...




VELHOS SURFISTAS QUERENDO VOAR - Os surfistas Ricardo Bocão, Cauli Rodrigues e Dadá Figueredo, lendas vivas da praia do Arpoador, já são cinquentões. Com seus cabelos grisalhos exibindo o ar saudável de quem soube viver sobre as ondas, eles foram as estrelas do Arpoador Clássico 2007, o campeonato de surfe promovido pela Federação do Surfe, Arpoador Surfe Clube, com apoio do Mario Fillipo, o subprefeito da Zona Sul e o surfista Brizolinha, Leonel Brizola Neto, personagem muito querido no pedaço. É importante dizer que o campeonato que levantou o astral do Arpoador foi patrocinado pela Osklen.

O mar ajudou bastante. Água limpa, clara, com boa temperatura. E boas ondas, o que é fundamental para um campeonato de surfe. A últimas ressaca deixou a faixa de areia com muito espaço, então deu para ficar todo mundo largadão, ouvindo o som comandado por Cuscuz, o DJ do lendário Burako Loco, o melhor clube que já houve em Arraial D´Ajuda. Nas caixas de som o pop característico de Cuscuz: Mano Chao, Technotronic, Shakira, Orishas, Ziggy Marley... Aquele som pra relaxar depois de um mergulho e ficar viajando vendo os meninos deslizarem na crista da onda. A vida é bela!

Ricardo Bocão aproveitou o evento para anunciar que, ainda este ano, vai entrar no ar o Woohoo, seu canal de TV totalmente dedicado a esportes de ação. Serão 24 horas de surf, skate, bodyboarder e suas variações. Eu quero uma prancha de surfe de presente de aniversário...




Velhos surfistas querendo voar
(Marcos Valle & Paulo S. Valle)

Acho que é amor
Ou vontade de rever você
Eu não sei por que
Eu não vivo longe de você

Você bem sabe
Instalou-se o viver
O tempo passa e nada a fazer
Nada

E a gente continua no Deus dará
Esperando cada coisa voltar
O sorriso no rosto
Esconde o desgosto
E o medo de Ipanema acabar

Tem novidade no mar e no ar
Velhos surfistas querendo voar
Eu agora vou curtir uma praia, amor
Estou a fim é de pegar uma cor
Tristeza não presta
O Rio é uma festa
E eu não estou a fim de dançar

É amor ou vontade de rever você
Eu não sei por que
Eu não vivo longe de você

Cidade Maravilhosa...


11.8.07




O sorriso é uma das grandes armas do homem.

Ricos e poderosos da comunidade judaica do Rio lotaram o Golden Room do Copacabana Palace na noite do violinista Pinchas Zukerman, que se apresentou com o seu quinteto Zukerman Chamber Players. O poder econômico da platéia podia ser medido pela quantidade de seguranças bem vestidos que com seus walk-talkies e detectores de metais se espalhavam pelos corredores do hotel, atentos à chegada dos convidados.
Lá dentro homens engravatados em ternos e casacos e mulheres bem vestidas, cobertas de jóias, reforçavam com sua elegância o aspecto cerimonioso da noite: o concerto de um dos maiores músicos contemporâneos em prol da obra social da sinagoga Beit Lubavitch. Gente rica. Gente muito rica. A riqueza se mostrava estampada na tranquilidade dos semblantes, no brilho dos olhares que quase ofuscam as jóias e nos sorrisos que refletiam uma serenidade de quem tem consciência que foi premiado pela vida.

Os homens ficam lindos quando usam o quipá. E na noite de Pinchas Zukerman a maioria dos homens usavam o quipá, aquele tradicional gorro judeu, em forma de circunferência, utilizado no Judaísmo tanto como símbolo da religião como símbolo de "Temor a Deus". O Talmud enfatiza a necessidade de se ter sempre o temor a Deus sobre nossas cabeças. A maioria dos judeus utiliza o quipá apenas em ocasiões solenes e de devoção, enquanto alguns utilizam-no o dia inteiro, ilustrando a necessidade de se temer a Deus em todos os momentos da vida. Ainda na platéia outros, mais ortodoxos, usavam chapéu, enormes casacos pretos e aqueles cabelos cacheados caindo sobre a orelha. Ou então barbas bem cultivadas. Alguns deles eram jovens e bonitos e essas caracteristicas enchiam de charme e sensualidade a ortodoxia constante de seu visual.

Pinchas Zukerman escolheu, para o programa do concerto beneficente, quintetos de Mozart e Brahms. Aliás, o número cinco parece exercer influência sobre o músico israelense. Seu grupo Zukerman Chamber Players é formado por cinco pessoas: O próprio Zukerman no violino; sua bela mulher Amanda Forsyth, no violoncelo; Jessica Linnebach, no violino; Jetro Marks, na viola; e o indiano Ashan Pillai, também na viola. Os três últimos são ex-alunos de Zukerman, que também é um exigente professor. O grupo foi ovacionado ao final do concerto.

Antes do concerto, porém, um video exibido no telão mostrava as obras sociais da Beit Lubavitch. O Lar da Esperança, localizado na Tijuca, é a principal obra de caridade da Instituição. No video a atriz Betty Goffman dizia que mais de 10% da comunidade judaica do Rio de Janeiro vivia com menos de dois salários mínimos e que, com o apoio dos doadores, o Lar da Esperança atende atualmente cerca de 1.500 pessoas carentes. Na sede do Lar, dezenas de pessoas recebem alimentação kasher, orientação sobre saúde e participam de atividades educacionais e de lazer.

Depois de se extasiar com a música maviosa de Pinchas Zukerman a rica platéia foi se deliciar com o requintado coquetel servido no salão anexo. Taças e mais taças de Veuve Cliquot. Todos os demais tipos de bebidas. E muita comida kasher, petiscos preparados de acordo com os principios religiosos do judaísmo. Para isso havia um rabino na cozinha do hotel, cuidando para que a comida estivesse de acordo com os preceitos da Torá, o livro sagrado dos judeus.

Foi uma noite de muita alegria e clima de confraternização entre as pessoas. Muitos sorrisos, brindes, flertes, gargalhadas, piadas, risadinhas. Sobre o concerto um rico empresário comentou com um grupo de amigos: Por que o Pinchas Zukerman não tocou um bis? Será que nós não pagamos o suficiente? Gargalhadas gerais. As mulheres faziam muitas poses para o fotografo pernambucano Isaac Markman. Na hora do clique elas arrumavam suas jóias, ensaiavam o sorriso e disfarçavam os copos de bebida.

Isaac Markman, um craque da fotografia, clicava todo mundo para as colunas sociais. Personagens da vida social carioca como Leticia Abramoff, Adélia Duek, Rosane Messe, Elizabeth Elman, o empresário bonitão Rogério Chor, dono da construtora CHL, com a mulher Claudia, Bebel Klabin, Any Kimelblat, Alberto e Doris Serfaty, Lilian e Monis Patchoully, Mauro e Ester Liberman, Jane Rose e Inacio Klarnet, Sonia e Eduardo Chalfin, além do rabino Goldman, promotor da noite.

Champanhe, champanhe, champanhe...

Pinchas Zukerman foi ao coquetel, mas não ficou muito tempo. Tomou uma taça de champanhe, posou para fotos com algumas pessoas, entre elas a jornalista Lenke Pentagna, que ele puxou pelo braço dizendo que queria mesmo fazer uma foto ao lado dela. Quando recebeu um elogio sobre o concerto disse que tinha orgulho de seus músicos e que gostava muito do que fazia. Apontou o violonista Jethro Marks e disse que ele também era um exímio tenista. Sobre o repertório do concerto beneficente o violinista disse:

Os quintetos de Mozart e Brahms foram compostos no fim da vida dos compositores. O quinteto de Mozart é contido, intimista e refletivo. É um momento de reflexão, de várias indagações, preocupações e também respostas artísticas inventivas. Já o de Brahms é muito exuberante, vivo e extrovertido. Cheio de tema populares, uma homenagem à alegria do homem. O ser humano precisa sempre destes dois momentos: a reflexão e a alegria.

Mas Zukerman não ficou muito tempo no coquetel. Logo ele chamou seus músicos e foram jantar no Cipriani, o restaurante em frente a piscina do hotel. Estou um pouco cansado e amanhã eu tenho ensaio com a orquestra do Municipal. Prefiro ficar um pouco sossegado com meus músicos, justificou ele.

7.8.07




Experiência é o que nos permite repetir nossos erros, só que com mais finesse.

O SUPERCOMPLICADO - Um contador que trabalha para microempresas de artistas e celebridades do Rio apelidou o Super Simples, o novo regime tributário criado pelo governo Lula para facilitar a vida das pequenas empresas, de Supercomplicado. A Receita Federal do governo petista não acerta uma. No manual distribuido pelo governo para orientar as empresas, onde estava escrito Super Simples, o contador riscou e escreveu em letras vermelhas Supercomplicado. Segundo ele, um especialista do mundo contábil, ao utilizar as regras propostas pelo novo regime tributário o contribuinte vai pagar mais imposto.

Essa quadrilha que tomou posse do governo só pensa em tirar dinheiro de quem trabalha e pode pagar impostos. Agora o Operário Padrão está fazendo o maior lobby para conseguir aprovar a prorrogação da CPMF. Para atingir os seus objetivos está até loteando cargos em estatais. Entregou a presidência de Furnas ao PMDB e lavou as mãos. Ora bolas. Não dá para levar a sério um presidente que entrega uma empresa estratégica do País para um partido político em troca de apoio para, mais uma vez, bater a carteira do cidadão. O presidente de Furnas deveria ser um funcionário de carreira, alguém que já trabalhasse na empresa e tivesse conhecimento do setor. E nunca Luiz Paulo Conde.

O presidente Lula prega ética de todo mundo, mas ele acredita que o governo federal não precisa ter ética. A ética é para os outros. É falta de ética o governo se empenhar em aprovar a prorrogação de um imposto que foi criado para ser provisório. É falta de ética o governo querer prorrogar um imposto que foi criado para financiar a saúde pública e nunca foi usado para essa finalidade. Pelo contrário. Desde a criação da CPMF a saúde pública no Brasil só fez piorar. Segundo o Ministro da Fazenda, "o orçamento da União não pode abrir mão da CPMF". Ora, Ministro. Foda-se o orçamento da União.

O governo precisa arrecadar para poder gastar à vontade. Lula acha que ele não precisa economizar. Só para citar um exemplo, o Operário Padrão tem 36 ministérios. Para que tantos ministérios? Se ele cortasse o número pela metade ainda teria ministros demais. Recentemente, para debochar ainda mais dos otários que pagam impostos no Brasil, Lula criou o Ministério do Mangabeira Unger, a Secretaria de Ações de Longo Prazo. Ora bolas! Qual o sentido dessa secretaria? O Brasil já tem uma Secretaria de Ações de Longo Prazo que se chama IBGE. Tudo o que o Ministério do Mangabeira Unger se propõe a fazer, o IBGE já faz a muitos anos. Projeções sobre o futuro da economia, da indústria, da agricultura, da pobreza e da riqueza? O IBGE já tem tudo isso.


5.8.07




O homem que confessa os seus pecados nunca é o mesmo que os cometeu.

FADO TROPICAL – O livro é um bom companheiro para esses dias frios que ilustram o inverno carioca. Todos os dias, romance do escritor português Jorge Reis-Sá, é gostoso de ler sob o aconchego de um edredon. A melodia da língua portuguesa de Portugal está presente em cada frase de cada capítulo. Assim como a melancolia que os lusitanos carregam na alma, tão bem traduzida nos acordes de um fado, essa música bela e triste.

Neste romance de Jorge Reis tracinho Sá, uma família do norte de Portugal, a região mais tradicional do País, se depara com a morte de um ente querido. Com extrema sensibilidade, o autor mostra como os que restaram reestruturam suas vidas de acordo com essa perda. Como refazem, passo a passo, os pequenos atos do cotidiano e como encontram alívio e conforto na previsibilidade de suas ações e na constância de seus afetos.

A história é contada sob o ponto de vista de quatro personagens, todos íntimos de Manuel Augusto, jovem que abandonou a faculdade para se tornar escritor e morreu. Temos Justina, a mãe; Antônio, o pai; Fernando, o irmão; e Cidinha, a avó, também já falecida. É através de seus olhos que montamos, aos poucos, a imagem de nosso protagonista e os sentimentos que desperta na família.

Reis-Sá divide a ação pelas diferentes fases do dia: Aurora, Manhã, Almoço, Tarde, Crepúsculo, Jantar e Noite. Além de um epílogo intitulado Tarde demais. Os capítulos, curtos, mesclam passado e presente. Memória e realidade. E nos fazem mergulhar em relações interpessoais densas, repletas de saudade, amor e até amargo ciúme. Pela simplicidade de linguagem, pela recuperação lírica das vivências de uma família suburbana, pela percepção das relações estabelecidas entre parentes vivos e mortos, pela narração fragmentária e ao mesmo tempo concatenada, Todos os dias se revela uma leitura apaixonante.






LEITURA E ESCRITA - A leitura é, de fato, em meu entender, imprescindível: primeiro, para não me dar por satisfeito só com as minhas obras, segundo, para, ao informar-me dos problemas investigados pelos outros, poder ajuizar das descobertas já feitas e conjecturar as que ainda há por fazer. A leitura alimenta a inteligência e retempera-a das fadigas do estudo, sem, contudo, pôr de lado o estudo. Não deve­mos limitar-nos nem só a escrita, nem só a leitura: uma diminui-nos as forças, esgota-nos (estou me referindo ao trabalho da escrita), a outra amolece-nos e embota-nos a energia.

Devemos alternar ambas as atividades, equilibrá­-las, para que a pena venha a dar forma às idéias coligidas das leituras. Como soe dizer-se, devemos imitar as abelhas que deambulam pelas flores, escolhendo as mais apropriadas ao fabrico do mel e depois trabalham o material recolhido, distribuem-no pelos favos e, nas palavras do nosso Virgilio, o líquido mel acumulam, e fazem inchar os alvéolos de doce néctar.

Nós devemos imitar as abelhas, discri­minar os elementos colhidos nas diversas leituras (pois a memória conserva-os melhor assim discriminados), e depois, aplicando-lhes toda a atenção, todas as faculdades da nossa inteligência, transformar num produto de sabor individual todos os vários sucos coligidos de modo a que, mesmo quando é visível a fonte donde cada elemento provém, ainda assim resulte um produto diferente daquele onde se inspirou. Um processo idêntico àquele que nós vemos a natureza operar no nosso corpo sem a mínima interferên­cia da nossa parte (os alimentos que consumimos, enquanto se conservam inteiros e flutuam sólidos no estômago são para este um peso; mas quando se transformam, logo são assimilados e se tornam músculos e sangue), um processo idêntico, dizia eu, devemos operar nos alimentos da inteli­gência, sem permitir que as ideias recebidas se conservem tal qual, como corpos estranhos.

Assimilemo-las; se assim não for, elas podem perdurar na memória, mas não pene­tram na inteligência. Demos-lhes a nossa total concordân­cia, façamo-las nossas, tornemos um grande número de idéias num organismo único, tal como numa adição jun­tamos parcelas diferentes para obter um único total. Que o nosso espírito faça a mesma coisa: mantenha ocultas as parcelas de que se serviu para exibir tão somente o resul­tado global obtido. Mesmo que seja visível a seme­lhança com algum autor cuja admiração se gravou mais profundamente em ti, que essa semelhança seja a de um filho, não de uma estátua. A estátua é um objeto morto.(Séneca, in Cartas a Lucílio)



A PALAVRA É:

DEAMBULAR: passear, vaguear, caminhar.

SOER: costumar, ter o hábito de.