27.5.07




As pessoas tiram da vida exatamente o que investiram nela.


O LIVRO É O MELHOR AMIGO DO HOMEM - Esgotado desde a década de 1980, SALGUEIRO está de volta às livrarias. O segundo romance de Lúcio Cardoso, inspirado no morro carioca de mesmo nome, foi publicado originalmente em 1935 e encerra a fase social do autor iniciada com MALEITA. No livro já estão presentes os primeiros sintomas do romance introspectivo, psicológico, que viria a ser o forte da expressão do escritor.

Ao lado de escritores como Clarice Lispector, Cornélio Penna, Octavio de Faria e Jorge de Lima, Lúcio Cardoso fazia parte do seleto grupo de escritores intimistas. Chamado pela crítica de o Dostoievski mineiro, era um atormentado. Um autor capaz, até mesmo, de contratar um assassino de aluguel para persegui-lo e, assim, mergulhar de forma mais completa no inferno de um personagem. Em outras ocasiões, chegou a convidar vagabundos que se odiavam para uma mesma festa, a fim de observar o resultado. Num meio literário acostumado à leveza e à simplicidade, Lúcio Cardoso seguiu na contramão, construindo uma literatura densa, obscura e reflexiva.

Com SALGUEIRO, a Civilização Brasileira conclui o trabalho de recomposição de alguns títulos da obra de Lúcio Cardoso. Ainda neste ano, a editora vai iniciar a publicação de traduções feitas pelo autor, entre elas Anna Karenina e Drácula.

SALGUEIRO é um romance denso e complexo, em que o morro ganha contornos de protagonista. O livro é dividido em três partes que expõem a história de três gerações de homens sem perspectivas: O avô, O pai e O filho. Ao longo da narrativa, o leitor percebe que o morro adquire vida própria, enquanto os personagens vão se descaracterizando, transformando-se em coisas. A fome e o desemprego geram uma população de miseráveis, e aqui a miséria é narrada sem meias-palavras. Em certos momentos, é difícil perceber a diferença entre os trapos, a sujeira, a lama, os cachorros e as pessoas. Tudo e todos são nivelados pela miséria.

O romance marca uma diferença bem definida entre o morro e a cidade. É significativo como o morro revela aspectos contraditórios: não são os personagens que delineiam o espaço, ou atuam sobre ele. A impressão é a de que o morro configura os personagens. Trata-se de um mundo à parte, um lugar de exilados. Ou exilados de uma vida digna. O trecho em que dois personagens vão para um hospital é notável: o branco das paredes, dos lençóis e dos móveis faz as mulheres pensar que seria impossível morrer num lugar tão limpo e imaculado.

Lúcio Cardoso nasceu em Minas Gerais, em 1913. Mais tarde, fixou residência no Rio de Janeiro, onde começou as suas primeiras experiências literárias. Além de editar duas revistas, A bruxa e Sua revista, Lúcio escrevia poesias, peças de teatro e contos. Seu primeiro romance, Maleita, foi publicado em 1934. Incentivado pela crítica, investiu em uma prolífica carreira de escritor, que resultou em romances como Luz no subsolo, Histórias de Lagoa Grande, Dias perdidos, O anfiteatro, O enfeitiçado, além de sua obra-prima Crônica da casa assassinada - que teve, em comemoração aos 40 anos de sua publicação, uma belíssima edição comemorativa lançada pela Editora Record. Em 1962, em pleno vigor criativo, Lúcio sofreu um derrame que o deixou incapaz de escrever. Morreu em 1968, após um segundo derrame.


19.5.07




Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo.

NOITE EM PIGALLE – O escritor Simon Lane chegou na festa de lançamento do seu livro Noite em Pigalle acompanhado do irmão gêmeo Guy Lane, que veio de Londres especialmente para a ocasião. Os convidados fãs e amigos do autor ficaram surpresos e se divertiam com a semelhança entre os dois. Simon é bem humorado e recebia a todos com piadas ou brincadeiras. Eu vi o que você escreveu no seu blog. Agora me sinto famoso, me disse ele, enquanto escrevia no meu exemplar: De Simon para Waldir, respect! Yours, Simon.

Noite em Pigalle combina humor, inteligência e erotismo ao explorar o casamento entre arte e comércio. É a história de um escritor, um inglês chamado Fear, que vive em Paris, atolado em dívidas. Ele é aconselhado por sua gerente de banco, a enganadora Madame Jaffré, a escrever algo “comercial... erótico, talvez” para aliviar seus problemas financeiros. Fear então embarca num romance dentro do romance sobre uma garota de Pigalle e um piloto americano.

Com sua incrível câmera digital Marco Rodrigues fotografava tudo. O escritor, os simples mortais, a livraria e as celebridades que foram dar uma pinta no lançamento. Na fila de autógrafos Claude do Amaral Peixoto, Verinha Bocayuva, Kátia Vita, Dudu Garcia, Lou de Oliveira, Anna Maria Tornaghi e mais um monte de gente. O presidente da Associação Comercial do Rio Olavo Monteiro de Carvalho também foi prestigiar o autor, que é casado com sua ex-mulher, Betsy. Narcisa Tamborindeguy, que estava companhada de seu personal terapeuta, levou uma braçada de rosas para o escritor. A presença de Lenny Niemeyer deu aquele toque de elegância e charme. E a todo-poderosa Luciana Villas Boas estava linda como sempre.

Mas quem roubou a cena na Livraria Argumento foi a jovem princesa do high society Concepcion Cochrane. Concepcion é mais que uma mulher é um evento. Fazia tempo que os salões chiques e elegantes do Rio de Janeiro não viam uma figura feminina tão interessante. Tão original na sua beleza e juventude. Concepcion é superior, classuda, tem estilo, élan. É linda. Absolutamente linda. Desde Cynthia Howllet que uma mulher não causava tanto furor na cidade. Ela é estilista e havia desenhado o par de botas até o joelho que usava com tanta graça. A calça comprida preta bem justa combinava de forma irreverente com o casaco que vestia por cima de uma blusa branca. A roupa é dificil de descrever, mas dava a impressão que ela tinha acabado de sair de um torneio de pólo. A jovem diva nasceu na Argentina é alta, esguia, caminha com muita classe e tem cabelos longos que ela joga como ninguém. E possui aquilo que define uma estrela: personalidade. Seu perfil poderia ter sido desenhado por Caravaggio num dia de particular inspiração. Se isso tudo não bastasse ela ainda tem esse nome que é um verdadeiro achado: Concepcion!

Champanhe, champanhe, champanhe...






Leia a seguir um trecho do livro NOITE EM PIGALLE

Quando Fear voltou ao seu quarto, sentou-se à sua mesa e olhou pela janela para o pátio. Duas das crianças árebes jogavam futebol, e o som da bola caindo no chão de pedras arredondadas reverberava surdamente de uma parede à outra. Do lado oposto, no andar térreo, o compositor estava ao piano. As batidas da bola e o toque nas teclas do piano criavam um som de beleza distante, um sopro de infância exalado no ar parado de verão que levava Fear de volta a um jardim, um lápis de cor traçando a trajetória de uma andorinha por um céu de papel em branco e uma bola de tênis enfiada numa cerca viva, visões fugazes de uma outra vida, desaparecida para sempre, e, no entanto, ainda vista, como a esteira de um navio que há muito tempo desapareceu atrás de uma ilha. A bola bateu, os dedos tocaram nas teclas e ometrônomo marcava o tempo para tudo aquilo que acontecia ao seu redor.

Fear tinha batizado o compositor de Eton e sua namorada de Eve, sem conhecer seus nomes reais. Moravam juntos no andar térreo, mas Eve tinha um estúdio no andar de cima, onde passava a maior parte do tempo. Às vezes gritavam um com o outro, outras vezes, nada diziam; era como se dias inteiros passassem sem que eles se comunicassem. Fear freqüentemente se perguntava como duas pessoas tão diferentes conseguiam viver juntas. Era verdade que pólos opostos se atraíam? Quem saberia como as coisas funcionavam – eram complexas demais para analisar. Se conseguisse encontrar a solução, você encontraria a chave da existência.

Nunca os cumprimentava no pátio, porque sentia que aquilo poderia levar a uma conversa e intimidade de que depois se arrependeria. Não pareciam considerá-lo grosseiro; estavam mergulhados em seus pensamentos quando passava por eles e provavelmente não tinham interesse por ele. O que o intrigava, naturalmente, era o fato de que podia vê-los quando cada um estava sem saber o que o outro fazia. Isso lhe dava uma onisciência que ele saboreava. Era talvez a razão real por que não queria se comunicar com eles, pois, no papel de voyeur, teria se sentido um hipócrita.






Eu olho para o mar, para o céu, para o que é ininteligível e distantemente próximo. (Henry Miller, Trópico de Câncer)


O sorriso dele esticou sua pele até a orelha como saias de cetim levantadas numa calçada chuvosa. (Zelda Fitzgerald, A Couple of Nuts)


17.5.07




Os grandes momentos da vida vêm por si mesmo. Não tem sentido esperá-los.


O triste

Guardou esta manhã
Para chorar longamente,
O que não fazia há muito.

Não porque setembro,
Não por um fato específico
Um isto que fosse. Ou,

De tão antigo, seria um motivo que
Não recordava e agora o hálito de seu abraço
Frio e sem rosto?

Guardou, para tal manhã
Olhos e boca. Mas o rápido,
Repentino sumo de uma luz

pelas frestas veio dar nos livros,
O telefone, crianças lá fora, jornais
E talvez, e ainda

Manhã tão breve.
Quem sabe, depois, outubro.
Hoje, não houve tempo.








INSTINTO MATERNO – Eu já levei três amigas minhas para fazerem abortos naquela famosa clínica da rua Dona Mariana, em Botafogo. Num período de quase dois anos eu levei três mulheres para abortarem. As funcionárias da clínica devem ter pensado que eu era algum garanhão que engravidava mulheres e depois ia levá-las para se livrarem de seus fetos. Mas não era bem assim. Em nenhum dos casos eu era o pai. Era apenas um cara que estava ajudando suas amigas num momento em que elas não podiam contar com a solidariedade de seus homens.

Eu tinha acabado de completar dezenove anos quando fui levar Izabel para fazer seu aborto. Ela era uma colega da PUC. Uma moça muito bonita, que tinha vindo do interior de São Paulo estudar Sociologia no Rio. Ficamos amigos e, quase ao mesmo tempo, ela começou a namorar Paulo, um colega da minha turma no curso de Comunicação. Na verdade fui eu quem os apresentou e eles viveram uma paixão intensa. Eu e Paulo éramos muito amigos e várias vezes emprestei o meu apartamento em Ipanema para eles se encontrarem. Foi tudo divino e maravilhoso até o momento em que ela engravidou.

Quando soube que a namorada estava grávida Paulo reagiu muito mal e simplesmente rompeu com a garota. A família dele é muito rica e o rapaz achou que a jovem estava a fim de dar lhe um golpe. Não era o caso. Desde o momento em que engravidou Izabel quis interromper a gravidez, pois sabia que sua família, no interior, não iria aprovar um filho sem um casamento. Humilhada ante a atitude do namorado ela decidiu fazer o aborto e procurou o rapaz mais uma vez para propor que ele a acompanhasse e dividisse o custo da operação, já que ela vivia apenas com a mesada que recebia da família. Paulo foi indelicado e disse que ela estava tentando explorá-lo. Izabel ficou arrasada.

Como eu convivia com o casal acabei acompanhando todo o drama. Quando soube da reação de Paulo eu me propus a acompanhar Izabel até a clínica e paguei o aborto. Eu me sentia um pouco responsável por aquele romance. Sempre que o assunto aborto vem à pauta eu me lembro desse episódio. Chegamos a clinica, fomos atendidos por uma recepcionista que nos levou até o médico, que nos explicou como seria o procedimento. Depois Izabel foi levada por duas enfermeiras ao interior da clínica e eu fiquei esperando na recepção, sentado num sofá confortável. Tão confortável que, relaxado, peguei no sono. Enquanto dormia eu sonhei que ela havia tido um bebê. Foi um sonho que me impressionou muito, pois era muito real. As imagens vinham muito claras na minha mente. Ela saindo por onde tinha entrado carregando um recém-nascido no colo e mostrando a criança para mim. Fiquei muito tocado quando fui acordado pela recepcionista e Izabel estava na minha frente, abatida, mas serena, conformada.

Quando saímos da clínica eu a levei até o meu apartamento e fiquei cuidando dela até o dia seguinte, já que ela alugava um quarto na casa de uma senhora e não ia ter ninguém que pudesse cuidar dela. Nesse episódio eu pude acompanhar bem de perto a situação da mulher diante de uma gravidez não planejada. Quando soube que o aborto já tinha sido feito Paulo ficou mais calmo e a procurou para saber se podia fazer alguma coisa por ela. Izabel agradeceu e disse: Tudo o que você poderia ter feito por mim o Waldir já fez. Paulo então me procurou, quis me reembolsar o dinheiro do aborto, mas eu não aceitei. Entendi que ele era muito jovem e não teve serenidade para enfrentar aquela situação. Anos depois Izabel ficou novamente grávida, agora uma gravidez planejada, e me convidou para ser padrinho do filho dela.

Meses depois eu voltei novamente a clínica da rua Dona Mariana. Dessa vez fui com Maria Tereza, uma boa moça, que estava tendo um caso com Iran, um colega do meu trabalho, uma empresa do Governo Federal. Iran era um cara machão, casado, cafajeste, parecia o Tony Ramos na novela Paraíso Tropical. Comia todas. Iran me adorava. Apesar de sermos pessoas bem diferentes e ele ser mais velho que eu, nós tínhamos uma relação bem fraternal e carinhosa. Depois Iran foi transferido para o Ceará, onde havia surgido uma boa oportunidade para ele na filial da empresa em que trabalhávamos. Um belo dia ele me liga de Fortaleza pedindo um favor. Disse que tinha se envolvido com uma garota, uma menina nova, e ela tinha ficado grávida. Ele a estava mandando para o Rio a fim de fazer o aborto, pois os pais dela não podiam saber, e queria que eu levasse a garota na tal clínica em Botafogo.

Maria Tereza era uma moça bonita, de gestos finos e olhos verdes. Atendendo ao pedido de Iran eu fui buscá-la no aeroporto e a hospedei no meu apartamento. No dia seguinte fomos à clínica. Você já teve aqui uma vez, não é?, me perguntou a recepcionista, quando a jovem foi levada para o interior da clínica. Depois, já de volta ao meu apartamento, Maria Tereza teve uma crise de choro que me deixou muito impressionado. Ela chorava muito. Um choro que misturava dor, decepção, frustração, constrangimento, humilhação. Eu queria demonstrar solidariedade, mas não sabia como. Ela era praticamente uma desconhecida para mim. Eu não me sentia à vontade para abraçá-la, para confortá-la. Foi uma situação complicada.

No dia seguinte eu a levei para dar um passeio no Rio. Conhecer a cidade. Eu queria distraí-la. Fazê-la esquecer um pouco o trauma do dia anterior. Fomos ao Cristo Redentor, Alto da Boa Vista e almoçamos em Santa Tereza. Conversamos e eu pude perceber que ela estava muito zangada com o Iran. No dia seguinte ela voltou para o Ceará e nunca mais eu vi essa garota. Meses depois eu estava novamente na clínica. Dessa vez com Ana Maria. Ao me ver ali pela terceira vez em poucos meses a recepcionista quis fazer um comentário, mas se deteve, ao olhar para minha acompanhante. Você é danado, hein?, me disse ela quando Ana sumiu pelo corredor que levava ao interior da clínica. Eu sorri tentando fazer uma cara de machão comedor e não disse nada.

Ana Maria era uma amiga da época do ginásio, quando eu morava em Recife. Ela era casada e tinha dois filhos. Com o casamento em crise, querendo se separar do marido, a coitada descobriu que estava grávida pela terceira vez. Decidiu interromper a gravidez sem que o marido soubesse e viajou para o Rio a fim de fazer o aborto. Deu a desculpa de que vinha fazer um curso, mas o marido desconfiou e resolveu vir atrás. Quando nós saímos da clínica e chegamos em casa o marido a esperava na porta do prédio. Eles começaram a discutir e Ana disse que não podia se aborrecer, pois tinha acabado de fazer um aborto. O cara ficou maluco, queria bater nela, depois começou a chorar falando que não merecia aquilo. Deus do céu! No meio daquela confusão eu olhava para eles e a única coisa que eu pensava era o seguinte: Como é complicado ser heterossexual.

Eu sou a favor da legalização do aborto.



3.5.07




A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido. Não na vitória propriamente dita.

OS VEADOS E O MEIO AMBIENTE – O dia do trabalhador, comemorado com fanfarras pelas centrais sindicais de São Paulo, nunca mais vai ser o mesmo. É que Paulinho da Força Sindical, num discurso exaltado que pretendia chamar a atenção dos trabalhadores para os perigos do aquecimento global, disse que “antigamente esse negócio de meio-ambiente era coisa de veado”. O charmoso Paulinho não se emenda. Lembra que na eleição de 2002 ele foi candidato como vice do Ciro Gomes? E foi afastado da candidatura por que fez uns comentários bem machistas sobre as mulheres? Pois é. Como todo autêntico operário brasileiro Paulinho é um despudorado machista. Ele esculhamba com as mulheres, esculhamba com os veados. Mas, certamente, como todo bom machão, não consegue viver sem nenhum dos dois.

A princípio o comentário de Paulinho da Força Sindical parece preconceituoso. Mas, na verdade, não o é. Por outro lado, mostra que ele tem uma certa consciência da postura de vanguarda da comunidade gay. Ele sabe que o que é coisa de gay hoje, amanhã certamente será coisa de machão. Na moda, por exemplo, isso acontece o tempo todo. O que os gays usam num verão, e é tachado como coisa de veado, dois anos depois, quando os gays já estão em outra, os machões usam como se fosse a coisa mais fashion do mundo. Sem querer fazer trocadilho, mas já fazendo, nós estamos sempre na frente.

Há uma outra questão muito importante na observação do Paulinho, desde já, o novo muso operário do movimento gay. Quando ele disse que “antigamente esse negócio de meio-ambiente era coisa de veado”, ele quis dizer que agora esse é um assunto dos heterossexuais. E tem toda razão. São os heteros os grandes responsáveis pela doença do planeta. O aquecimento global é provocado pelos heterossexuais. Os gays não têm nada a ver com isso. São eles, os heteros, que se reproduzem de forma irresponsável. São os casais formados por homens e mulheres que lotam o planeta de bebês. E cada novo bebê que nasce é um ser humano a mais para beber, comer, consumir, juntar lixo, derrubar árvores, poluir rios e mares, etc. Enfim, trabalhar para a destruição dos planetas.

Sempre que se fala em evitar a degradação ambiental do planeta usa-se como argumento a diminuição de gases poluentes, a preservação das florestas, o desenvolvimento sustentável e outras balelas. Nada disso vai adiantar se os casais heterossexuais continuarem se reproduzindo como se nada estivesse acontecendo. A degradação do planeta terra é provocada pelo excesso de seres humanos. Enquanto não houver um rígido programa internacional de planejamento familiar o destino do homem será sua autodestruição.


Leia mais sobre os veados e o aquecimento global no artigo Santificado seja o vosso nome, publicado no site do jornalista Sidney Rezende







NOITE DE PIGALLE – O escritor Simon Lane é um personagem. Nasceu na Inglaterra, mas adotou o Rio como sua cidade. Casou com uma carioca, a dama do high society Betsy Monteiro de Carvalho e vive numa bela casa, no alto de São Conrado, cuja vista, de tão bela, parece uma visão do paraíso. Quando eu o entrevistei Simon me contou que já havia sido assaltado no Rio. Um sujeito lhe apontou uma arma e levou todo o dinheiro que ele tinha no bolso, duzentos reais. Perguntei se ele não tinha ficado apavorado, revoltado e com vontade de ir embora do Rio. Ele respondeu que não, que em todo lugar tem violência. “Pior seria se eu tivesse em Londres e um homem bomba resolvesse explodir o metrô. Eu não teria a menor chance. O homem bomba jamais aceitaria duzentos reais para me deixar ir embora”.

No próximo 17 de Maio Simon Lane vai estar lançando Noite de Pigalle, com sessão de autógrafos na livraria Argumento do Leblon. Apesar de ter nascido na Inglaterra e viver no Brasil seu romance é ambientado na França, mas precisamente no coração de Paris, cidade onde já viveu. Conta a história de um poeta falido que, atendendo a sugestão da gerente de seu banco, resolve escrever um livro comercial para ganhar dinheiro e se livrar de suas dívidas. Lançado nos EUA e Europa com o título de Fear, que é o nome do personagem principal, o livro tem tradução de Roberto Muggiati e trata com admiração da vida boêmia de Paris.

A encantadora Paris também foi cenário do romance anterior, Boca a boca, traduzido por Bárbara Heliodora. A história é perturbadora. O personagem central é um jovem filipino, transsexual, imigrante ilegal, que é apaixonado por um brasileiro. Ele trabalha como empregada doméstica para cinco cidadãos franceses. Certo dia, quando a bicha chega para trabalhar, encontra um dos seus patrões morto. Apavorada, achando que vai ser acusada do crime, presa, deportada e, o pior de tudo, separada de seu namorado brasileiro, decide se livrar do corpo. Vestida com o mesmo sarongue colorido com que chegou para trabalhar a bee coloca a vítima numa caçamba de lixo e a sai arrastando pelas ruas de Paris, num dia em que a cidade está em festa, com o objetivo de jogar o corpo no rio Sena. É um retrato denso e perturbador da vida moderna.


2.5.07




Tato é a capacidade de descrever os outros como eles se julgam.

NASCI PARA CHORAR – Depois de ser ovacionado pelo público que lotou o Bar do Zira no último dia do seu show em Ipanema, antes de embarcar para uma temporada de um mês em São Paulo, Toni Platão voltou ao palco e cantou Nasci para chorar, uma música que não está incluída no repertório do show. E como sempre, com sua voz mágica e poderosa, ele recriou a canção e emocionou o público com um antigo sucesso da jovem guarda.

Na platéia do show, toda orgulhosa, a empresária do artista, a divina Gilda Matoso. Enquanto nos derramávamos em elogios a voz e a performance do grande Platão Gilda lembrou que tinha esquecido de gravar o capítulo da novela. “Waldir eu sou noveleira e não perco um capítulo de Paraíso Tropical”, disse, elogiando a trama de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. “No começo a novela era mais ou menos, mas agora está ótima!”

Gilda Matoso tem toda razão. Gilberto e Ricardo sabem tudo de novela. Paraíso Tropical está indo muito bem, com personagens divertidos e tramas bem urdidas. A novela tem ritmo, humor e charme. É mil vezes melhor do que Páginas da Vida. E muito mais interessante que Celebridade. Alessandra Negrini está ótima, principalmente agora que as duas irmãs estão aparecendo ao mesmo tempo. E é incrível que ela consiga fazer com que o público perceba quem é Paula e quem é Taís só com pequenos gestos. Só com o jeito de olhar. Tony Ramos está irresistível no primeiro papel de canalha de sua carreira. Renée de Vielmond e Rodrigo Veronese fazem o par amoroso da década. Faz tempo que um par romântico não dá tão certo na TV. Eles deviam namorar na vida real.

Vera Holtz dá aquele show de sempre. Bruno Gagliasso está divino como um pitboy de Copacabana. Conheço vários iguaizinhos a ele. No papel de piranha Camila Pitanga está arrasadora com o seu bordão “eu tenho categoria”. E faz tempo que Chico Diaz merecia um papel bacana como o do cafetão. A trama do menino que tenta conquistar o pai é muito legal, apesar do Marcelo Anthony ser um chato. Quanto ao casal gay é aquela coisa de todo casal gay em novela global: nem fodem nem saem de cima.

Talvez os problemas do início da novela tenham sido causados por uma certa ansiedade dos autores em contar a história. Era muita informação na cabeça do telespectador. Havia uma pressa em contar a história que nem parecia que eles tinham 180 capítulos. Ou talvez tenha sido culpa da Suzana Vieira que se tornou cansativa depois de sucessivos escândalos matrimoniais. Bom mesmo é que agora a novela encontrou seu tom e está fazendo a felicidade de Gilda Matoso. E de todos os fãs das novelas da Globo.


NASCI PARA CHORAR

Eu levo a minha vida chorando pelo mundo
Talvez até tivesse algum desgosto profundo
Procuro na memória, procuro me lembrar
Mas eu não posso
Nasci para chorar

Se vejo uma garota olhando para mim
E ela me pergunta por que eu sou tão triste assim
Eu fico sem resposta, digo adeus e vou embora
Pois é hora
É hora de chorar

E ainda continuo a felicidade procurando
Mas sempre solidão e a tristeza encontrando
Às vezes desconfio que a alegria é ilusão
E que o amor, não entra no meu coração

Não sei por que razão eu sofro tanto desse jeito
As garotas dizem que ser triste é meu defeito
Eu quero é ser alegre, ter alguém para amar
Mas eu não posso, não posso, nasci para chorar