13.5.08




Você só é você quando ninguém está olhando.


O QUE É ISSO COMPANHEIRO? - Se eu tivesse que escolher uma única palavra para definir o debate entre Fernando Gabeira, Alessandro Molon e Chico Alencar, na Faculdade Candido Mendes, a palavra escolhida seria “elegância”. Para o eleitor brasileiro, acostumado a debates políticos à base de acusações e denúncias de escândalos, o encontro entre os três candidatos foi uma agradável surpresa. A trinca de candidatos apresentou boas idéias para um possível governo e todos demonstraram ter condições de exercer de forma satisfatória o cargo para o qual estão se candidatando.


Nesse aspecto se pode até dizer que o Rio é uma cidade privilegiada por ter, nesta eleição para prefeito, três políticos tão bem preparados. O encontro entre Gabeira, Alencar e Molon foi inteligente, culto, divertido e alto astral. Nada daquela baixaria tão típica dos políticos brasileiros. Toda a discussão foi feita em cima de propostas de governo, com os postulantes à prefeitura defendendo seus argumentos e sempre mantendo respeito pelo ponto de vista do outro. Podia ser sempre assim.


O abandono da cidade pelo prefeito César Maia foi o assunto principal do debate. Não tanto por causa dos candidatos. Mas, principalmente, por causa da platéia que parecia abismada com o que está acontecendo no Rio. O público presente ao debate se mostrou atordoado com a ausência do poder público que impera na cidade. E as perguntas feitas pela platéia podiam se resumir numa única questão: como reverter o caos imposto ao Rio pelo prefeito César Maia? Foi essa pergunta, pulverizada em várias outras, que os candidatos tiveram que responder aos jovens eleitores da Faculdade Candido Mendes.



12.5.08




A fragrância sempre permanece na mão de quem oferece flores.


A SERVIÇO DO POVO - Uma provocante sátira ao regime de Mao Tsé-Tung. Assim é o livro A serviço do povo, do escritor Yan Lianke, que conta a história de um casal de amantes que descobre que pequenos atos de rebeldia, como quebrar estátuas de Mao, aumentam o apetite sexual do casal. Rotulado como obra pornográfica, o livro foi banido na China: “que não se distribua, faça circular, comente, copie trechos ou resuma...”, diz um trecho do decreto de proibição pelo governo chinês. Apesar de ter sido censurada, a obra ganhou forte repercussão em fóruns da internet, o que chamou a atenção de editores de todo o mundo. Os direitos do livro foram vendidos para mais de 15 países, entre eles Estados Unidos, Alemanha, Itália , Japão, e há diversas produtoras de cinema interessadas nas obras de Lianke.

Wu Dawang é o exemplo do soldado revolucionário. Aos 28 anos, é capaz de recitar, sem esquecer uma única palavra, os clássicos da Revolução Cultural. A destreza se estende também aos domínios da cozinha, onde consegue, em menos de trinta minutos, descascar legumes e preparar uma suculenta refeição de quatro pratos e uma sopa. Ao observar o engajamento do militar, o Partido aloca Wu Dawang como ordenança e cozinheiro particular do coronel do regimento. Mas o rapaz chama a atenção da jovem e entediada Liu Lian, esposa do coronel, que fica à janela observando Wu Dawang cultivar a horta da residência.

Wu Dawang e Liu Lian tornam-se amantes, e passam os dias trancados na casa. O casal descobre que quebrar estátuas do Grande Timoneiro é ótimo para aumentar o apetite sexual. Rasgar páginas do Pequeno Livro Vermelho e rabiscar imagens de Mao Tsé-tung também se mostra um poderoso afrodisíaco.De uma hora para outra, Wu Dawang e Liu Lian se vêem envolvidos em uma divertida brincadeira, uma deliciosa, porém perigosa, competição na qual cada um tenta provar ser mais contra-revolucionário que o outro.

Yan Lianke apresenta, de maneira hilariante, um romance inesquecível, que esmaga com a delicadeza de um rolo compressor, os tabus do exército chinês, da Revolução Cultural e da hipocrisia do partido comunista. O escritor nasceu em 1958, na província de Henan, China. Começou a carreira literária aos 20 anos, escrevendo para o exército. Atualmente, é considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea de seu país, e jám ganhou dois importantes prêmios literários em seu país. O autor teve quatro romances banidos pelo governo chinês, dentre os quais A serviço do povo.


5.5.08




Aquele que não consegue perdoar aos outros, destrói a ponte por onde irá passar.
O FENÔMENO SYLVINHA – Já está no ar o blog da jornalista Sylvia de Castro, uma das mulheres mais elegantes da imprensa brasileira. Sylvinha tem um texto delicado, feminino, que reflete sua personalidade e seu jeito de olhar o mundo. No seu blog Sylvinha faz uma crônica da sociedade brasileira, do mundo da moda e da convivência social. Durante duas décadas ela foi subeditora da coluna da Hilde, até que, no alvorecer de 2008, decidiu que estava na hora de partir para carreira solo. Se desligou do JB, ficou alguns meses se dedicando a família, e agora faz, em grande estilo, sua estréia na Internet.

O blog é ótimo. Através dele Sylvinha nos leva para um mundo de bom gosto, elegância, paixão pela vida e futilidades.

Sylvia de Castro é uma excelente colega de trabalho. Tenho ótimas lembranças da época que trabalhamos juntos no Jornal do Brasil. Ela sempre ia trabalhar muito bem vestida, elegante, com uma roupa impecável. É muito educada, gentil e apaixonada por sua profissão. Ela nunca se altera, nunca fica emburrada, tem uma serenidade invejável. É sempre gentil com os colegas, algo nem sempre usual num ambiente cheio de egos. Sua presença sempre deu um toque de classe à redação do JB.

Clique AQUI e leia o blog da Sylvinha.






MUNDO CÃO – É uma pena que o jogador Ronaldo Fenômeno não tenha um bom Assessor de Imprensa. Se tivesse ele jamais teria dado uma entrevista ao Fantástico para falar de seu envolvimento com os três travestis com quem foi para um motel. Um bom Assessor de Imprensa jamais teria permitido que o jogador fizesse o papel de carniça, para alimentar urubus da mídia. A tal entrevista só fez derrubar o jogador. Falando um monte de bobagens, dando explicações sobre assuntos de foro íntimo, mal vestido, feio, gordo, humilhado, com a cara inchada. Para o Fenômeno a entrevista foi um gol contra numa final de campeonato.

A produção do Fantástico bem poderia ter dado uma orientação ao jogador. Produzido um figurino adequado e evitado filmá-lo em super close para disfarçar a cara de ressaca que o atleta apresentava. Mas havia uma condenação moral embutida na reportagem. A impressão que deu é que a produção do Fantástico teve tanta má fé com o Ronaldo quanto os travestis que tentaram extorquí-lo. O programa deu ao jogador o mesmo tratamento que, semanas antes, havia dado ao casal que jogou a menina pela janela. E, convenhamos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, para o jornalismo sem critério, é tudo a mesma coisa: apenas carniça para alimentar urubus.

Ao final da entrevista a impressão que ficou é que, apesar de ser um atleta bem sucedido, um cara que teve muita sorte na vida, o Ronaldo Fenômeno é, antes de tudo, um otário. Só um otário daria uma entrevista patética como aquela. Só um otário se deixaria ficar na mão de três travestis vagabundos. Só um otário perderia uma Copa do Mundo por estar sendo chifrado por uma maria-chuteira. Só um otário ficaria deslumbrado com uma garota bobinha como Daniela Cicarelli. Só um otário...

De todas as declarações dadas pelo jogador à repórter Patrícia Poeta, a mais patética foi quando ele afirmou que era heterossexual e não tinha nenhuma dúvida disso. Kakakakaka... Tá boa, querida? O mais engraçado nesse episódio do Ronaldo com os travestis é que ele desnuda um comportamento típico do machão brasileiro. O machão brasileiro é assim mesmo. Sai com travesti, come veado, dá o cu, mas ele não é homossexual. Nunca. Jamais. Aquilo é apenas um momento de curtição. Homossexual é sempre o outro. Kakakakaka!!! Já vi muito esse filme...

Quanto a Andréa Albertini, o travesti que pegou Ronaldo, a sortuda para quem ele parou o carro, trata-se apenas de uma bicha burra. Uma incompetente. Uma marginal que deveria ser banida das ruas. Uma ameaça aos bofes da cidade. Os demais travestis deviam processá-la por causar danos morais à classe. Ora, vejam. Um Deus desce do Olimpo, se atira aos pés da bicha, e o máximo que ela faz é aplicar um golpe baixo. Otária. Cretina. Se Madame Albertini fosse uma bicha esperta, inteligente, sagaz, teria feito uma maravilhosa noite de amor com o craque. Teria feito um boquete caprichado, desses que levam um bofe ao sétimo céu, depois o comeria bem gostoso. Deixava-o completamente saciado, de um jeito que nenhuma mulher jamais o deixou. Ora bolas. O Fenômeno chegou tão vulnerável e carente e a idiota não soube aproveitar a oportunidade. Ela poderia ter tido um caso com o Fenômeno. E ninguém precisaria saber disso. Se Andréa fosse uma bicha do babado teria conquistado o bofe. Certamente, ele voltaria muitas vezes. Eles sempre voltam. Só pela sua incompetência quanto bicha Andréa merecia ser fuzilada.



3.5.08




Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos, é sonhar mais.



LEITURA OBRIGATÓRIA - O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani (1916 - 2000), é uma das obras-primas da novelística italiana do século passado. A história do amor irrealizado entre o personagem principal, autor da narrativa, e a bela judia Micòl Finzi-Contini se inscreve na evolução de um cenário idílico que se desagrega com o advento do fascismo na Itália e o início da Segunda Guerra Mundial. Em 1970, o livro foi levado ao cinema com enorme sucesso, numa bela adaptação do premiado diretor italiano Vittorio de Sica. Agora está voltando as livrarias com tradução de Paulo Andrade Lemos, na Coleção Grandes Traduções.

O italiano Giorgio Bassani foi um dos novelistas mais importantes de sua geração e O Jardim dos Finzi-Contini é considerado sua obra-prima. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, enquanto o nazismo e o fascismo avançavam pela Europa, a aristocrática família Finzi-Contini insiste em tentar ignorar o crescente preconceito contra os judeus. Os irmãos Alberto e Micòl continuam protelando a formatura: ocupam o tempo realizando competições de tênis com os amigos na quadra de sua bela casa; os pais, por sua vez, fingem não notar o avanço da doença de Alberto, que enfraquece a cada dia.

O destino trágico da família é relatado por Bassani já no início do romance: Alberto falece em 1942; Micòl e os outros são deportados para a Alemanha e mortos em um campo de concentração nazista. A propriedade dos Finzi-Contini, incluindo o jardim, permanece, mesmo degradada pelo tempo e pela falta de cuidado, como um símbolo concreto das lembranças do narrador.

O protagonista se apaixona por Micòl; e é nesse momento que o personagem parece agir do mesmo modo cego dos Finzi-Contini, deixando-se levar por ilusões, freqüentemente enganando-se e fingindo não ver a realidade. Micòl aparece aos olhos do leitor como um misto de espontaneidade, mistério e beleza: suas atitudes demonstram um amor pela vida e ao mesmo tempo uma adoração do passado, tal qual o narrador. Suas ações, repentinas e surpreendentes, compõem uma personalidade única e encantadora.

Romance autobiográfico de Giorgio Bassani, O Jardim dos Finzi-Contini narra os momentos de convivência do autor com a família, seja apenas observando-a de longe no Templo judaico, ainda quando criança, seja freqüentando, já mais velho, a casa que tanto o encantava.

Giorgio Bassani nasceu em Bolonha em 1916, mas passou a infância e a juventude em Ferrara. De origem judia, foi obrigado, vítima de leis raciais, a publicar seu primeiro livro sob o pseudônimo de Giacomo Marchi. Militante antifascista, foi preso em 1943. Ao fim da guerra, trabalhou como roteirista e ator de cinema e mais tarde filiou-se ao partido socialista. Faleceu em 13 de abril em 2000, na cidade de Roma, onde há muito residia.