23.10.04




Não vemos as coisas como são, mas como somos.



A LINHA DA BELEZA – O escritor Alan Hollinghurst está para a literatura inglesa assim como a dupla Pet Shop Boys está para a música pop. A escrita de Hollinghurst tem a mesma suavidade melódica aliada à mesma intensidade ideológica das canções de Neil Tennant e Chris Lowe. Um texto elegante, classudo, ao mesmo tempo fácil e puro. Seus personagens são desenhados com glamour e estilo enquanto uma trama envolvente e erótica arrasta o leitor para um mundo de prazer literário.


Na última terça feira, Alan Hollinghurst ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra, com o livro A linha da beleza, lançado em 2004. Pela primeira vez, em 36 anos de existência, o Booker Prize foi concedido a um romance de temática homossexual. Tem isso alguma importância? O importante é que Mr. Hollinghurst é um escritor especial. Da mesma tradição de Oscar Wilde e E M Forster, ele utiliza as prerrogativas de sua condição homossexual para descrever e criticar com muita classe o mundo e o tempo em que vive.


A biblioteca da piscina é o único livro de Alan Hollinghurst publicado no Brasil, lançado em 1999 pela editora Record. Uma encantadora obra-prima carregada de humor e gosto pela vida. O romance narra o cotidiano do jovem aristocrata William Beckwith na Londres da primeira metade dos anos 80. Mr. Beckwith não precisa trabalhar e pode dedicar sua vida a saborear os pequenos e grandes prazeres. A boa comida, a melhor bebida, o culto às artes e ao seu esporte favorito: a pegação. O protagonista adora freqüentar a piscina de um clube antigo, onde costuma observar os corpos nus dos outros homens quando eles estão no vestiário.


Um belo dia, quando está fazendo pegação num banheiro público de um parque londrino, Wiiliam salva a vida de um bicha velha, que escorrega e bate com a cabeça na parede azulejada. A vítima é um Lorde decadente, ressentido e mau humorado, que acaba se afeiçoando a William e o pede para escrever sua biografia. Enquanto pesquisa a vida daquele senhor, o protagonista repensa sua vida e seus relacionamentos amorosos com James, um médico bem sucedido e Artur, um jovem negro bonito e pobre. A biblioteca da piscina é um livro encantador, que tem a jovialidade e a fluência narrativa de um bom filme do James Ivory. A seguir, um trecho do livro:




Eu já ia dar meia-volta para ir embora quando reparei em um rapaz árabe solitário vagando por ali, com as mãos nos bolsos do seu anoraque, sem nada de notável, mas algo nele despertou em mim o sentimento de que eu devia possuí-lo. Estava convencido de que o rapaz me tinha visto e eu experimentava uma deliciosa exaltação de luxúria e contentamento em face da idéia de ir trepar com ele enquanto um outro rapaz esperava por mim em casa. A fim de testa-lo, fiquei fazendo hora atrás do quiosque, onde alguns banheiros, excessivamente freqüentados por homens solitários de meia-idade, encontram-se espremidos à margem da rua principal, encoberta pela hera e pela sombra dos pinheiros. Desci a escada de azulejos, entre as paredes de azulejos, e um aroma higiênico, surpreendentemente agradável, me cercou. Tudo era muito limpo e em diversos cubículos, sob os canos de cobre polido (de cujo brilho alguém devia se orgulhar bastante), homens se achavam de pé, as capas de chuva ocultando do visitante inocente ou do policial desconfiado suas demoradas travessuras. Senti uma leve repulsa – não um sentimento de desaprovação, mas o temor de um dia vir a me tornar como eles. Suas cabeças me pareciam grisalhas e desprovidas de amor quando se voltaram para mim em um movimento automático de expectativa. Que investimento enorme haviam feito para, depois, obter apenas um lucro tão desprezível...

Será que eles se cumprimentavam, com suas mãos envelhecidas, quando, dia após dia, tomavam suas posições ao lado uns dos outros na estação do metrô que porventura seu circuito pelos sanitários públicos houvesse alcançado? Será que alguma coisa acontecia, será que eles, desistindo do que quer que procurassem ali, e que de modo algum poderia ser sexo, mas no máximo uma visão de relance de algo memorável, será que eles alguma vez acabavam ficando mesmo uns com os outros? Eu tinha certeza que não; eles estavam totalmente empenhados, com uma silenciosa cumplicidade muda, em procurar incansavelmente algo que não podiam ter. Eu não era tímido, mas sim demasiado orgulhoso e petulante para tomar meu posto ao lado deles, e foi após um só momento de hesitação que resolvi não fazer isso.





Para ingressar na alta sociedade é preciso ou alimentar, ou divertir, ou chocar as pessoas. Oscar Wilde


CAFÉ SOÇAITE – A jornalista e locomotiva social Hildegard Angel promoveu um coquetel de boas-vindas para o estilista Ocimar Versolato que, na noite anterior, inaugurou uma grande loja na Rua Barão da Torre, em frente a Praça da Paz. A recepção de Hildegard foi no MIX, o novo restaurante de Ricardo Amaral e Alexandre Accioly, que fica ao lado da loja. O MIX é ponto de encontro de ricos e famosos. Hildegard, que é um festeira nata, dessas que não perdem um coquetel, nem um casamento elegante, nem uma badalada reunião social simplesmente não pôde ir à festa que ela mesma estava promovendo. O falecimento de um amigo de infância a levou, no dia da festa, a um ritual de despedida na cidade de Juiz de Fora.


Mesmo sem a presença da anfitriã, a festa transcorreu num alto nível de animação. Sabendo que a amiga não poderia estar presentes, Gisela Amaral assumiu o controle e recepcionou as personalidades do society carioca que atenderam ao convite de Hildegard. Gente rica e poderosa, com suas mais caras jóias, suas roupas de grife e seus reluzentes carros importados. Jair e Marisa Coser, Lou de Oliveira, Bia Rique, Raquel Alt com Tonhão, Narcisa Tamborindeguy, Tânia Caldas, Sandra Habib, Claude Amaral Peixoto, Vicente Mantuano, Marcelo Faustini, Carlos Alberto Serpa, Fausto Stuqui, Ricardo Amaral, Alexandre Accioly e Michele, Lenny Niemeyer, Ariadne Coelho, Leleco Barbosa e Maninha, Bianca Teixeira, Sylvia de Castro, Jaqueline Brito e Mario Canivello, só para citar alguns.


O evento estava marcado para às oito da noite e, os mais ricos, chegaram pontualmente. O primeiro andar do MIX foi fechado para a recepção. Lá dentro o farfalhar das sedas, o tilintar das taças de champanhe e vinho, e chacoalhar das pedras de gelo nos copos de uísque, risos, gargalhadas e gritinhos arrematados com ohs! e uhs! O DJ tocava apenas o que se convencionou chamar de lounge: o tema do filme Aeroporto, Frank Sinatra, Jonhny Alf, Burt Bacharach, Marvin Gaye e outras pepitas que pareciam feitas para combinar com as jóias das granfinas, que fizeram a delícias dos fotógrafos das revistas Caras, Contigo e Flash. A chegada de Ocimar Versolato foi triunfal. Como ele era o homenageado, demorou um pouco a chegar. Mais sua entrada no salão não poderia ter sido mais gloriosa. Ao seu lado estava sua musa inspiradora Sônia Braga.


Sônia Braga não poderia estar mais linda. Deslumbrante com um fechativo modelito Versolato e seus longos cabelos negros emoldurando o rosto cada vez mais belo. Clic. Clic. Clic. Os flashes dos fotógrafos deram mais excitação à noite. Todos os granfinos queriam uma foto ao lado de Sônia. Foi então que eu percebi que todas aquelas dondocas do society também tinham um lado Gabriela. Ou seria A dama do lotação? O fato é que Sônia não teve um minuto de sossego, fotografando, fazendo poses e distribuindo seu carinho e seu bom humor com todos os presentes.


Passei a noite inteira tomando taças de um vinho chileno fantástico e trocando uma palavrinha com um e outro. “Como a Sônia está linda”, era a frase mais ouvida na noite. “Pede para o fotógrafo da coluna fazer uma foto minha com o Versolato”, me pediu uma dondoca. “Como a Sônia tem cabelo. É dela mesmo ou é implante?”, perguntava uma madame reluzindo de jóias. “A festa está ótima. Pena que a Hilde não tenha podido vir”, dizia uma jovem senhora enquanto emendava, numa gargalhada, “talvez a festa esteja ótima exatamente porque ela não pôde vir”.


“Você viu aquele rapaz bonito que está com o Serpa? É o Fausto Stuqui”, comentava uma jornalista cheia de cobiça na voz, enquanto sibilava“. Quando Leleco Barbosa passava Ricardo Amaral imitava Chacrinha e gritava: “Terezinha...” Quando eu comentei com uma senhora que estava impressionado com a quantidade de personalidades da sociedade presentes à festa, a mulher me respondeu com a voz séria. “As pessoas estão aqui porque gostam da Hilde. As pessoas estão aqui porque gostam de se reunir e encontrar os amigos. Mas, as pessoas estão aqui, principalmente, porque não querem correr o risco de deixar de atender a um convite da colunista, entrar numa lista negra e nunca mais serem citados na coluna”.


Eu estava bebendo meu vinho tinto ao lado da cabine do DJ quando La Braga se aproximou e me perguntou onde era o banheiro. Eu mostrei o caminho e, antes de se afastar ela virou-se para o DJ e afirmou: “Muito bom o teu som...” Mais tarde, quando eu conversava com Mario Canivelo e um rapaz bonitão que trabalhava no MIX, Sônia se aproximou, segurou no meu braço, disse que estava adorando aquele lugar, que o ambiente era muito simpático e que tinha curtido ver sua foto na exposição do Luis Trípoli. (Uma das paredes do lugar é decorada com dezenas de fotos do Trípoli).


Depois contou que está gostando muito morar em Niterói, que a casa que comprou para sua mãe fica num lugar muito sossegado, que ela curte passear no caminho de Niemeyer. Falou que adora comer massas no Da Vero e que o restaurante Jambeiro tem uma vista fantástica para a Baía da Guanabara. Depois a estrela brasileira descreveu os cinemas que estavam sendo construídos em Niterói. Um complexo de seis salas num shopping. Os olhos de Sônia brilhavam quando ela descrevia o cartaz do complexo cinematográfico que mostrava dois rolos de filme que giravam enquanto anunciavam os filmes exibidos.


No dia seguinte, na redação do Jornal do Brasil, o diagramador Domingos Bernardino, o Dobe, olhava encantado para as fotos de Sônia Braga, no MIX. "Como ela está bonita", dizia Domingos, com sua voz máscula e gulosa. "Sou fã da Sônia desde aquela cena em que ela subiu no telhado para soltar a pipa. Tá lembrado?"

19.10.04




A generosidade consiste em dar antes de ser solicitado.


SERÁ QUE BUSH VAI REALMENTE GANHAR A ELEIÇÃO? - Está chegando a hora. Daqui a poucos dias será realizada a eleição americana. E, apesar de estar torcendo por Jonh Kerry, acho que o canalha do Bush vai acabar ganhando. Se até agora Kerry não conseguiu ameaçar de forma clara a reeleição do gangster da Casa Branca, acho difícil ele reverter a situação. O que mais me choca é como Bush consegue obter o apoio de metade dos eleitores mesmo depois de todas as mentiras e escândalos em que esteve envolvido nos últimos anos. Isso revela, antes de qualquer coisa, o caráter da sociedade americana. Uma sociedade que é capaz de eleger um gangster, um mafioso, um mentiroso, um cínico, um falso, um desonesto, um crápula para a presidência do seu país, é um sociedade sem caráter. Uma sociedade regada a mentiras. Basta considerar as grandes corporações que forjam seus balancetes e a grande imprensa que publica noticias mentirosas. A era Bush só fez mostrar ao mundo o que a sociedade americana realmente é: uma sociedade fascista. Não foi à toa que Vladimir Putin, notório lider fascista, acabou de declarar seu apoio a reeleição de Bush. Ambos são líderes políticos que pregam o uso da força, da mentira e do terror para conseguir seus objetivos. Bush e Putin são os senhores do terror. Por outro lado, alguma coisa me diz que a reeleição de Bush será o começo do fim. A insanidade do seu ditador vai levar à queda do império americano. A história da humanidade já viu outros impérios caírem. O império americano será apenas mais um.




CUIDADO COM O FASCISMO - "Uma peça extraordinária de jornalismo investigativo - e também um marco para a história". Assim o New York Times definiu o livro A VERDADEIRA ODESSA, de Uki Goni, que mostra como Juan Peron abrigou nazistas na Argentina. O fato de a Argentina ter abrigado nazistas é notório. Em A VERDADEIRA ODESSA, Uki Goñi revela como Perón armou uma intrincada rede de agentes internacionais para resgatar centenas de colaboradores do Terceiro Reich. A investigação incrimina até mesmo o Vaticano, a Cruz Vermelha, diplomatas, policiais e políticos em vários países europeus. Um livro polêmico e revelador que redefine os estudos sobre Segunda Guerra, racismo e anti-semitismo.


Desde que a Segunda Guerra Mundial terminou, a existência de uma fantasmagórica organização dedicada a resgatar criminosos de guerra nazistas, conhecida como Odessa, tem fornecido assunto para incontáveis artigos de jornal, documentários, romances e filmes. Alguns sustentam que altos personagens do Terceiro Reich escaparam à justiça cruzando o Atlântico de submarino. Na Argentina, há muitos testemunhos de gente que, ao fim do conflito, viu homens nervosos em seus uniformes militares, desembarcando de pequenos barcos na costa da Patagônia. Além de grandes caixas de madeira contendo ouro nazista e arquivos secretos de Hitler que foram recolhidas em praias sopradas pelos ventos, seguindo para esconderijos nos Andes.


O autor Uki Goñi é cidadão argentino, mas nasceu em 1953 em Washington, EUA. Foi educado nos Estados Unidos, Argentina, México e Irlanda. É colaborador de jornais britânicos, argentinos e americanos e mora em Buenos Aires desde 1975. Seu livro A Verdadeira Odessa está sendo lançado pela Editora Record.


14.10.04




O verdadeiro vencedor esquece que está numa corrida. Ele apenas ama correr.

DECADENCE AVEC ELEGANCE - Solange Meneghel, empresária e estilista da marca BC GIRLS lançou sua coleção de verão num café da manhã no restaurante Garcia & Rodrigues, no Leblon. A irmã da Xuxa mostrou uma coleção que refletia o impacto da bicicleta na vida urbana, usando como fonte de inspiração cidades como Berlim e Amsterdam, onde as bikes ganham o cotidiano dos europeus modernos e passeiam pela moda influenciando atitude e comportamento. Uma coleção voltada para adolescentes modernas que propõe liberdade de movimento.


A coleção da BC GIRLS foi desfilada por garotas da Agência 40 Graus, de Sergio Matos. Jovens aspirantes a Gisele Budchen. Serginho, na primeira fila, ficava torcendo pelo sucesso de suas meninas. Apesar de ser um desfile de roupa feminina, quem roubou a cena foi o modelo Pedro Bahia, um menino loirinho, que não devia ter mais de quinze anos. Foi ele que abriu o desfile com seu cabelo encaracolado, encantando a platéia com seu jeito de anjo barroco. O rapazinho serviu de aperitivo para os modelitos da grife. A única coisa que posso dizer é que o menino é a coisa mais linda do mundo.


Depois do desfile Sergio Matos me apresentou o candidato a top model dizendo que aquele tinha sido o seu primeiro desfile e que o jovem tinha sido descoberto pelo Paulo Zulu. "Foi o Zulu que mandou ele para minha agência", me disse Serginho quando eu, boquiaberto, falei que o rapaz era belíssimo. Pedro Bahia! Guardem este nome, pois ele ainda vai dar muito o que falar na moda brasileira.


Antes, durante e depois do desfile, foi servido um lauto café da manhã aos convidados. Pessoal da moda e da imprensa. Pães, brioches, geléias, queijos, presuntos, pastramis, sucos, bolos, tortas, quiches, doces, saladas. Tudo com aquele padrão sofisticado do Garcia & Rodrigues. Estavam lá, entre outros, Heloísa Marra, do Caderno Ela e Adriana Bechara, da revista Domingo. Além de Rogério S, Tonhão, Vera Bocaiúva, Lenny Niemeyer, Babi e Luciano Szafir, que enlouqueceu os fotógrafos de celebridades que cobriam o desfile. Szafir estava belíssimo, usando uma instigante camisa vermelha. A cara de quem tinha acabado de acordar o deixou ainda mais lindo. Certamente, Xuxa escolheu o homem certo para ser seu reprodutor.


Recebendo a todos, os produtores do evento Toni Oliveira e Tereza Duarte.





TRAGÉDIA NO QUARTEL - Embora não confirmada oficialmente, a hipótese de que houve um duplo homicídio no interior da Base Aérea de Fortaleza, no dia 10 de setembro passado, começa a ser admitida publicamente pelo comando da corporação. Ontem, o chefe da seção de Comunicação Social da Base Aérea, major José Roberto de Oliveira, confirmou ao jornal O POVO que "perdeu força" a tese de homicídio seguido de suicídio, que inicialmente norteou a causa das mortes dos soldados Francisco Cleoman Fontenele Filho e Robson Mendonça Cunha. "Mas nenhuma hipótese está descartada", diz o major. O caso completou um mês no último domingo e, até então, a Base permanecia em
silêncio, sustentada pelo segredo de justiça do caso determinado pelo juiz
militar Ruslan Blaschikoff.


Nos bastidores, no entanto, o caso continua em ebulição. Há informações extra-oficiais de que o trabalho pericial teria constatado violação do local das mortes ainda na noite da ocorrência. O major nega: "Isso não existiu". O POVO informou, na edição do último dia 21 de setembro, que teria dado negativo o exame residuográfico feito nas mãos dos dois corpos. A suposta violação do local e o possível resultado do exame residuográfico nos dois soldados reforçariam a tese do duplo homicídio.


Há também acusações, pela parte representante das famílias, de que estaria havendo sonegação de informações pela Base Aérea. O advogado Paulo César Feitosa, que acompanha o caso em nome dos parentes de Cleoman e Robson, disse que ainda não teve acesso, em nenhum momento, aos autos do Inquérito Policial Militar (IPM) sobre as mortes. "Fizemos uma petição há cerca de 20 dias para ter acesso ao que foi investigado e nada", acusa Feitosa.


O major justifica: "Nós estávamos conversando com o promotor militar (Alexandre Saraiva) para saber o que fazer. Ele (advogado) vai ter acesso nesses dias. Talvez nessa semana. Tá dependendo mais de um contato com ele". O POVO falou com o oficial que preside o IPM, capitão Márcio Ribeiro. Ele confirmou a petição, mas explicou que só o major está autorizado pelo Comando da Base a falar com a imprensa sobre o caso.


O prazo para o andamento do IPM é de 40 dias, contados a partir da data das mortes, podendo haver prorrogação por mais 20 dias. O major Oliveira confirmou que já foi pedido ao juiz militar a extensão das investigações. "Ainda estão sendo ouvidas pessoas. Uns depoimentos acabam demandando outros. Há também casos de gente que precisa ser ouvida mais de uma vez", explicou. Os peritos da Polícia Civil já realizaram a reconstituição das mortes, há cerca de duas semanas, mas o major adiantou que uma nova reconstituição será necessária.


11.10.04




Os deuses escondem dos homens a beleza da morte para levá-los a agüentar a vida.

NOS EMBALOS DE IPANEMA – Feriado de 12 de outubro. Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. E dia das crianças. Pois foi nesse dia tão especial que o festeiro Guilherme Araújo recebeu um grupo de amigos para um almoço a fim de comemorar o aniversário de sua grande amiga Thereza Eugênia. Guilherme é um expert em comemorações. E para deleite de seus convidados mandou servir uma inacreditável moqueca de camarões. Camarões enormes, suculentos, servidos com caruru e vatapá. Um delírio gastronômico para o paladar dos comensais.


Quando cheguei para o almoço já estavam lá o empresário Paulinho Lima, Vera Figueiredo, Rodrigo Argollo, Diana Aragão e Ângela Bosco, a senhora João Bosco, que estava estreando nova cor de cabelo. Ela substituiu o antigo loiro pelo atual ruivo. Está linda. Logo depois surgiu o fotógrafo Marco Rodrigues, quase totalmente recuperado do acidente que lhe fraturou a perna. Depois chegou um grupo de lesbian-chics, amigas da homenageada.


A reunião começou a ficar animada mesmo com a chegada de Renato e Kiki Caravaglia. Renato é um gentleman. Bom papo, ele contou histórias divertidíssimas e encantou a todos com sua risada. E Kiki sempre dá um toque de classe com a sua presença. Noelza Guimarães chegou logo a seguir, trazendo consigo toda aquela aura de grande dama da sociedade carioca. A muqueca já tinha sido servida quando Tânia Caldas chegou acompanhada da bela Maria, filha dela com Raul Cortez.


Entre risadas, gracejos, taças de vinho, piadas, e fofocas, o assunto mais discutido no encontro foi o desconforto dos convidados com o Rio de Janeiro. Todos muito incomodados com a violência e com o clima de miséria humana, social e existencial que se instalou em todos os cantos da cidade. E não era nostalgia. Era a triste constatação que a cidade estava realmente vivendo uma guerra civil. E até então ninguém ainda tinha tomado conhecimento da reportagem do jornal The Independent, que chamou o Rio de terra da cocaína e da carnificina. Que horror!


Aquele grupo de cariocas reunido no almoço teve a oportunidade de desfrutar o Rio na sua fase áurea. Verdadeiros ícones da vida social carioca. Personagens de uma época em que a cidade era mesmo um paraíso e um sofisticado centro de produção cultural. Pessoas que curtiram o Rio de Janeiro no tempo em tudo acontecia em Copacabana e que Ipanema era apenas uma praia mais longe. Ficaram todos contando histórias do Beco das Garrafas, do Castelinho, do Regine´s, da Montenegro, do Pé Sujo, do Pizzaiolo, do Jangadeiros...


Mesmo com essas evidências, durante todo o almoço o astral esteve altíssimo. O bom humor foi a tõnica de todo o evento. Renato Caravaglia contou de sua viagem a Manaus com a mulher e a filha; Paulinho Lima me disse que está se mudando para Laranjeiras, depois de sofrer mais um assalto em sua mansão em Niterói; Maria Cortez contava que está trabalhando na Daslu, em São Paulo; Rodrigo Argollo comentava com todos como Sonia Braga está bonita e elegante (ele esteve na festa da Sonia no Galeria Café); Guilherme Araújo contava que está indo sexta-feira para Nova York, vender o seu apartamento em Manhatan, que fica no prédio ao lado do edifício Dakota.


Como gosta de dizer Antonio Calmon, gente fina é outra coisa!





NOS TATAMES DA CIDADE -A revista TATAME, publicação brasileira dedicada às artes marciais completa dez anos em novembro. A TATAME surgiu com a grande popularidade do jiu-jitsu no início dos anos 90 e com o crescente interesse do público masculino pelos idolos, campeonatos e bastidores desse esporte. No início a edição era feita em papel jornal no formato tablóide e, com o tempo, foi evoluindo graficamente até chegar ao luxuoso formato atual, com tiragem mensal de 20 mil exemplares. Nos últimos dez anos a publicação acompanhou de um ângulo privilegiado todo o movimento das artes marciais no Brasil e no exterior. Assim como a popularização do jiu-jitsu brasileiro nos EUA, Europa e Ásia. E tampém a explosão dos campeonatos de Vale Tudo como evento para o grande público. Na edição de outubro, que acabou de chegar nas bancas, Marcelo Alonso, um dos editores da revista, publica extensa reportagem sobre a explosão do jiu-jitsu na Europa. Durante um mês Alonso visitou vários países do velho mundo, cobrindo campeonatos, visitando academias e entrevistando lutadores. Sob o título "Vale-Tudo Brasileiro coloniza a Europa", o jornalista escreveu:


Seis anos após conquistar os Estados Unidos e o Japão, a modalidade criada por Carlos e Hélio Gracie nos anos 30, para provar a eficiência de seu Jiu-Jitsu frente às outras artes, finalmente ganhou o Velho Mundo. No início, muitos achavam que era uma moda, outros apenas não concebiam que aquela prática terceiro-mundista pudesse se transformar em uma febre na capital cultural do mundo. Mas a demanda pelas fitas do Ultimate Fighting Championship e do Pride acabaram levando-os a iniciar o processo de rendição. Tal qual os exércitos de César (50 AC), Napoleão Bonaparte (1800) e, posteriormente, Adolph Hitler (1940), o Jiu-jitsu invadiu a Europa, fincando bandeira em 90% do continente. A começar pelo Leste Europeu (Rússia) e pela terra dos vikings (Finlândia), indo para a Holanda e então alcançando todo o continente. Até encontrar sua meca na Inglaterra, hoje com dezesseis associações de Mixed Martial Arts e dezenas de equipes.




DEU NA TATAME - Royler Gracie volta aos ringues em novembro. Desta vez lutando no ringue havaiano do Rumble of the Rock, Royler terá pela frente um antigo conhecido: o local Baret Yoshida. Royler e Yoshida já se enfrentaram na final de Abu-Dhabi e, na ocasião, o Gracie saiu vencedor. Agora Royler confirma o serviço nas regras do Mixed Martial Arts. "Sei que no chão ele é muito perigoso. Gosta de pegar o braço, aplicar triângulos, mas não conheço muito da trocação dele não", confidenciou Royler em entrevista exclusiva a TATAME. Royler viaja para o Havaí faltando dez dias antes do evento, que rola no dia 20 de novembro e contará com o apoio de seu primo Rodrigo Gracie, enfrentando o havaiano BJ Penn.

7.10.04




Pobre é a pessoa cujos prazeres dependem da permissão de outro.

UMA NOITE COM SONIA BRAGA – O artista plástico Hélio Braga está expondo seus quadros no Galeria Café, em Ipanema. Na quarta-feira, dia do vernissage ele precisou viajar a trabalho. Sua irmã, a atriz Sonia Braga, se incumbiu de representa-lo no evento e ficou ela mesma recebendo as pessoas e mostrando os quadros do irmão. Sonia estava linda. Toda de preto com o cabelo amarrado num imenso rabo de cavalo. Bem humorada e divertida, ela contava histórias sobre os trabalhos do irmão e contava casos engraçados sobre sua família. Como se estivesse recebendo as pessoas em sua própria casa ela oferecia um drinque para um, fazia um carinho no outro, posava para os fotógrafos, soltava os cabelos, ensaiava uns passos de dança e dava muitas gargalhadas.


Eu tenho dois quadros do Helio Braga. Os trabalhos são muito bonitos e originais. Figuras masculinas com conotações eróticas. Em geral seus quadros são pequenos. Mas nessa exposição ele surpreendeu a todos fazendo quadros imensos. O seu universo continua lá. Um homo-erotismo carregado de pureza. Uma mesma figura aparece em vários quadros: um sujeito que é metade homem, metade peixe. Sonia Braga contava que uma mulher havia dito para o pintor que não existem homens-sereia. Às gargalhadas ela afirmava que também não existem sereias.


Quando o designer Gilson Martins contou que estava fazendo meditação Sonia disse que não conseguia meditar. “Eu não consigo me concentrar. Você consegue?”, ela me perguntou e depois continuou. “Eu também não consigo fazer yoga. Acho que é porque no fundo eu não quero entrar no nirvana. Eu gosto daqui. Desse mundo em que vivo”. Depois Sonia contou que encontrou com Woody Allen numa festa e quando as pessoas começaram a falar de massagem ele virou para ela e disse: “eu não posso fazer massagem porque sou muito tenso”.


O novelista Manoel Carlos fez questão de ir prestigiar a estrela. Quando posava para fotos ao lado dela alguém disse que gostaria de ver Sonia Braga numa novela dele. Manoel Carlos respondeu que ela ia fazer a novela do Silvio de Abreu. A noite de queijos e vinhos também teve a presença de Mario Canivello, Sergio Fonta, o joalheiro Antonio Bernardo e o psicanalista Paulo Próspero, além de um monte de gente que eu não conhecia.




O DIABO A QUATRO – A exibição do filme de Alice de Andrade no Festival de Cinema do Rio foi bem animada. O cinema Odeon estava lotado. E eu encontrei um monte de gente bacana. Para começar a própria Alice, que conheço há muitos anos. Ela estava feliz e eu consigo imaginar o que significava para ela estar lançando aquele filme. Desde adolescente ela sonhava em dirigir seu próprio filme.


O Diabo a Quatro é uma comédia de costumes ambientada na zona sul do Rio que lembra um pouco as comédias de praia de Pedro Carlos Rovai como Ainda Agarro Essa Vizinha e A Viúva Virgem, estreladas por Adriana Prieto e Nos Embalos de Ipanema, dirigido por Antônio Calmon. O principal cenário do filme é o Posto Seis e seus personagens típicos: a babá gostosa, o surfista rico, o surfista pobre, o menor abandonado, a granfina ninfomaníaca, o político corrupto e o cafetão. Esses personagens se entrelaçam durante o verão em que latas de maconha surgiram nas praias do Rio. Lembram dessa história? O filme diverte, tem ritmo e conseguiu arrancar boas risadas da platéia.


Marcelo Faria, o inesquecível bombeiro Vladimir da novela Celebridade, é o protagonista do filme. No dia da estréia ele estava ainda mais bonito com a barba por fazer, o cabelo desgrenhado e um agasalho esportivo azul. Estava lindo. Quando me viu ele me deu um abraço super apertado. “Quanto tempo cara?“, ele dizia, amoroso. Depois perguntou: “E o Calmon? Como é que está? Tá bem?” Eu respondi: “Está ótimo Marcelo. Melhor do que nunca”.


Também estava lá todo elenco do filme: Jonathan Haagensen, Evandro Mesquita (ele está ótimo fazendo um caminhoneiro gay), Ney Latorraca, Maria Flor, Maria Silvia e mais os atores do grupo Nós no Morro. Reginaldo Farias, Carlos Orchades, Zezé Motta, Roberto Berliner, Também estavam lá alguns dos melhores amigos da diretora como a cantora Kátia B, a atriz Conceição Rios, o ator Sergio Maciel, eterno namorado de Cazuza, e a jornalista Patrícia Terra, que participa do filme. Depois do cinema ligamos para Bebel Gilberto, em Londres, para contar o que tínhamos achado do filme da Alice, mas atendeu secretária eletrônica e nós deixamos um monte de recados carinhosos.


O final da noite foi na casa do gentleman Carlos Orcades. Na sala da casa dele, cercada de aquários ficamos tomando chá, fumando um e contando casos: eu, o anfitrião, Sergio Maciel e Conceição Rios. Fazia tempo que eu não via o Serginho então perguntei como é que tinha sido para ele a realização do filme sobre Cazuza. Afinal, é uma história que também dizia respeito à vida dele. Serginho respirou fundo, arqueou as sobrancelhas e me respondeu: “Foi um saco. Um aluguel. As pessoas me ligavam o tempo inteiro para me perguntar coisas sobre o Caju (é assim que ele se refere ao seu grande amor) e eu ficava tendo que relembrar tudo aquilo que nós passamos. Foi um sofrimento. Ao mesmo tempo eu achava legal que o filme estivesse sendo feito”. Eu comentei que a melhor coisa do filme é o ator e Sergio nos contou que foi ele quem indicou Daniel Oliveira para o papel depois de vê-lo atuando numa peça.




A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR - Merece um estudo especial de sociologia política o resultado das eleições no Rio de Janeiro. O que é que faz a população de uma cidade reeleger um incompetente desastrado como César Maia para a prefeitura? Nos últimos quatro anos o Rio foi uma cidade sem adminsitração. Quem anda pela cidade tem a impressão que aqui não existe prefeito. As ruas estão sujas e cheias de mendigos. O trânsito é caótico. O espaço público é de quem chegar primeiro. As calçadas estão invadidas por camelôs. As vias públicas totalmente loteadas por motoristas de táxi. Os cartões postais transformados em ciladas para turistas. Olhando para a cidade têm-se a impressão que aqui não existe prefeitura. Então, porque o César Maia foi reeleito? Talvez por isso mesmo. Talvez por ele ter entregue a cidade àquele que for mais esperto. Talvez pelo fato dos candidatos concorrentes serem fracos. O fato é que, nos próximos quatros anos, o Rio continuará sendo uma cidade sem prefeitura. Uma cidade entregue à própria sorte.

4.10.04




O ciumento passa a vida procurando um segredo que vai destruir sua felicidade.

3.10.04

POR UM PUNHADO DE SAMBA - Antes de assistir ao filme Era Uma Vez no Oeste, aproveitei e fui até a Biblioteca Nacional conferir a exposição comemorativa dos 60 anos de Chico Buarque. É muito interessante. Cheia de coisas curiosas. Mas, por coincidência, uma coisa na exposição me chamou a atenção. Computadores contêm toda a discografia do artista. Você põe os fones, clica na capa do disco, aparece uma lista de músicas, você clica no play e a música escolhida começa a tocar. Fiquei um tempão no computador curtindo antigos discos de Mr. Buarque. Foi então que descobri o disco POR UM PUNHADO DE SAMBA, que o cantor gravou na Italia, com o maestro ENNIO MORRICONE. Eu sabia da existência desse disco mas tinha esquecido. E foi com grata supresa que ouvi algumas músicas cantadas em italiano e arranjadas pelo autor das mais belas trilhas sonoras já feitas para o cinema.


O que eu mais gostei na exposição foi das fotos de Chico Buarque adolescente. Como ele era lindo. Um pedaço de mau caminho. Mas o que choca mesmo são as letras de alguns sucessos, com o carimbo da censura proibindo as canções. E as justificativas dos censores, descobrindo significados absurdos nos versos. UM horror. Quando penso que o Brasil já passou por esse tipo de coisa sinto arrepios. E as ameaças do "pessoal da direita", chamando-o de comunista? Achei aquilo tão "Olavo de Carvalho"!!! A exposição também tem um material em video sensacional, com Bethânia, Nara e entrevistas. Em cartaz na Biblioteca Nacional.




Que a estrada venha ao seu encontro. E que o vento sempre esteja às suas costas.

CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO – O melhor do Festival de Cinema do Rio é a mostra retrospectiva do cineasta italiano Sergio Leone. Uma oportunidade de ouro de assistir na tela grande a magia de alguns clássicos do cinema. Os fãs do diretor têm lotado as sessões e assistido aos filmes com reverência e adoração. É compreensível. Por uns dólares a mais e Houve uma vez no oeste deixa o público boquiaberto com sua perfeita tradução da arte de fazer cinema. Diante dos filmes do mestre Sergio Leone, Tarantino, Almodóvar e Zhang Yamou são apenas aprendizes talentosos. Existe uma perfeita compreensão da função do roteiro e uma certeza muito grande dos objetivos do diretor. É incrível que filmes feitos há mais de trinta anos se mantenham com tanto frescor. Com tanta modernidade. E tanta elegância cinematográfica.

Falar de Sergio Leone é falar de seu velho companheiro Ennio Morricone. Assistindo em série aos clássicos do western-spaghetti, pode-se afirmar que houve um casamento perfeito entre o diretor e o brilhante maestro que criou as trilhas musicais para seus filmes. Morricone criou temas de acordes requintados. Músicas que foram usadas com muita sabedoria pelo diretor e que têm uma função bem definida no filme. Muito mais do que sublinhar climas, a música no cinema de Sergio Leone também conta a história.

Quando explode a vingança é de 1974, época em que as ditaduras imperavam no mundo e a palavra “revolução” era pronunciada com temor. Pois o filme tem uma história impressionante. Toda a estrutura é a de um faroeste. Dois aventureiros se juntam com o objetivo de praticar um grande assalto a um banco, no momento histórico em que está acontecendo a revolução mexicana. Eles acabam se envolvendo com o movimento revolucionário e o que deveria ser apenas um filme de bang bang acaba se transformando num dos mais instigantes filmes políticos jamais realizado. Uma crítica e uma ode aos heróis revolucionários, ao povo e a burguesia, aos traídos e traidores, torturados e torturadores.

James Coburn está sensacional como um refugiado irlandês, especializado em explosões com dinamite, que se vê no meio da revolução mexicana, trabalhando para os revolucionários e para um assaltante de diligências. Um homem com um passado nebuloso onde há uma guerra sangrenta, um amigo que o delatou e uma mulher que eles compartilham. E é esse passado nebuloso que o faz mergulhar cada vez mais numa revolução que não lhe diz respeito. E cada vez que esse passado vem à tona, o filme nos mostra cenas belíssimas, sublinhadas com a música dilacerante de Morricone. Tudo narrado como uma ópera, trágica como a vida, mas de uma beleza retumbante.


O FAROESTE DE SERGIO LEONE:

1 - Por um punhado de dólares
2 - Por uns dólares a mais
3 - O bom, o mau e o feio
4 - Era uma vez no oeste
5 - Quando explode a vingança