28.9.07




Lembre-se de que um pontapé na bunda é sempre um passo pra frente.

A VERDADEIRA TROPA DE ELITE O Exército brasileiro, tão injustiçado, incompreendido e desvalorizado nos dias que correm, acaba de receber uma bela homenagem do cinema brasileiro. Trata-se do filme PQD, um documentário sobre jovens soldados do Grupamento de Pára-quedistas do Exército. Um filme divertido e comovente que revela um belo e original retrato do povo brasileiro. PQD, sigla da palavra pára-quedista, é uma jóia rara. Uma obra-prima. Um filme mágico, que merece figurar entre os melhores documentários do cinema brasileiro.



O filme

PQD acompanha, durante um ano e meio, o cotidiano de jovens que entram para o Exército na esperança de serem admitidos como pára-quedistas. O filme retrata a convivência dos jovens no quartel, os sonhos de cada um, os exercícios físicos, as crises, os momentos de alegria, as decepções e as vitórias. Ao mesmo tempo os soldados são filmados na sua vida privada: a casa, a família, a namorada. E, ao fazer isso, o filme exibe um inusitado painel do povo brasileiro, exatamente a camada mais pobre da população. O bacana é que PQD não os mostra como coitadinhos, sem perspectivas, abandonados pelo sistema como faz a maioria dos nossos filmes. PQD retrata pessoas pobres, de origem humilde, mas que sabem muito bem o que querem. Têm desejos, ambições e estão dispostos a batalhar por isso de forma honesta. E esse aspecto é que torna PQD um filme interessante e digno de nota.

PQD se detém mais profundamente na história de oito soldados. Eles mesmos contam suas histórias de vida, às vezes ao lado dos familiares, às vezes sozinhos. Tem o caso do soldado Leandro, um rapaz lindo, que é criado pela avó. A mulher conta que o pai do soldado estava se preparando para ser padre, quando uma garota muito assanhada invadiu seu quarto e o seduziu. “Ele queria ser padre, mas também era homem. Deu apenas uma e engravidou a moça”, diz a mulher, arrancando risadas do público. A garota engravidou e a mãe do seminarista pegou o rapaz para criar, enquanto o pai dele seguiu o sacerdócio. “Eu sou avó e mãe dele”, diz a mulher com doçura, recebendo o carinho do neto-filho, na humilde sala de sua casa.

Noutra seqüência muito bacana um soldado aparece chegando em casa, depois de uma semana de treinamentos. A câmera mostra a rua esburacada, a casa simples que ainda está sendo construída, os poucos móveis. No entanto, há uma dignidade naquele ambiente. Isso fica mais claro quando chega a mãe dele e a câmera flagra o encontro entre os dois. O orgulho dela ao ver o filho militar e a felicidade dele por estar fazendo a mãe feliz. Depois a mulher fala do filho e diz que foi por causa dele que ela largou a bebida e a prostituição. Que desde garoto ele dava conselhos para ela, dizendo que a vida deles ia melhorar. E que agora ela via que estava melhorando. É impossível conter as lágrimas nesse momento.

Há também o caso do soldado Jhoseph Ferreira. O nome dele se escreve assim mesmo: Jhoseph. Um rapaz lindo. Uma coisa deslumbrante. Um galã do subúrbio que parece ter saído de um filme do Visconti. É o Alain Delon da Baixada. Seu semblante tem uma aura de ternura, de bondade. Ao mesmo tempo sua expressão denota firmeza, masculinidade. Eu seria capaz de escrever um blog inteiro só falando do charme irresistível do soldado Jhoseph. Poucas vezes o cinema brasileiro teve um galã com o carisma e o charme viril desse pára-quedista do nosso Exército. Quando surge na tela ele é puro cinema. É sonho, fantasia e desejo.

No filme Jhoseph é o soldado que dá certo. As cenas em que aparece em casa, ao lado do pai, são muito engraçadas. Ele é o sujeito que batalha pelo seu sonho, participa dos treinamentos, dá um duro danado, mas consegue vencer. São muito bonitas as sequências em que eles dão os primeiros saltos de pára-quedas gritando mamãe. No final do filme o belo Jhoseph aparece como um vencedor, recebendo uma nova turma de soldados. E isso é que é interessante. O filme acompanha a trajetória de todos os soldados. Alguns, por razões diversas, são dispensados pelo Exército ao final de um ano e meio. Um deles, que não teve muita sorte, dá um depoimento emocionado: “Eu nunca vou esquecer tudo o que eu vivi no quartel. Eu posso até ter deixado de ser soldado, mas eu nunca vou deixar de ser um PQD”.

Lágrimas, lágrimas, lágrimas...




A noite de estréia

Os soldados do Grupamento de Paraquedista foram a grande atração da festa de lançamento do filme PQD no Festival do Rio. Os astros do filme compareceram ao Cine Odeon au grand complet, ou seja, fardados. Os soldados Jhoseph Ferreira e Tiago Santana, os galãs do batalhão, estavam arrasadores com suas fardas de gala. Wagner Moura? Marcelo Anthony? Fabio Assunção? Esqueçam essa gente. Eles não significam nada diante da beleza expressionista e do talento natural dos soldados Jhoseph Ferreira e Tiago Santana. Se vivos, Visconti e Pasolini me dariam razão...

O público que lotou o Cine Odeon foi recebido pela Banda do 25. Batalhão de Infantaria que tocava desde temas militares, canções como Lili Marlene, até o tema do seriado Bonanza. Aqueles jovens soldados, rapazes simples do subúrbio, nunca vão esquecer essa noite. A noite em que eles foram os astros. Os artistas de cinema. As figuras mais importantes. Os protagonistas. Afinal os flashes dos fotógrafos eram apenas para eles. Havia uma fila enorme de espectadores ansiosos para vê-los na tela. E os curiosos da turma do gargarejo, atrás das grades que formavam o cercadinho em frente ao Odeon, sem entender a presença de tantos militares por ali. Alguns soldados foram acompanhados da mãe, do pai, ou da namorada, que não conseguiam disfarçar o orgulho. Dentro da sala escura a emoção foi grande. Afinal, o público vibrou o tempo inteiro com o filme. Sorriu e deu gargalhada quando os rapazes se fizeram comediantes. E se comoveu quando o filme os flagrou sentimentais, vivendo a vida de peito aberto.

PQD, dirigido por Guilherme Coelho, com roteiro de Nathaniel Leclery, estréia nos cinemas dia 23 de Novembro. E para provar que os pára-quedistas estão mesmo na ordem do dia, na próxima semana será exibido, também no Festival do Rio, Brigada Pára-Quedista, do cineasta Evaldo Morcazel, um outro documentário sobre os pára-quedistas militares. Pois é. Parece que o cinema brasileiro está redescobrindo o Exército.

Viva Caxias!

26.9.07




A adversidade é um trampolim para a maturidade.


FESTIVAL DO RIO Duas cantoras têm suas vidas contadas em filmes exibidos no Festival do Rio. Edith Piaf, a diva da canção francesa, emociona o público com sua vida trágica e com o poder de sua voz. Dulce Veiga, personagem fictício criado pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, ganha vida no imaginoso filme de Guilherme de Almeida Prado. O filme sobre Piaf é uma obra-prima do cinema francês. O filme sobre Dulce Veiga uma jóia rara do cinema brasileiro.




PIAF – UM HINO AO AMOR – O diretor Olivier Dahan transformou a vida e a arte de Edith Piaf num filme encantador. Através de um roteiro correto e uma direção eficiente o público assiste hipnotizado as reviravoltas da curta e sofrida vida da artista. Entretanto, o eixo central do filme, o que o diretor achou mais importante ressaltar, foi o quanto visceral o canto significava para aquela mulher. A voz, a música, o jeito de cantar era algo como a sua respiração. Sem aquilo ela não conseguiria viver mais do que alguns segundos.


O filme começa com Piaf já célebre e famosa cantando nos Estados Unidos. No meio do show ela desmaia. Enquanto médicos tentam reanimá-la, um flash-back mostra cenas dramáticas da sua infância. O abandono da mãe alcoólatra; o pai, um pobre artista de circo, que a deixa para ser criada num bordel; a doença nos olhos, que quase a deixa cega, e o milagre que faz com que ela volte a enxergar; a primeira vez que cantou em público aos nove anos de idade; a vida boêmia nos subúrbios de Paris durante a adolescência. Esses fatos são entrecortados com cenas da Piaf adulta, sendo descoberta por um empresário que logo é misteriosamente assassinado. Seu envolvimento com drogas e bebidas, assim como sua carência afetiva.


O crítico do New York Times, acostumado com o academicismo do cinema americano, estranhou a narrativa que mistura vários períodos da vida da cantora. Mas, a inventividade do roteiro resulta num filme fascinante e belo como a interpretação de Piaf para a canção Non, je ne regrette rien. Marion Cotillard, a atriz que interpreta a Piaf adulta é uma danadinha. Seu desempenho é algo de muito especial. Ela tem carisma, graça e força dramática. Os números musicais reforçam a magia contida na voz e na música de Piaf e se transformam em deleite para os antigos e novos fãs da artista.



Há muito sofrimento na vida de Piaf. Há muito que chorar acompanhando o desenrolar dos dramas e das reviravoltas da curta vida da cantora. Mas no filme Piaf – Um hino ao amor, o drama que mais toca o coração da platéia é a história do seu romance com Marcel Cerdan, personagem do ator e músico francês Jean-Pierre Martins. Marcel é um homem belíssimo, um lutador de boxe charmoso, encantador. O sonho de toda mulher. Ela se apaixona por ele e o filme, maquiavélico, faz com que a platéia também caia de amores pelo rapaz. No auge do romance Marcel morre num acidente de avião. O modo como o filme conta esse episódio da vida de Piaf é de cortar o coração. É compreensível que nunca mais ela tenha conseguido ser feliz. Ninguém nesse mundo seria capaz de superar a perda de um homem como Marcel. Ninguém...






ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? – Público brasileiro: esqueça o machismo démodé do filme Tropa de Elite. Existe vida inteligente no cinema nacional. Existe um cinema que está mais interessado no talento que no sensacionalismo. E vale registrar: finalmente o cinema brasileiro tem um filme realmente gay. O diretor Guilherme de Almeida Prado foi ovacionado no cinema Leblon pelo público que se deleitou com a sua versão para as telas do romance de Caio Fernando Abreu Onde andará Dulce Veiga?


O romance que deu origem ao livro foi publicado em 1990. Conta a história de um jornalista que busca uma cantora muito famosa no passado, mas que abandonou a carreira no auge do sucesso e sumiu sem deixar rastros. A Dulce Veiga do titulo é uma personagem inspirada na atriz Odete Lara que abandonou a carreira ainda no auge e foi viver num sítio numa cidade do interior, longe de tudo e de todos. O romance, uma jóia da literatura brasileira, tem um clima de filme noir e parece ter sido escrito na esperança de ser filmado.


Guilherme de Almeida Prado sempre teve o filme noir como inspiração para os seus filmes. Não é por acaso que o mais famoso de seus títulos chama-se A dama do cine Shangai, uma quase paródia de A dama do Shangai, clássico do cinema americano dirigido por Orson Welles. Sendo assim o livro de Caio Fernando se tornou um prato cheio para a o talento e a imaginação desse que é um dos grandes cineastas brasileiros.


Um escritor em crise existencial, depois de conseguir emprego como repórter de um jornal, resolve fazer uma reportagem sobre a desaparecida cantora Dulce Veiga que, no passado, tinha sido amante do dono do jornal. Ele não sabe que, ao tentar descobrir o paradeiro da artista, terá que mergulhar num mundo sombrio, cheio de verdades e mentiras, personagens dúbios e tragédias pessoais. E que, ao buscar o paradeiro de Dulce Veiga, ele está à procura de si mesmo e da razão da sua própria existência.


A história se passa em meados dos anos 80 e a ditadura militar ainda é uma sombra muito forte na vida dos personagens. É nesse contexto que ele encontra o personagem de Carolina Dieckman, a filha lésbica e drogada que Dulce Veiga abandonou quando criança, e que hoje se inspira na mãe cantando numa banda de rock que tem o imaginoso nome de Vaginas Dentadas. Vale lembrar que Dulce Veiga, magistralmente interpretada por Maitê Proença, é uma cantora de bossa-nova. Em várias sequências Maitê aparece cantando (dublada) Meditação, canção fetiche da bossa-nova, sucesso de Tom Jobim e Newton Mendonça.


Outro personagem importante na vida de Dulce Veiga é o diretor de teatro homossexual interpretado por Oscar Magrini. Logo na primeira cena em que aparece ele está deitado na cama ao lado de um bofe de tirar o fôlego. Enquanto o diretor fala ao telefone com o jornalista que quer entrevistá-lo sobre a cantora com quem fora casado no passado, o bofe se levanta da cama e a câmera dá um close fenomenal na sua rôla. Quem gosta de ver pau não pode deixar de assistir a essa película. Noutra seqüência magistral Oscar Magrini, muito afetado, está dirigindo uma peça revolucionária, onde dois rapazes nus recriam a Pietá. Para deleite do público, o filme não economiza closes no corpo dos marmanjos. Valei-me Almodovar!


Mas o babado não para por aí. Quando era casado com Dulce Veiga, o personagem de Oscar Magrini viveu um triângulo amoroso com um guerrilheiro que foi preso e torturado pela ditadura. Com o sumiço da cantora, o guerrilheiro, grande atuação de Carmo Dalla Vechia, pira, enlouquece, e assume a personalidade da cantora enquanto se injeta com fartas doses de heroínas. O filme tem muita droga. A roqueira lésbica cheira o tempo inteiro. A bicha guerrilheira, meio travesti, toma muito pico na veia. É uma loucura! Os personagens submergem no fundo do poço. Mas voltam à tona para um glorioso final feliz.


O roteiro inteligente possui diálogos criativos. Além disso, Almeida Prado caprichou na direção e recheou seu filme com cenas idílicas, quase surreais, que dão charme e sabor ao que se vê na tela. Exemplo: Numa seqüência em que o jornalista está em crise, a personagem chega na janela do seu apartamento e a paisagem vai mudando rapidamente; noutro momento ele vê no edifício ao lado, uma academia onde alguns rapazes fazem musculação e dois deles dançam um tango de modo provocante e sensual; em determinado momento Dulce Veiga surge, como uma miragem, cantando na areia da praia de Copacabana, ao lado de um pianista. Na seqüência final os personagens se encontram cantando na chuva. Sem falar nas magníficas sequências em preto-e-branco que lembram cenas de velhos filmes americanos.


Onde andará Dulce Veiga? é gostoso de assistir e surpreende a platéia com criatividade e cenas bem dirigidas. É um filme que demonstra uma compreensão muito particular do que seja cinema, ao deixar bem claro que o conceito de arte deve ser priorizado ante o conceito de indústria.





Meditação (Tom Jobim & Newton Mendonça))
Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Entao sonhou, sonhou...
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais

Quem, no coraçao
Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder
E, na solidao
Procurou um caminho e seguiu,
Já descrente de um dia feliz

Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Então tudo encontrou
E a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou


BABADO FORTE – O presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad causou polêmica na ONU ao afirmar que não existem homossexuais no Irã. Well... Acho que vou me mudar para lá. O fato é que o assunto gerou muita discussão. O psicanalista Paulo Próspero, inspirado em Sigmund Freud, até escreveu um texto sobre o assunto que esse blog reproduz a seguir.
O Armadinejad acabou de dizer que não há homossexulaismo no Irã. Certamente a declaração caiu como uma bomba, já que a atômica ainda não está pronta e outra ele não a tem. Na melhor das hipóteses dirão que é homofóbico, mentiroso, idiota, nazi, sei lá mais o que...
Agora vamos pensar juntos, já que o Brecht dizia que pensar pode ser a maior diversão do ser humano. É claro que "abestado" o homem não é, e sabe muito bem que há milhões de pessoas do mesmo sexo que lá, como cá, têm o habito e o gosto (ou gozo) de relarem entre si, sendo bem provável que, como tantos, um dia ele já o tenha feito. Brincadeirinha que talvez para os de lá (ou quiçá só para ele), seja tão inocentezinha que não precisa vir pejada com esta qualificação "médica" e recente na história. Foi só a partir do século 19 que surgiu o conceito de homossexulaismo. Talvez seja o Irã a terra do Marlboro, a terra do vale tudo, onde nada é nomeado. Estaria então o Irã atrás do filão do turismo gay, do pink-dollar? Vamos ficar de olho no tal do Armadinejad! Como já se dizia nessas plagas, desde os tempos da finada UDN, "o preço da liberdade é a eterna vigilância".
Lembro-me que também Lula nos tempos de antanho disse mais ou menos o mesmo quando declarou que homossexualismo seria uma atividade burguesa e que, portanto isto não ocorria entre metalúrgicos. Já o Comandante Fidel, adepto de outra linha, não só acreditava que lá existia o tal do homossexualismo, como criminalizava, prendia e perseguia. Menos ao seu irmão e a curriola de amiguinhos íntimos. Melhorzinho um pouco que Hitler que também matava.
Peçamos então melhores esclarecimentos a ambos: Lula e a Armadinejad. Como psicanalista estou bastante interessado nesta questão. Talvez possam nos ajudar em nossas investigações teóricas, ou práticas, para quem assim o desejar.
(Paulo Próspero)

21.9.07




A liberdade é o oxigênio da alma.

CINEMA É A MAIOR DIVERSÃO – O Festival do Rio de 2007 mal começou e já tem uma obra-prima incontestável. Trata-se do filme 20,13 – Purgatório, do cineasta português Joaquim Leitão. A produção reúne com harmonia os elementos que fazem de um filme uma obra de arte: bom roteiro, direção segura, bela fotografia e um elenco de grandes atores. 20,13 – Purgatório traz consigo a aura do talento português para as artes. Há algo de Fernando Pessoa no sentimento dos personagens. Há algo do fado nas lindas canções que dão clima a história. Há algo de Camões, de Eugênio de Andrade e de Eça de Queiroz nos diálogos passionais e nas tramas do roteiro. Há algo de Cristiano Ronaldo na beleza dos atores. E, mais que tudo, há algo do grande cinema europeu dos anos 70 na direção de Joaquim Leitão.


O universo retratado pelo filme é algo de fascinante: o exército de Portugal. Num quartel localizado numa zona de conflito em Moçambique é retratado o cotidiano dos soldados portugueses, prestes a serem atacados por gerrilheiros. A tensão com a presença dos inimigos à espreita é que norteia as relações entre homens viris acuados pela guerra. Entre um tiroteio aqui e uma guerrilha acolá, os militares lusos convivem intensamente com sentimentos díspares como admiração, despeito, desconfiança, medo, covardia, coragem, inveja, paixão e desejo.


O número 20,13, que aparece no título, é uma referência bíblica. Levítico 20, versículo 13 é aquela famosa citação bíblica que diz:

Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.


O filme começa com a prisão de um guerrilheiro inimigo. O Alferes Gaio - um oficial bonitão, cheio de principios éticos e morais - entra em conflito com seu superior hierárquico sobre o modo como o prisioneiro deve ser tratado. O superior, o Capitão, que alguns soldados fazem questão de chamar de meu Capitão, é um homem fechado no seu modo de entender a vida militar e a guerra. Ele é a favor que o prisioneiro seja torturado a fim de revelar os planos do inimigo. O Alferes Gaio discorda argumentando que eles não são criminosos covardes e sim soldados. Essa divergência entre os militares cria uma tensão que é valorizada pelo talento dos atores.


A maior parte da história ocorre na véspera de natal que, não por acaso, é o dia 24 de dezembro. E o número 24 do calendário aparece bem marcado numa das cenas. Por uma concessão especial do exército, a mulher do Capitão vai passar o natal com ele no quartel. Surpreso com a presença da esposa, o Capitão a trata friamente. A presença dela o desagrada e ele a deixa isolada no alojamento. Ao remexer em objetos pessoais do Capitão a mulher encontra uma foto do marido abraçado com outro soldado. Atrás da foto uma única palavra: Forever.


Confiantes de que naquela noite haverá a tradicional trégua natalina os militares promovem uma festa de confraternização. Durante a comemoração a mulher identifica Vicente, o soldado que estava abraçado com seu marido na foto. A tensão entre ela e o Capitão aumenta, mas, antes que possa haver qualquer coisa, uma bomba explode. Os guerrilheiros desrespeitam a trégua de natal e atacam o quartel. Os soldados saem da festa direto para o campo de batalha. Tiros, explosões, bombardeios. A noite promete ser longa. Quando os inimigos dão uma trégua no bombardeio e os soldados vão checar as baixas, encontram Vicente, o namorado do Capitão, baleado dentro de um alojamento. O Alferes Gaio logo observa que o lugar não foi atingido pelo tiroteio e chega a conclusão que o soldado foi assassinado por alguém do próprio quartel.


A tensão aumenta no quartel e o filme se transforma numa história policial. Quem teria matado Vicente enquanto o quartel era atacado pelos guerrilheiros? Aproveitando a trégua da batalha o Alferes Gaio investiga o crime. Ao fazer buscas no armário da vítima encontra uma foto do Capitão. É a mesma foto encontrada pela mulher, só que está rasgada ao meio. A outra metade, em que aparece apenas o soldado Vicente, foi deixada pelo assassino em cima da mesa do Capitão. Um novo bombardeio dos guerrilheiros provoca pânico no quartel. Sentindo-se acuado pela descoberta do seu segredo e achando que sua mulher foi a autora do crime contra o seu amante, o Capitão se lança numa operação suicida contra os inimigos. Deixa uma carta reveladora para o Alferes e, munido com um lança-bombas invade o campo do inimigo atirando sem parar. Antes de ser morto acaba salvando a vida de todos os seus soldados.


Quando o Comandante do Exército de Portugal chega ao quartel no dia seguinte para fazer um levantamento dos mortos e feridos é informado pelo Alferes Gaio dos acontecimentos que envolveram o Capitão e o seu amante. Diante de todas as evidências a ele expostas o Comandante contesta o Alferes. “Não existem maricas no Exército”. Diante da insistência do Alferes de que a verdade deve ser apurada o Camandante retruca. “Você quer que o Capitão seja lembrado como um maricas? Ele foi um herói que salvou a vida de todos vocês. Essa é que é a verdade.”


Essa história fascinante é contada com lirismo, poesia, densidade dramática e muito talento. Os diálogos, falados com o saboroso sotaque português, são primorosos. Marco D´Almeida, Adriano Carvalho, Ivo Canelas, Nuno Nunes, Pedro Varela e Angélico Vieira, os atores principais, são lindos, másculos e viris, o que contibui para alavancar a tensão sexual dos personagens, homens cujos valores masculinos são colocados à prova pela crueza da guerra. 20,13 - Purgatório estreou em dezembro do ano passado em Portugal e Moçambique. Agora o diretor espera lançar o filme no Brasil e conquistar o público com sua comovente história.


12.9.07




Só os que tem segurança de si mesmos conseguem ser modestos.


100 ANOS DE DONA CANÔ – A mãe de Caetano e Bethânia completa 100 anos em setembro. Sábado a Bahia vai parar na comemoração da data. Taí uma boa razão para o Brasil também parar: comemorar o centenário dessa grande brasileira. A existência de dona Canô é algo que dignifica o Brasil. É bom poder pensar nisso quando a gente sente vontade de jogar uma bomba atômica em Brasília. De sua casa, numa cidade que tem o singelo nome de Santo Amaro da Purificação essa senhora, através de seus filhos, revolucionou a cultura brasileira. Em comemoração ao centenário de Dona Canô a revista TRIP publica uma entrevista com a matriarca da família Veloso. Um texto primoroso de Renata Leão resume os cem anos e nos faz entender onde a sua personalidade influenciou o pendor artístico de seus filhos. Clique AQUI e leia a entrevista.






JÚNIOR MAGAZINE – Uma entrevista com o ator Cláudio Heinrich é uma das atrações da revista Júnior, publicação voltada para o público GLS que está chegando as bancas esta semana. Heinrich fala sobre Danilinho, seu personagem na novela Caminhos do Coração. Júnior tem a chancela do jornalista André Fischer, criador do site Mix Brasil, o mais influente na comunidade gay. Júnior se propõe a ser uma revista gay família. Ou seja, nada de fotos de nus. Júnior quer ser um magazine que possa ser lido no ônibus ou ser oferecido na sala de espera dos dentistas sem provocar constrangimento aos heteros. A idéia é que a publicação seja para os gays o que a revista Nova é para as mulheres. Veja o site da revista clicando AQUI






A DITADURA DOS PARTIDOS – Com a absolvição de Renan Calheiros ficou claro que o Brasil está precisando urgentemente de uma nova revolução. Os políticos não representam a vontade da população e sentem orgulho disso. Os desejos do eleitor são ignorados ostensivamente. Com o que se tem visto na política brasileira, ninguém pode afirmar que aqui existe democracia. O que temos é uma ditadura dos partidos, que governa o país de acordo com seus próprios interesses mafiosos. Aos brasileiros resta apenas a obrigação de pagar a conta, através de impostos cada vez maiores. É bizarro que o próprio governo federal tenha participado dos conchavos para absolver o presidente do Senado. Lula é uma mentira! No recente congresso do PT o sujeito teve a petulância de defender os mensaleiros do seu partido que tinham acabado de serem indiciados pelo Supremo Tribunal Federal. Agora participa de um complô contra o eleitor, ao trabalhar pela permanência de um gangster na presidência do Senado. Que tipo de homem é o Presidente da República? Um Al Capone revisitado? Whaal! Está na hora de aparecer um Elliot Ness no Brasil.

Revolução Já!





E A VIDA VAI – O mais interessante no filme Bubble é a exibição do cotidiano e do estilo de vida dos jovens em Tel Aviv. Eles fumam maconha, tem ídolos como George Michal, Robbie Williams, Take That e Morrissey, tomam êcstase nas raves, curtem a vida, amam, se apaixonam, fazem sexo com prazer e, ao mesmo tempo, vivem bem perto da extrema violência. A vida deles é igual a vida de quem mora no Rio. Os judeus de Tel Aviv têm um cotidiano bem parecido com o cotidiano do carioca que vive em Ipanema, por exemplo. Observando a vida daqueles personagens que moram tão longe dá para perceber que eles são idênticos aos cariocas que vão à praia no Posto Nove, dançam na Bunker e frequentam shows nas casas noturnas da Lapa. São as mesmas pessoas, com as mesmas alegrias e tristezas, vivendo os mesmos momentos de vida equilibrados entre o terror e êxtase.


Quando eu estive em Paris, durante as comemorações do Ano do Brasil na França eu conheci uma mulher muito chique, que trabalhava no Itamaraty, e que gostava muito de Paris. Ela falava muito bem da cidade e de seus atrativos. Era uma mulher que conhecia muitas cidades, pois fazia parte do seu trabalho viajar, antecipadamente, para os lugares que são visitados pelo Presidente da República. Certa vez ela me disse que só existia no mundo uma cidade mais bacana que Paris: Tel Aviv! Tel Aviv? Perguntei. E ela me falou com tanto entusiasmo de Tel Aviv que eu acabei ficando com vontade de conhecer a cidade. Depois de ter assistido Bubble essa vontade só aumentou. Os personagens do filme são tão parecidos com meus amigos, meus vizinhos, meus colegas, minha turma de praia que fiquei com a impressão que vou me sentir em Ipanema quando conhecer esse lugar.



4.9.07




O melhor livro de moral é a nossa consciência. Temos que consultá-lo muito freqüentemente.


SALVE SETE DE SETEMBRO - Algumas pessoas aguardam ansiosamente a chegada do carnaval para assistirem aos desfiles das escolas de samba. Pois eu aguardo ansiosamente a chegada do sete de setembro para poder assistir a parada militar da independência. Para mim o desfile das Forças Armadas é que é o maior espetáculo da terra. Prefiro a harmonia melódica das marchas militares, ao baticum do samba enredo. Prefiro a Banda de Fuzileiros Navais à bateria da Mangueira. Prefiro a elegância dos rapazes fardados, às mulheres seminuas. Prefiro a evolução disciplinada dos soldados, aos gingados das cabrochas ao som dos tamborins.


Tenho um prazer infantil em assistir a parada de sete de setembro. É um programa que remete a minha infância, quando eu ia assistir ao desfile levado pelas minhas tias. Elas gostavam de ir ao desfile flertar com os militares e levavam a mim e a meus irmãos para disfarçar. E, mesmo criança, eu adorava aquilo tudo e já achava os militares lindos. Menino ainda eu ficava emocionado quando a banda dos fuzileiros atravessava a avenida tocando O Cisne Branco, o hino da Marinha. A música me impressionava pela beleza. E também pela tristeza existente nos acordes e na letra pungente. Sempre que escuto o hino da Marinha meus olhos ficam cheios d´água. Sinto uma mistura de melancolia, nostalgia de algo que não vivi e um imenso prazer pela beleza da sonoridade. Sendo assim, no próximo sete de setembro, a minha presença na festa da independência é mais certa do que a presença do Comandante do Exército.


CISNE BRANCO - Hino da Marinha de Guerra do Brasil




Qual cisne branco que em noite de lua
Vai deslizando no lago azul
O meu navio também flutua
Nos verdes mares de norte a sul

Linda galera que em noite apagada
Vai navegando no mar imenso
Nos traz saudades da terra amada
Da Pátria minha em que tanto penso

Quanta alegria nos traz a volta
À nossa pátria do coração
Estava cumprida a nossa derrota
Temos cumprido nossa missão

Linda galera que em noite apagada
Vai navegando no mar imenso
Nos traz saudades da terra amada
Da Pátria minha em que tanto penso

Qual linda garça
Que aí vai cruzando os ares
Vai navegando sob um belo céu de anil
Minha galera também vai cortando os mares
Os verdes mares, os mares verdes do Brasil

Quanta alegria nos traz a volta
À nossa pátria do coração
Estava cumprida a nossa derrota
Temos cumprido nossa missão

Linda galera que em noite apagada
Vai navegando no mar imenso
Nos traz saudades da terra amada
Da Pátria minha em que tanto penso.


COMO SÃO LINDOS OS MILITARES – Semana passada as Forças Armadas do Brasil foram alvo de uma provocação desnecessária por parte do governo, quando do lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade - Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, um balanço sobre o trabalho da Comissão de Direitos Humanos com um relatório sobre as cerca de 400 pessoas que foram vitimas da violência durante a ditadura militar. Nelson Jobim, o Ministro da Defesa, num tom arrogante e antipático, disse que os militares não vão poder reagir ao livro lançado pelo governo. E, em caso de reação, haverá resposta. Whaaal! Esse mesmo tom arrogante do Jobim já foi ouvido, em outras ocasiões, em declarações de José Dirceu e Renan Calheiros. Hoje, ambos estão encrencados em CPI´s. Será que o mesmo vai acontecer com o titular da Defesa?


É importante registrar que, enquanto o Governo Federal lançava o livro sobre as vítimas da ditadura, lá mesmo em Brasília, José Dirceu e José Genoíno, que sobreviveram à ditadura, estavam sendo julgadas por crimes contra o patrimônio público no Brasil. Roubo e corrupção. Ao mesmo tempo, o jornal O Globo publicava uma série de reportagens sobre brasileiros de hoje em dia vivendo dramas idênticos, senão maiores, que aqueles vividos pelos mortos e desaparecidos durante o regime militar. Tudo está interligado e nada acontece por acaso.


É importante a existência desse levantamento sobre mortos e desaprecidos durante a ditadura. Mas não tem cabimento transformar esse relatório num manifesto contra as Forças Armadas. As Forças Armadas não têm culpa se, num determinado período da história, pessoas despreparadas se apropriaram da Instituição para praticar atos covardes e criminosos. Era uma outra época. Eram outras pessoas. É preciso, nesse caso, separar as pessoas das Instituições. Hoje os tempos são outros. São outras pessoas que estão no comando. É o Presidente Lula o comandante das Forças Armadas. Mas parece que o próprio Lula esquece isso.


O fato é que existem, dentro do próprio governo, setores que estão empenhados em desautorizar os militares. São os gigolôs da ditadura. Grupos que, se arvorando vítimas do regime militar, realizam uma campanha maldosa e organizada para desqualificar o Exército, a Marinha e a Aeronáutica visando angariar vantagens em setores que, para o bem do Brasil, sempre estiveram sobre o controle das Forças Armadas. E isso não é de hoje. Começou no governo Fernando Henrique. Desde os anos FHC que existe uma campanha surda e sórdida, organizada por partidos políticos, para deixar os militares fracos, desprestigiados e sem direito à opinião. O governo Lula está apenas dando continuidade a um processo que começou no governo anterior.


Senão vejamos: a Marinha está sendo pressionada pela desnecessára Secretaria Especial de Políticas de Promoção e Igualdade Social, para abrir mão do controle sobre a Restinga da Marambaia, importante reserva ecológica do Rio; a Aeronáutica tem sido induzida a desistir de ser a controladora do espaço aéreo nacional; o Exército, apesar da guerra civil que ocorre em algumas regiões do Brasil, está proibido de se envolver em questões ligadas a Segurança Pública. São três exemplos gritantes de como o próprio governo trata suas Forças Armadas como orgãos do segundo escalão.


Os partidos políticos querem os militares fora da jogada. A elite política quer os militares cada vez mais fracos, pois assim eles se sentem mais livres para tomar de assalto o Estado brasileiro. A verdade é que o Brasil saiu da ditadura militar para cair nos braços da ditadura dos partidos políticos. Uma ditadura que já foi capitaneada pelo PSDB e hoje é comandada pelo PT. Os grupos políticos que governam o Brasil pós-ditadura não têm nada de democráticos. Eles querem ser os donos da ditadura.


É por isso que merece uma reflexão a publicação pelo governo do livro Direito à Memória e a Verdade. São muito tristes as histórias narradas no relatório. Mas, tudo o que acontecia naquela época sob a guarda do governo militar acontece hoje em dia, em muito maior escala, sob a guarda do governo civil. Assim como a alta hierarquia do governo militar ignorava os excessos e a tortura daqueles tempos, o governo Lula ignora os excessos e a tortura que acontecem no Brasil de hoje. Alguém se lembra que no reveillon desse ano um grupo de pessoas foi queimada viva dentro de um ônibus no Rio de Janeiro? A diferença é que na época da ditadura eram os (maus) militares quem faziam o serviço sujo. A ditadura dos partidos, que é muito mais profissional, terceirizou os excessos e a tortura e delegou o poder de realizar o serviço sujo para grupos criminosos.

Certamente o governo Lula acredita que as vítimas da ditadura militar são mais dignas do que as vítimas da ditadura dos partidos políticos.

Uma outra reflexão que se deve fazer no momento em que o governo publica o livro Direito à Memória e a Verdade é que, enquanto era realizada a cerimônia de lançamento, José Dirceu e José Genoíno, homens de confiança do presidente, estavam sendo enquadrados pelo STF por diversos crimes. E isso dá o que pensar. Se os mortos e desaparecidos listados no livro tivessem sobrevivido será que não estariam hoje envolvidos com o mensalão ou outros escândalos de corrupção? Afinal, Dirceu e Genoíno escaparam por pouco de serem personagens do livro.


O fato é o seguinte: Dirceu e Genoíno foram perseguidos pela ditadura, porque os militares acreditavam que eles eram um perigo para o Brasil. Quando chegaram ao poder, a reboque do presidente Lula, Dirceu e Genoíno deram razão aos militares e comprovaram que eles eram, realmente, um perigo para o nosso país. Ao serem enquadrados pelo STF Dirceu e Genoíno só fizeram confirmar ao povo brasileiro que os militares tinham toda razão em perseguí-los.

Champanhe, champanhe, champanhe...