25.6.09




A fidelidade é uma virtude que enobrece a própria servidão.
A VIDA COMO ELA É – Um motorista de táxi que circula pela Zona Sul do Rio viveu, semanas atrás, uma experiência digna de uma crônica jornalística. O rapaz dirigia o seu amarelinho pelas ruas de Botafogo quando foi parado por um homem bem vestido, de boa aparência. O sujeito carregava duas malas e pediu para que o motorista colocasse sua bagagem no porta malas do veículo. Prestativo, o motorista atendeu ao pedido do passageiro e colocou a bagagem no porta malas. O homem entrou no banco de trás do veículo e pediu que o motorista o levasse até a Barra da Tijuca. O taxista seguiu dirigindo seu amarelinho em direção a Barra. Estava tudo muito bem até que, num determinado ponto do trajeto, o táxi se deparou com uma blitz policial. Agentes da polícia paravam alguns carros e pediam documentos, usavam bafômetro, etc. e tal. Ao se ver diante da blitz o passageiro, sem dizer uma palavra, abriu a porta do carro e saiu de fininho, sem dizer nem até logo. Surpreso, o taxista viu seu passageiro sumir por entre os carros, através de uma rua perpendicular.


O taxista gelou ao lembrar que o fugitivo havia deixado duas malas dentro do seu carro. Pensou em denunciar o ocorrido a polícia que estava logo à sua frente, mas logo desistiu da idéia quando, através de sinais com a mão, um dos policiais o mandou passar. Afinal, era apenas um táxi vazio, sem passageiro. O taxista seguiu em frente, aliviado por não ter sido parado na blitz, mas curioso para saber o conteúdo das malas que o misterioso passageiro havia deixado no seu carro. Mais adiante, ao se ver numa rua de pouco movimento, parou seu carro, abriu o porta malas e, perplexo, verificou o conteúdo das bagagens. As malas estavam cheias de maconha! Quilos e quilos de maconha haviam sido abandonados dentro do se táxi. O que fazer com tudo aquilo? O trabalhador, cheio de contas para pagar, procurou amigos e vendeu todo o conteúdo da bagagem.


Motoristas de táxi sempre tem histórias curiosas sobre o cotidiano do Rio de Janeiro. Como sou uma pessoa que sabe ouvir, que gosta de ouvir o que os outros tem a dizer, sempre escuto ótimas histórias dos taxistas da cidade. No último verão, um taxista boa praça que sempre me atende, me contou casos deliciosos de suas aventuras pelo trânsito do Rio. Meu táxi driver favorito prefere dirigir à noite, para não ter que se estressar com o caótico trânsito do dia. Além disso, ele diz que à noite pega muitos bêbados, boêmios e doidões. E, segundo ele, esses passageiros dão melhores gorgetas. Certa vez, quando me levava de Ipanema até a Lapa, numa sexta-feira ele me contou um caso incrível.


“Ontem à noite eu fui treze vezes na Ladeira dos Tabajaras”, disse. Para quem não conhece o Rio, a Tabajaras é uma ladeira que vai dar numa favela de Copacabana onde, no verão passado, estava o mais badalado ponto de venda de drogas do Rio de Janeiro. O taxista me contou que, rodando pela Zona Sul do Rio, foi parado treze vezes por pessoas que lhe fizeram o mesmo pedido: Ladeira dos Tabajaras, por favor! Alguns motoristas de táxi não sobem em favelas, mas ele, como é um sujeito bem machão, desses que não tem medo de nada, leva o passageiro para qualquer lugar. Pois bem. Nessa fatídica quinta-feira ele levou treze passageiros até a Ladeira dos Tabajaras. E não eram clientes dele não. Eram passageiros aleatórios, que deram com a mão e pediram para ser levados até a boca. Chegando lá, nem desciam do táxi, compravam o papelote de cocaína pela janela, e depois pediam que o taxista os deixasse no mesmo lugar onde tinham parado o táxi.


Naquele dia ele subiu na Ladeira dos Tabajaras tantas vezes que, na oitava ou nona vez, o traficante armado com um fuzil olhou pra ele, deu uma gargalhada e falou: Tu aqui novamente, taxista? Um dos passageiros que o moço levou até a Ladeira dos Tabajaras foi uma garota de programa. Conversando com ela a passageira contou que estava indo comprar cocaína para o pai. “Meu pai vai fazer setenta anos mês que vem e cheira cocaína todos os dias”, disse a garota, enquanto entregava ao rapaz um cartão com seu telefone.

O Rio de Janeiro continua sendo...

24.6.09



Em educação, não existe distinção de classes.

A VIDA COMO ELA É - Hoje encontrei com uma amiga muito querida numa esquina de Copacabana. “Você já sabe o que aconteceu comigo?” ela me perguntou, já contando seu drama. Sim, um drama. “Minha filha de dezessete anos está grávida!”, disse. É incrível como as adolescentes engravidam durante seus namoricos juvenis. Mesmo aquelas que recebem orientação sexual dos pais. Pois bem! Apesar de toda a orientação e dos cuidados de minha amiga, sua filha engravidou. A questão é que a menina está grávida de trigêmeos!

Trigêmeos!!!

Eu deveria dar parabéns a futura vovó. Mas, na mesma hora em que soube daquela, notícia senti muita pena dela. A mulher não estava preparada nem para um neto e, de repente, vai ser avó de três. Coitada! “Reza por mim”, me pediu ela quando nos despedimos. “Estou pedindo isso a todos os meus amigos. Rezem por mim...”


Eu vou rezar, amiga. Vou rezar...

18.6.09





Nosso caráter é aquilo que fazemos quando achamos que ninguém está olhando.

CALÇADÃOHoje à tarde fui abordado por um grupo de jornalistas japoneses, que estão fazendo uma reportagem sobre a candidatura do Rio de Janeiro a sede das Olimpíadas de 2016. Essa é a segunda vez que sou abordado por jornalistas do Japão para falar sobre o tema. É que Tóquio também é candidata a sede das Olimpíadas. Depois de me posicionar frente a câmera, tendo a beleza da praia do Arpoador como fundo, dei a minha opinião sobre a candidatura do Rio. A repórter, a única que falava português, fez uma cara de espanto com a minha declaração. Pela expressão do seu rosto fiquei achando que o que eu disse era tudo o que ela queria ouvir. Acho que o meu depoimento vai fazer um sucesso com o público japonês.

De óculos escuros by Ethel Moura e camisa de malha verde, com o logotipo do Centro de Lutas Nova Geração, presente do lutador de jiu-jitsu Gustavo Braga, eu disse o seguinte à televisão japonesa:


Sou absolutamente contra o Rio de janeiro sediar as olimpíadas de 2016. Acho um absurdo o tempo e o dinheiro gasto pelas autoridades brasileiras preocupadas com o chamado Rio-2016. Acho que devíamos todos estar preocupados com o Rio-2009. A cidade está cheia de problemas que precisam de resolução urgente. Uma Olimpíada no Rio não vai servir de nada para quem mora na cidade. Cito como exemplo os jogos Panamericanos do Rio. Durante anos, antes do início dos jogos, foi dito a população que a realização dos jogos Panamericanos ia trazer muitos benefícios a cidade. Que o legado dos jogos seria de benefícios. E não foi isso o que aconteceu. Os jogos Panamericanos só serviu para encher o bolso de empreiteiros, atravessadores, políticos e federações esportivas. Para a cidade e a população o Panamericano não trouxe vantagem nenhuma. Esse interesse todo em trazer os jogos olímpicos ao Brasil tem mais a ver com interesses escusos e roubalheira de políticos, do que paixão pelo esporte. Já está de bom tamanho uma Copa do Mundo em 2014. Acho que a Olimpíada de 2016 deveria ser em Tóquio.


16.6.09






Os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha.




A ARTE DA GUERRA SEGUNDO NICOLAU MAQUIAVEL - Publicado em 1521, A Arte da Guerra, é um livro técnico e filosófico de Nicolau Maquiavel sobre a arte de arregimentar e disciplinar um exército para uma batalha defensiva ou um ataque ofensivo. Mais do que isso, Maquiavel busca inspirar e estimular o guerreiro na sua busca pela vitória. A guerra, nesse caso, não significa, necessáriamente, um entrevero entre povos ou nações. Maquiavel parte do princípio que a vida, por si só, já é uma guerra. Sendo assim, ele defende que o cotidiano de cada um seja encarado como um desafio a ser enfrentado por um batalhão militar. Para isso ele listou algumas regras gerais com as quais o guerreiro deve estar perfeitamente identificado. São as seguintes:

- Tudo o que é útil ao inimigo é prejudicial para ti, e, tudo o que é útil a ti prejudica o inimigo.
- Aquele que, na guerra, for mais vigilante a observar as intenções do inimigo e mais empenho puser na preparação do seu exército, menos perigos correrá e mais poderá aspirar à vitória.
- Nunca leves os teus soldados para o campo de batalha sem, previamente, estares seguro do seu ânimo e sem teres a certeza de que não têm medo e estão disciplinados e convictos de que vão vencer.
- É preferível vencer o inimigo pela fome do que pelas armas. A vitória pelas armas depende muito mais da fortuna do que da virtude.
- Nenhuma decisão é melhor do que aquela que permanece em segredo até o momento da sua execução.
- Nada há de maior utilidade na guerra do que saber reconhecer uma oportunidade e não a deixar fugir.
- A natureza produz poucos homens valentes. Em contrapartida, a astúcia e o treino fornecem muitos homens valentes.
- Na guerra, a disciplina vale bem mais do que a exaltação.
- Quando do exército inimigo saem homens para vir para o teu serviço, se forem fiéis tratar-se-á sempre de uma boa aquisição, porque as forças do adversário enfraquecem muito mais com a perda dos que desertam do que com a dos que morrem, ainda que a designação de desertor seja suspeita para os novos amigos e odiosa para os antigos.
- Na organização para uma batalha, é preferível constituir, atrás da primeira frente, uma reserva, que possa prestar auxílio, do que, para tornar a frente maior, dispersar as suas tropas.
- Dificilmente é derrotado aquele que consegue avaliar corretamente as suas forças e as do inimigo.
- Vale mais a virtude dos soldados do que o seu número; algumas vezes, porém, o valor da posição ocupada supera a virtude dos combatentes.
- As coisas inesperadas e repentinas perturbam os exércitos; as coisas habituais e graduais impressionam muito menos; por conseguinte, antes de travar batalha com um inimigo desconhecido, farás o teu exército habituar-se a ele através de pequenas escaramuças.
- Perseguir desordenadamente um inimigo já derrotado é correr o risco de passar de vencedor a vencido.
- Aquele que não prepara devidamente os abastecimentos necessários à vida do exército é derrotado sem o recurso às armas.
- Quem confia mais na cavalaria do que na infantaria, ou mais na infantaria do que na cavalaria, que saiba escolher o terreno em conformidade.
- Quando, durante o dia, quiseres verificar se algum espião se introduziu no acampamento, faz com que cada soldado se recolha ao alojamento.
- Muda o plano de operações quando perceberes que o inimigo foi capaz de o prever.
- Antes de tomares uma decisão, aconselha-te com muitos; quando souberes o que fazer, partilha a decisão com poucos.
- Quando estão aquartelados, os soldados dominam-se com o temor e as punições; depois, quando se conduzem ao combate, com a esperança e as recompensas.
- Os grandes capitães nunca vão para uma batalha senão quando a isso são constrangidos ou quando a oportunidade o impõe.
- Esforça-te para que os teus inimigos não saibam como vais organizar o teu exército para o combate. Seja qual for essa organização, faz com que as primeiras linhas possam ser recolhidas pelas segundas e pelas terceiras.
- Se não queres criar confusão, não atribuas a uma batalha, durante o combate, uma missão diferente daquela que inicialmente lhe estava atribuída.
- Enquanto os incidentes imprevistos com dificuldade se consertam, os esperados com facilidade se resolvem.
- Os homens, o ferro, o dinheiro e o pão constituem o nervo da guerra, mas, destes quatro, os dois primeiros são os mais necessários, porque os homens e o ferro, juntos, encontram o dinheiro e o pão, mas dinheiro e pão, somados, não encontram os homens e o ferro.
- Um rico desarmado é o prêmio do soldado pobre.
- Acostumai os vossos soldados a desprezar o viver delicado e o vestir luxuoso.

14.6.09







A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARISParis, Paris, Paris... Tinha feito planos para voltar a Paris nas minhas próximas férias. Mas, ultimamente, a possibilidade de andar de avião tem me provocado tanto medo e angústia, que acho que vou passar férias num lugar onde eu possa ir de carro. Que pena. Adoro Paris e sinto muita falta da cidade. A última vez que vi Paris a cidade me brindou com um turbilhão de prazeres inesquecíveis. Noitadas, diversão, festas. Mas, o melhor de tudo, foi andar pelas ruas da cidade. Bater pernas no Quartier Latin, olhar as vitrines, as modas, entrar nas galerias de arte, saborear a alma encantadora das ruas.

O voo da Air France que me levou do Rio a Paris foi absolutamente tranqüilo. Quando a aeronave se aproximou do solo francês, lembro que olhei pela janela e pensei: “Que aeronave moderna!” Parecia que o avião estava pousando e não aterrisando, tal a suavidade com que a aeronave tocou o solo francês.


A viagem foi uma maravilha. Quando entrei no avião da Air France e procurei o meu lugar vi que, bem ao lado do meu assento, havia uma pilha de revistas francesas: Photo, Paris Match, Marie Claire, L´Officiel, L´Express... Só isso já me deixou todo animado com a viagem. Os comissários de bordo eram elegantes e educados. Os passageiros do meu voo formavam um grupo simpático. Foi um vôo magnífico, em que tudo funcionou.


O jantar do vôo da Air France é algo de excepcional. Antes de servir a comida os comissários saem distribuindo baguetes entre os passageiros, apenas para abrir o apetite. Depois é servida a comida que, claro, tem aquele toque especial da gastronomia francesa. Antes da viagem eu havia encontrado meu amigo Augusto Stelai, que tinha feito a mesma viagem no mês anterior, e ele me alertou sobre o jantar. “Não come nada antes do vôo que o jantar da Air France é caprichado”, disse Augusto, enquanto me dava umas boas dicas do que fazer em Paris.


Depois do jantar, quando as luzes do avião já estavam apagadas, enquanto a gente sobrevoava o meio do oceano, bem no local onde costuma haver muita concentração de nuvens cúmulos e nimbos, eu levantei para esticar um pouco as pernas. Só então percebi que na área onde os comissários preparam o jantar, havia um buffet disponível para quem ainda estivesse com fome. Uma enorme cesta com pães quentinhos, patês, queijos, brioches e garrafinhas de vinho. Muito vinho. Imediatamente me juntei a um grupo de passageiros que já estava por ali, degustando as maravilhas da gastronomia francesa. Depois outros passageiros se juntaram a nós. E ficamos todos ali, bem descontraídos, cada um falando o que pretendia fazer em Paris, que lugares pretendia visitar, uns dando dicas para os outros. Lá fora nada de nuvens, nem raios, nem tempestades. Apenas um imenso céu belo e pacífico.

Quando enfim, chegamos ao aeroporto Charles de Gaulle, fui recebido por um ofical da alfândega, que me tratou de um modo bem rude. Um homem belíssimo, que devia ter uns 35 anos. O que ele tinha de belo, tinha de rude. Ficou me fazendo um monte de perguntas, talvez pensando que eu fosse um imigrante ilegal, um traficante ou talvez um terrorista internacional com passaporte brasileiro. Ele era tão lindo e tão rude. E eu adoro homens rudes. Num dado momento o bonitão francês percebeu que eu estava adorando o jeito rude como ele me tratava. Então ele foi relaxando, se tornando mais amável e gentil. No final, quando ele devolveu meu passaporte e liberou a minha entrada na França, nós já estávamos conversando de modo bastante civilizado. Num dado momento da entrevista ele me perguntou em que hotel eu ia ficar hospedado. Disse o nome do hotel e, quando eu ia falar o endereço, ele me disse que sabia onde era. “Passa lá no hotel pra gente tomar um café”, disse eu, provocando o bofe. Ele me deu um meio sorriso, respondeu oui, mas nunca apareceu.


Um dos meus esportes favoritos é conquistar bofes!

11.6.09



Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio.


ALAIR REVISITADO - O trabalho do fotógrafo Alair Gomes é fonte de inspiração para algumas das fotos que ilustram esse blog. Já estamos em junho. O primeiro semestre de 2009 passou rápido. E foi na cama que vivi os melhores momentos desse período. Obrigado, Deus! Mas nesse semestre fiquei com medo de andar de avião. E isso me fez procurar entre meus CD´s o disco de Belchior que tem aquela música: Foi por medo de avião... De resto, tenho ouvido o CD do Paulinho Lima que é muito legal. E o último Pet Shop Boys que é tudo de bom.

A melhor festa do semestre foi o aniversário do Copacabana Praia Clube, no Botequim Pavão Azul, na Rua Duvivier. Foram 22 anos de muita alegria comemorados com grande estilo pelos jogadores de futebol de praia. Eu devia ter falado mais dessa festa aqui no blog. Mas às vezes as palavras me faltam. Anjos e Demônios foi o Melhor Filme. Não tenho ido muito ao cinema, nem ao teatro. Hoje sou mais seletivo. Não tenho ânsia de ver tudo, como era antigamente. Prefiro ficar em casa pegando um bofe. Mas Traição, de Harold Pinter foi, sem dúvida, a melhor peça que assisti no semestre. Senti enorme prazer em ver esse espetáculo, que me foi recomendado por duas pessoas. Primeiro meu colega de trabalho Altenir Silva. Depois o ator Didi Valentim me disse que tinha ficado muito bem impressionado com o espetáculo. Fiz bem em ter acatado a sugestão deles.

Gostei muito de ler A construção de um filósofo, do inglês Colin McGinn. Tanto que pretendo ler novamente. O livro conta como foi todo o processo do autor, um estudioso de filosofia, até se tornar um filosofo do século XX. Muito interessante. Quero reler, pois me identifiquei com a história dele. Nunca tinha parado para pensar nisso, mas acho que sou um filósofo.

Li com prazer O Dom, romance do escritor português Jorge Reis-Sá. Para mim é uma delícia ler o português de Portugal. Eu já havia lido um outro livro do gajo, Todos os dias, que até gostei mais. O Dom conta uma história de realismo fantástico, sobre pessoas que ficam presas num Centro Comercial, quando um fenômeno estranho transforma todos os que estão fora daquele lugar em contas. Um breve trecho:

O pânico voltou a instalar-se. As pessoas começaram a descer do segundo andar pelas escadas, a pensar no que poderiam fazer. Um rapaz gordo foi o primeiro a chegar cá a baixo e dizer, tenho de ir procurar a minha irmã, já lhe tentei ligar para o telemóvel mas, como aconteceu com toda a gente, pelos vistos, ela não atende. Ela tinha ido ao café, que é feito dela. meu Deus. A seguir a ele, outras pessoas se chegaram à porta porque se lembraram dos seus. Queriam sair a toda a força para tentar salvar quem não estavano centro comercial.


Morte no mar

Lembro do rapaz que vi morrer na praia.
Os olhos abertos– uma luz tão fria – conchas espantadas que eram.
As mãos nada diziam de
anêmonas e navios.
Eu era um menino e
o azul verde da água.
Alto e belo, o afogado,
um capitão.




Romântico

Amar noutro mundo
que não este.
Poder equilibrar – perfeito –
um prato sobre um alfinete.
Equilibrar um livro, uma casa,
sobre um alfinete.
Outro mundo. Sua maquete:
palavra e cavalete.
Outro: este, mas
em falsete. Sete vezes
mais belo, mil mais leve.
Setecentos o mesmo gesto – amar –
e, no entanto, não se complete.
Um rio que se repetisse,
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo,
em que não se chegasse,
era jamais a morte.




No Rio

Frias as luzes, a praça, o pátio
sob a chuva, podiam ver,
de dentro daquele aquário ao avesso,
em movimento, onde boiavam,
erravam ternuras absurdas,
breve teatro de sombras, gota
a gota luzes verticais caindo,
podiam ver, no interior daquela crônica
de amor – amor? – e desencontro,
que o motorista lia pelo espelho:
espinhos, relâmpagos, respiração.
Estavam perdidos.
Vamos pela praia,
por favor.

(Poemas de Eucanãa Ferraz)





UMA VEZ FLAMENGO - Sou tricolor de coração, mas estou a um passo de virar a casaca e começar a torcer pelo Vasco. De qualquer modo adoro ir ao Maracanã. Fiz essas fotos no dia que levei um grupo de empresários da Islândia ao estádio. Eles queriam de qualquer modo assistir a um jogo do Flamengo. Meu primo, que mora na Islândia, estava acompanhando os empresários que vieram fazer contatos profissionais no Rio de Janeiro. Foi uma tarde bem divertida. O que achei mais engraçado nesse dia foi o fato de os islandeses não terem entendido por que, apesar de termos comprado ingressos com lugares marcados, o funcionário do Maracanã nos disse que podíamos sentar em qualquer lugar que estivesse vazio. "É o brazilian style", expliquei aos gringos.







HELIO GRACIE FOREVER - Adoro os lutadores da família Gracie. No último aniversário do patriarca da família, Hélio Gracie, quando ele fez 95 anos, fiz várias fotos. Seriam fotos históricas. Mas a bateria da minha câmera estava fraca, então as fotos ficaram mais ou menos. Tive melhor sorte na festa de lançamento do livro do Mestre. Ali as fotos ficaram mais bacanas. De qualquer modo foram dois encontros memoráveis. Momentos de homenagear o homem que recriou o jiu-jitsu como uma arte marcial brasileira.




ALAIR REVISITADO - Será Netuno que saiu do mar e veio dar uma olhada na Praia do Arpoador? Não leitores. É apenas um moço da favela do Cantagalo que foi se refrescar nas águas plácidas do mar do Arpoador. Vou sugerir a Ministra Dilma Roussef a lançar o rapaz como muso do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento que está recriando a favela. Os surfistas do morro agora só se referem ao Cantagalo como "Cantagalo Hills", numa alusão a Beverly Hills. Não é um luxo? Mas luxo mesmo é o muso da foto, inspirada em Alair Gomes. É a maior prova que existe um paraíso escondido nas favelas do Rio. Já pensou se a Madonna ver uma coisa dessas? E ele não é o único bonitão da família. O moço tem mais dois irmãos que são ainda mais bonitos que ele.