ELES MERECIAM UM GRAMMY - Gostei muito da vitória do Daft Punk na última edição do Grammy, o grande prêmio da música pop internacional. O disco do Daft Punk é sensacional. Escutei desde o primeiro dia em que foi lançado. Mas acho que o Grammy cometeu uma injustiça esquecendo o album Electric, da dupla Pet Shop Boys. O CD tem a mesma pegada do disco do Daft Punk, mas com aquela personalidade que é uma característica de Neil Tennant e Chris Lowe. A música Thursday é uma das que mais tenho escutado neste verão...
2.2.14
27.1.14
CONTROLE REMOTO – A Rede Globo
anuncia para os próximos meses um remake da novela O Rebu, um clássico
indiscutível da televisão brasileira, escrita pelo dramaturgo Bráulio Pedroso.
Mas acho que a Globo deveria deixar os seus clássicos descansarem em paz. Seria
mais lógico reprisar a versão original. O autor do remake, George Moura,
poderia escrever uma novela original, e não descaracterizar uma obra-prima de
um dos maiores autores da TV brasileira, como aconteceu com a novela Saramandaia,
que deve ter feito o Dias Gomes se revirar em seu túmulo. Acho uma falta de
respeito com os grandes autores. Dias Gomes nunca foi um novelista qualquer.
Era uma espécie de Gabriel Garcia Marques da TV. Mas o remake de Saramandaia o
tratou como se ele fosse um roteirista de Malhação. Agora, depois do desrespeito à
memória do Dias Gomes, a emissora se prepara para violentar a memória de
Bráulio Pedroso, um autor que foi um dos responsáveis pela modernização da
nossa telenovela.
Bráulio Pedroso estreou em Beto
Rockfeller, sem nunca antes ter trabalhado na TV. Como chegou sem os
vícios dos antigos novelistas, acabou escrevendo uma novela revolucionária, que
conquistou ótimos índices de audiência e mudou a história da teleisão. Depois, ainda
na Tupi, escreveu a novela Super Plá, estrelada por Bete Mendes, uma de suas atrizes favoritas. Sua terceira novela, O
Cafona, já foi produzida na Globo. Estrelada por Francisco Cuoco e Marília
Pêra, O Cafona pode muito bem ser definida como “um Beto Rocfeller com produção
global”, já que era, praticamente, uma versão mais refinada e mais bem
produzida de sua primeira novela.
Bráulio Pedroso gostava de
revolucionar. Suas novelas sempre tinham novidades. Fosse no texto, fosse na
narrativa, fosse nas situações que criava. Nas novelas dele sempre havia algo
de original, de surpreendente. E com O Rebu não foi diferente. Era uma trama
policial cujos 112 capítulos aconteciam durante uma festa onde uma pessoa foi
assassinada. A novela abandonava o ritmo da narrativa tradicional do folhetim e exigia uma reflexão do telespectador.
O título O Rebu foi tirado da
coluna do Ibrahim Sued, que, nos anos 70, criou essa expressão para noticiar as
festas citadas na sua badalada coluna social. Quando noticiava as festas dos personagens
de então, Didu e Tereza de Souza Campos, Carmem Mayrink Veiga, Ionita Sales Pinto, Renato e Kiki Carvaglia, Paulo Fernando e
Regina Marcondes Ferraz, e tantos outros, Ibrahim escrevia que “o rebu de
fulano de tal foi um sucesso”. Rebu era apenas uma corruptela da palavra
“rebuliço”, que significa agitação, confusão. Como a novela de Bráulio Pedroso
acontecia durante uma festa da alta sociedade carioca, a expressão soou
perfeita para ser o nome da novela.
(Aliás, todas as novelas do
Bráulio tinham um mesmo princípio: era sempre a história de um homem comum, simplório, um homem do povo
que, por um motivo qualquer, acabava se envolvendo com pessoas da alta
sociedade. Ele era um mestre em escrever sobre ricos e famosos. Assim foi em
Beto Rockfeller, Super Plá, O Cafona, O Bofe e O Pulo do Gato. No caso da
novela O Rebu, o personagem em questão era vivido por Lima Duarte, o personagem
Boneco, um assaltante que entra de penetra na festa, visando assaltar o cofre
da mansão e acaba se envolvendo num crime muito mais cabeludo).
Uma das coisas mais interessantes
dessa novela é a maneira como o autor Bráulio Pedroso chegou à trama principal,
que resulta no crime que movimenta a novela. Bráulio já estava preparando a
sinopse de sua novela, já tinha resolvido que seria uma história policial, que
haveria um crime e que a história ia acontecer durante uma festa. Mas ainda não
sabia quem seria a vítima, quem seria o assassino, nem a motivação do crime.
Estava nesse dilema, quando a atriz Bete Mendes, que viria a ser a protagonista
de sua história, sofreu um grave acidente de automóvel.
Bráulio Pedroso adorava Bete
Mendes. Ele a tinha lançado em sua primeira novela, Beto Rockfeller, onde fazia
o papel de Renata, a namorada suburbana do protagonista. A mocinha passava a
novela inteira sendo enganada pelo anti-herói, que se passava por rico e vivia
seduzindo granfinas da alta sociedade paulista. Bete era linda e doce e sua
personagem cativou o público, não só por sua beleza e carisma, mas principalmente por causa do tema musical que o autor
escolheu para ilustrar suas cenas, a canção francesa F. Comme Femme, de Adamo,
uma música que faz sucesso até hoje. Vale lembrar que Beto Rockfeller, por
decisão do próprio Bráulio, foi a primeira novela da TV brasileira a ter música pop em sua
trilha sonora. E isso foi uma das razões do sucesso da novela. Bráulio levava
seus próprios discos para compor a trilha que tinha músicas como "A Whiter Shade
of Pale", do Procol Harum, "I Started the Joke", com Bee Gees e até "Here, There
and Everywhere", com Beatles.
Mas, voltando a Bete Mendes,
depois do sucesso de Renata, ela continuou na Tupi. Fez Super Plá, a novela
seguinte de Bráulio Pedroso e outras produções da época como Simplesmente Maria
e O meu pé de laranja lima. Foi ainda na Tupi que Bete Mendes conheceu Denis
Carvalho. Os dois se apaixonaram, começaram a namorar e acabaram casando. O casamento foi muito
feliz no início. Mas, ainda casado com a Bete, sem que ela soubesse, Denis
começou a namorar o Marco Nanini. Denis e Nanini se tornaram amantes.
Um belo dia Denis Carvalho, Bete
Mendes e Marco Nanini decidiram viajar, de São Paulo para o Rio, de automóvel.
Tinham compromissos profissionais na cidade. Bete já desconfiava da “amizade”
dos dois atores. E no meio do caminho, conversa vai, conversa vem, ela cobrou
uma posição dos dois sobre o relacionamento deles. Denis e Nanini abriram o
jogo. e contaram para ela que estavam mesmo tendo um caso. Então os três começaram a discutir enquanto viajavam em plena Via Dutra. A discussão evoluiu para uma gritaria e troca de acusações. Num momento de fúria, pelo sentimento de estar sendo traída, Bette Mendes
avançou sobre o volante do automóvel, que era dirigido pelo então marido, aos gritos:
“Suas bichas! Agora vai morrer todo mundo!” Denis ainda tentou segurar a onda,
mas ela estava furiosa e virou bruscamente o volante. Resultado: o automóvel derrapou e capotou várias vezes em plena Via Dutra.
Denis e Nanini tiveram apenas ferimentos leves, mas Bete, que havia provocado o
acidente, ficou gravemente ferida.
“Em sociedade tudo se sabe”,
diria Ibrahim Sued, o colunista social que criou a palavra “rebu”...
Bráulio Pedroso ficou comovido
com o drama da atriz que ele tanto admirava. E quando ela se recuperou do
acidente decidiu convida-la para ser a protagonista de sua novela. Com o
episódio do acidente de Bete Mendes, Bráulio Pedroso não só resolveu a questão
da atriz principal de sua novela. O acidente também concedeu ao autor elementos
fundamentais para a criação da trama
principal da novela: a vítima, o assassino e a motivação para o crime.
Silvia, a personagem que Bráulio
escreveu para Bete em O Rebu, era uma moça da alta sociedade, que vivia um
triângulo amoroso como aquele que a atriz tinha vivido na vida real. Silvia
namorava Cauê, um jovem bonitão de baixa renda, que acaba sendo adotado pelo banqueiro Conrad Mahler, uma bicha velha e poderosa que adorava um bofe. Ciente que o bonitão estava em dificuldades financeiras, ele o convida para morar em sua cinematográfica mansão no Alto da Tijuca. A socialite fica indignada e resolve dar o troco na tal festa. E é esse triângulo
amoroso que conduz toda a história.
Conrad Mahler está dando uma
grande festa para uma princesa italiana. Ao mesmo tempo, disfarçadamente, a
festa também é um pretexto para ele apresentar Cauê a alta sociedade como seu
companheiro. Era assim que se fazia antigamente, quando não havia essa obsessão careta com o casamento gay. Era tudo muito discreto.. Silvia, obviamente,
não foi convidada para a festa. Mas ela vai mesmo assim. “Eu não preciso de convite
para vir numa festa da sociedade carioca”, diz ela, uma espécie de Narcisa Tamborindeguy
mais jovem, mais bonita e menos doida, quando lhe pedem convite na entrada. Sem
ser convidada, ela passa a festa inteira infernizando a vida do namorado Cauê
com ironias, piadinhas, insinuações e venenos. O mesmo ela faz com o anfitrião
Conrad, a “tia velha”, que vai ficando cada vez mais irritado com a moça, até
que, num dado momento, ele perde a paciência, dá uma porrada nela, ela bate com
a cabeça e cai morta dentro da piscina.
O acidente com Bete Mendes também
serviu para definir o visual da personagem. Ela, que sempre teve cabelos caídos
nos ombros, como toda boa mocinha das telenovelas de então, surge em O Rebu com
um cabelo curto. É que, por conta do acidente, ela teve que fazer uma neurocirurgia
e precisou raspar a cabeça. Além dos cabelos curtos, o visual de Silvia, como
figurinos, jóias e maquiagem, foi todo calcado em cima da personagem de Mia
Farrow no filme O Grande Gatsby, que havia feito sucesso dois anos antes nos
cinemas brasileiros, na primeira versão estrelada por Robert Redford. Aliás, a
própria festa da novela, tinha a pretensão de ser como uma das festas
retratadas no filme inspirado no livro de F. S. Fitgerald.
Sensacional! Veja a seguir, cenas da novela o Rebu.
26.1.14
LEONARDO, O GRANDE - Leonardo DiCaprio está magnífico em "O Lobo de Wall Street", o delirante filme de Martin Scorsese. O roteirista Altenir Silva notou que o filme tem algo de "Terra em Transe" na sua narrativa algo carnavalesca. Faz sentido. Scorsese é fã de Glauber Rocha e sua produtora é a responsável pela distribuição do filme de Glauber nos Estados Unidos. Há algo de comum no discurso de ambos os filmes, no tom meio operístico, meio teatral de contar a história. O fato é que Scorsese deixa o espectador atordoado com o ritmo frenético da sua direção. Parece querer fazer com que o público sinta aquela mesma fissura dos personagens drogados que vemos na tela. DiCaprio se entrega totalmente ao personagem. A ponto de, numa determinada cena, aparecer nu, de bruços, com uma vela vermelha atochada no traseiro. Só por esse sacrifício ele já merece ganhar o Oscar para qual foi indicado.
Mas DiCaprio não merece um Oscar apenas pelo filme de Scorcese. Em 2013 ele também nos brindou com uma atuação impecável no comovente "O Grande Gatsby", do australiano Baz Luhman. E o comum entre as duas películas não é apenas a presença do ex namorado de Gisele Bundchen. Em ambos os filmes prevalece uma narrativa delirante e carnavalesca, fazendo a tela quase explodir com interpretações exageradas e sequências de tons operísticos. E DiCaprio está totalmente à vontade em ambas as produções, se entregando de corpo e alma aos desvarios de seus diretores. Oscar para ele!
23.1.14
MEU QUERIDO NELSON - Fiquei muito emocionado com a morte do meu
querido Nelson Motta, que os amigos chamavam de Nelsão. Um homem notável. Uma
pessoa adorável. Sinceramente, me sinto um privilegiado, por ter tido a sorte
de conviver com ele e sua adorável família. Ele foi um grande advogado, um
profissional bem sucedido, um pai de família exemplar, um homem bom e honrado. Eu
o conheci logo que mudei para o Rio, por ter me tornado amigo de suas filhas
Graça e Maria Cecília. E ele, com sua mulher, Cecília, que todos chamam de
Xixa, sempre receberam muito bem os amigos dos filhos. Quando os conheci eles já
moravam numa linda casa no Gávea, com dois andares e um amplo jardim, que tinha
até um riacho que passava lá dentro. Quantos momentos agradáveis eu ali
vivi. Tinha um pedaço do jardim onde havia uma clareira, com árvores frondosas.
Eu gostava de sentar no banco que ali havia e ficar ouvindo o ruído do riacho...
Dona Cecília cuidava da casa com
muito carinho, com muito apreço. Ali era, realmente, um ninho de amor. Eu
conseguia perceber isso claramente. Nelson e Cecília se amavam muito e aquela
casa exalava o amor que sentiam um pelo outro. Era uma casa grande, exatamente
para ter muito espaço para os filhos, os netos, e os amigos dos filhos e dos
netos. Foram casados durante setenta anos...
Nos primeiros tempos a gente ia
lá e fazia a maior farra. Gente bacana como Maria Carmem Barbosa, Babita Mendonça, Cazuza, Arnaldo
Brandão, Helena Gastal, Alexandre Agra, Serginho Amado, Sergio Maciel, Euclydes
Marinho e tantos outros músicos, atores e escritores. Eles gostavam de receber
artistas. Do lado direito do jardim havia
um enorme estúdio-biblioteca com piano, teclado, imensas prateleiras de livros,
revistas, quadros e livros de arte. E a galera se reunia ali e trocava informações, jogava
conversa fora, compunha músicas, fazia poesias, bolava roteiros e bebia muito porque no bar sempre havia bebida
farta. Mesmo antes de conhecê-los, quando eles moravam em Copacabana, eles já
recebiam em casa o pessoal da bossa-nova para saraus. Dona Cecília toca piano
muito bem. Ela gosta muito de música e é grande fã do João Donato.
Eles deixavam todos muito à
vontade, mas, de vez em quando apareciam no estúdio e pediam para o pessoal evitar
os excessos. (E às vezes, realmente, aconteciam excessos. Afinal, éramos todos
jovens com alma de artista...) Mas sempre com muito carinho e sempre incentivando
o talento e a criatividade de todos. Aos poucos, fui aprendendo a admirá-los e,
quanto mais eu os conhecia, mais gostava deles.
Os melhores natais da minha vida
eu passei na casa do Nelson e da Cecília. Todos os anos eles promoviam uma
linda ceia de Natal em que reuniam toda a família. E, sempre que estava no Rio,
nesta época, eu ia passar o Natal com eles. E era sempre tão agradável, e feliz
e alto astral! Eu achava lindo o amor deles dois, a harmonia, o carinho que
sentiam um pelo outro. O modo como eles preparavam tudo para receber os filhos
e os netos. O único que não era da família era eu.
“Vavá, meus pais te adoram”, me
disse algumas vezes minha amiga Graça Motta. E a recíproca sempre foi
verdadeira. Eu também os adoro.
Na época em que eu trabalhava no
Jornal do Brasil foi lançado um filme sobre Dom Hélder Câmara. Antes do filme
estrear nos cinemas, a produtora me mandou uma cópia em CD para que eu fizesse uma
reportagem para o jornal. Vi o filme e logo liguei para o Nelson, já que ele
foi amigo de Dom Hélder. Contei que o filme era sensacional e tinha imagens
incríveis. Ele quis ver e eu deixei a cópia com ele. Dias depois, dona Cecília
me ligou pra avisar que já tinham visto o filme e me convidaram para um almoço.
E naquele dia almoçamos apenas nós três. Dona Cecília mandou a cozinheira
preparar algo muito especial e um excelente vinho como era comum naquela casa. Então conversamos muito sobre o filme. Eles falaram
o quanto tinham ficado emocionados. E me contaram detalhes da convivência com
Dom Hélder, na época em que fundaram o Banco da Providência, cujos estatutos foram
redigidos pelo advogado Nelson Motta.
Depois de muita conversa eles foram descansar e eu fui mergulhar na
piscina.
As lembranças que guardo dele são
sempre ligadas a bons sentimentos. A sua generosidade como patriarca. O seu
amor pela Cecília. Bons papos. Bons conselhos. A sensibilidade como ser humano.
Sua gentileza... Poxa vida! Eu poderia
escrever um livro sobre ele.
Descanse em paz, querido Nelson.
Que Deus o tenha num lugar muito especial...
17.1.14
O MELHOR FILME DO ANO - Saíram as indicações para o Oscar, mas o melhor filme do ano foi completamento esquecido. Como puderam esquecer Rush? Não importa. O tempo vai saber fazer justiça a esse filme. Lembro que quando Blade Runner foi lançado o filme passou batido. Assim como Rush, recebeu boas críticas, os que foram ver se deliciaram com o filme, mas logo de cara o grande público fez vista grossa com o filme. Mas, com o tempo, Blade Runner foi tendo o reconhecimento que realmente merece. Assim vai acontecer com Rush.
Nunca pensei que pudesse gostar de um filme que tivesse o automobilismo como tema. Mas o filme de Ron Howard é mais do que isso. É um incrível história de amor entre dois homens. Não um amor carnal ou sexual. Mas um amor de rivais. E o filme conta isso de um jeito tão poético. Tão francês... Dois atletas buscado superar seus próprios limites, mas que precisam de um grande rival para resolver essa questão. Rush também tem o charmoso design dos anos 70 e uma excelente dupla de atores. Daniel Bruhl está comovente no papel de Nikki Lauda. E Chris Hemsworth é puro carisma vivendo James Hunt. O diretor Ron Howard nunca esteve tão sensível. E a música de Hans Zimmer é inigualável.
Para mim é o Oscar de Melhor Filme.
11.1.14
O INCRÍVEL OTTO! – Quem viu O Abismo
Prateado, o filme de Karim Anouiz, não pode perder Preciso Andar, a peça de
Nick Payne. Em comum entre os dois espetáculos a presença do ator Otto Jr. No
filme ele é Djalma, o marido que abandona Alessandra Negrini sem dar maiores
satisfações. Nas telas, além de uma atuação pungente, Otto Jr proporcionou ao público
uma arrebatadora seqüência de nu frontal. No teatro, ele não chega a tanto. Mas, no papel do professor Alan, ele seduz o público com seu talento e sua personalidade.
PRECISO ANDAR – São muitos os atrativos
da peça Preciso Andar, do inglês Nick Payne, ora em cartaz no teatro do Centro
Cultural da Caixa. O texto instigante aborda as dificuldades das relações
humanas, mas se concentra na eterna insatisfação do homem. Nessa coisa que todo
mundo tem de nunca estar satisfeito com nada. A gente sempre quer mais, nada
nunca está perfeito, ninguém agüenta ficar muito tempo parado e, por isso,
precisa andar. Uma necessidade constante de ir de um lugar para o outro, nem
que seja da sala para a cozinha, ou do quarto para o banheiro. E esse eterno
mudar de lugar diz respeito também aos sentimentos, às sensações, aos desejos e
aos afetos. É como se viver fosse como andar de bicicleta: se parar, o sujeito
cai. E para dissertar sobre esse tema, a peça conta história de Alan e Liz, um casal em
crise. A mulher se envolve com um antigo colega de colégio que reaparece no seu
consultório. O marido, professor universitário, tem um caso mal resolvido com uma
colega de trabalho. O filho do casal vive num mundo à parte e não tem muito diálogo
com os pais. E o elemento que impulsiona
os conflitos, as crises e também os momentos de realização pessoal dos
personagens é o sexo.
Preciso Andar é um espetáculo sobre como o sexo conduz, de modo implacável, o destino das pessoas.
Se o texto de Nick Payne é ótimo,
a direção de Ivan Sugahara é melhor ainda. A encenação do espetáculo valoriza
as qualidades do texto e as possibilidades teatrais que ele possui. Aliás, o
modo como o palco é ocupado pelo espetáculo é digno de nota. A cenografia
inteligente, a trilha sonora adequada, figurinos eficientes: tudo ali demonstra
reverência e paixão pelo teatro. O mesmo se pode dizer do elenco que atua com
harmonia e paixão pelo seu ofício. Otto Jr., Beatriz Bertu, Cristina Lago, Fabio Cardoso,
Tárik Puggina e Suzana Nascimento fazem um bonito trabalho, emprestando alma e condição humana aos personagens por eles representados. Um espetáculo que vale a
pena assistir.
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