O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.
29.11.04
RIO FANZINE - A coluna de cultura pop do jornal O GLOBO completa dezoito anos e para comemorar, a editora Record lança o livro RIO FANZINE, uma coletânea com os melhores momentos da coluna editada por Tom Leão em parceria com Carlos Albuquerque. RIO FANZINE, o livro, abrange os momentos, estilos e mudanças mais marcantes no mundo do pop-rock, desde 1986, e terá lugar garantido na estante dos milhares de leitores da coluna ao redor do Brasil. Uma legião de fãs de todos os tipos, idades e lugares. Sem preconceitos e barreiras, como o próprio Rio Fanzine.
Informação. Comportamento. Cultura alternativa. Mundo pop. Música, cinema, televisão... Liberdade acima de qualquer suspeita. A idéia de um fanzine dentro de um grande jornal foi altamente subversiva nos idos de 1986. A missão de conseguir espaços e preciosas linhas para a música e a cultura alternativas, normalmente mantidos à margem dos grandes latifúndios da imprensa nacional, continua sendo cumprida. Há 18 anos, o Rio Fanzine tem trazido para a superfície relatórios sobre a movimentação do underground, seja no Rio, no Brasil ou no mundo. No trajeto, bandas e tendências foram apresentados ao grande público, com uma linguagem própria e visual arrojado.
Tom Leão, sem dúvida, foi o grande artífice da imprensa alternativa dentro do Globo. Tom surgiu na revista Pipoca Moderna, editada por Ana Maria Baiana na primeira metade dos anos 80. De lá para cá se dedicou com afinco a observar e traduzir para o grande público a vida, os anseios e a cultura do movimento underground. O maior feito de Tom Leão nos seus dezoito anos de jornalismo, foi o fato dele ter criado o termo PITBOY, para definir esses bofes machões tatuados que gostam de brigar em boate. Num artigo publicado na coluna ele criticava o comportamento desse tipo de homem e cunhava a expressão, uma mistura da palavra pitbull com o termo playboy. Com impressionante rapidez o termo caiu no gosto popular e todo mundo passou a usar a palavra PITBOY. Também foi Tom Leão quem batizou o titulo em portugues do filme Clueless, com Alicia Silverstone, que se transformou em As Patricinhas de Beverly Hills. Grande Tom Leão!
FRANCIS FOREVER - O especial Paulo Francis do Manhattan Connection foi o melhor programa do ano na TV. Foram momentos de puro prazer. Vendo-o na TV ele parecia tão vivo, tão presente, tão atual. Adorei quando ele, num programa gravado durante o segundo ano do governo FHC, esculhambou com o então presidente. Grande Francis! Mesmo quando discordo dele acho-o genial. Foi uma grande sacada da produção do programa homenageá-lo e, ao mesmo tempo, homenagear os fãs do jornalista, que não são poucos. Salve Francis!
Foi muito engraçado o final do programa, quando mostrou cenas de bastidores e de erros do jornalista. Foi engraçado assistir, mas acho que ele não teria gostado muito daquilo. Acho que o Manhattan Connection deveria ter mostrado algumas das sensacionais reportagens que o Francis fazia para o Jornal da Globo, com seus comentários irônicos e seu humor ferino. A produção do programa vai ficar nos devendo essa.
A morte de Paulo Francis deixou um vazio de inteligência no jornalismo brasileiro. E isso ficou mais nítido agora, sete anos após sua morte. A página que ele publicava às quintas e domingos no GLOBO nunca foi substituída. Quem lia aqueles textos não precisava ler mais nada na imprensa. Havia de tudo ali: análise política, comentários sobre economia, resenhas de livros, filmes e peças, artigos sobre comportamento, moda e estilo de vida. Tudo escrito com fundamento intelectual e um apurado senso de observação. Com a morte de Francis o que restou ao leitor do Globo? A mediocridade sem fim de gente como Xexeo, Jabor, Dapieve e Olavo de Carvalho. Whaal...
Com a morte de Paulo Francis a Globo decidiu inventar alguém para substituí-lo. Como se alguém pudesse substituir o gênio. Assim, trataram de transformar o cineasta Arnaldo Jabor em jornalista. Foi a partir daí que Jabor foi escalado para fazer comentários no Jornal da Globo, escrever uma coluna no jornal e, pasmem, participar do Manhattan Connection. Tudo o que o finado fazia. Puta que pariu, diria o saudoso Francis! A maior diferença entre eles é que o Jabor é um chato. Seu texto é pesado e amargo. Nas poucas vezes que li sua coluna no Globo eu tive a sensação de estar carregando um caminhão de tijolos. E seus comentários televisivos são patéticos. Foi uma ofensa a inteligência dos fãs do jornalista essa tentativa de inventar alguém para substituí-lo.
MANHATTAN CONNECTION continua sendo o meu programa favorito na TV, apesar da ausencia de Paulo Francis. Principalmente agora que o Jabor tomou um simancol e decidiu pular fora. Graças a Deus! O Lucas Mendes é ótimo como âncora. Caio Blinder é maravilhoso. O Ricardo Amorim é inteligente, culto e articulado. E além de tudo tem aquela boca carnuda, que parece estar pedindo para ser beijada. A Lúcia Guimarães faz reportagens magnificas. E tem o Diogo Mainardi... Afinal, nada na vida é perfeito.
MOON RIVER , música de Henry Mancini, letra de Johnny Mercer, tema do filme Bonequinha de Luxo, estrelado por Audrey Hepburn e George Peppard.
Moon river, wider than a mile
I'm crossing you in style some day
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're goin', I'm goin' your way
Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end, waitin' 'round the bend
My huckleberry friend, Moon River, and me
(Moon river, wider than a mile)
(I'm crossin' you in style some day)
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're goin', I'm goin' your way
Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after that same rainbow's end, waitin' 'round the bend
My huckleberry friend, Moon River, and me
(Moon River, Moon River)
Informação. Comportamento. Cultura alternativa. Mundo pop. Música, cinema, televisão... Liberdade acima de qualquer suspeita. A idéia de um fanzine dentro de um grande jornal foi altamente subversiva nos idos de 1986. A missão de conseguir espaços e preciosas linhas para a música e a cultura alternativas, normalmente mantidos à margem dos grandes latifúndios da imprensa nacional, continua sendo cumprida. Há 18 anos, o Rio Fanzine tem trazido para a superfície relatórios sobre a movimentação do underground, seja no Rio, no Brasil ou no mundo. No trajeto, bandas e tendências foram apresentados ao grande público, com uma linguagem própria e visual arrojado.
Tom Leão, sem dúvida, foi o grande artífice da imprensa alternativa dentro do Globo. Tom surgiu na revista Pipoca Moderna, editada por Ana Maria Baiana na primeira metade dos anos 80. De lá para cá se dedicou com afinco a observar e traduzir para o grande público a vida, os anseios e a cultura do movimento underground. O maior feito de Tom Leão nos seus dezoito anos de jornalismo, foi o fato dele ter criado o termo PITBOY, para definir esses bofes machões tatuados que gostam de brigar em boate. Num artigo publicado na coluna ele criticava o comportamento desse tipo de homem e cunhava a expressão, uma mistura da palavra pitbull com o termo playboy. Com impressionante rapidez o termo caiu no gosto popular e todo mundo passou a usar a palavra PITBOY. Também foi Tom Leão quem batizou o titulo em portugues do filme Clueless, com Alicia Silverstone, que se transformou em As Patricinhas de Beverly Hills. Grande Tom Leão!
FRANCIS FOREVER - O especial Paulo Francis do Manhattan Connection foi o melhor programa do ano na TV. Foram momentos de puro prazer. Vendo-o na TV ele parecia tão vivo, tão presente, tão atual. Adorei quando ele, num programa gravado durante o segundo ano do governo FHC, esculhambou com o então presidente. Grande Francis! Mesmo quando discordo dele acho-o genial. Foi uma grande sacada da produção do programa homenageá-lo e, ao mesmo tempo, homenagear os fãs do jornalista, que não são poucos. Salve Francis!
Foi muito engraçado o final do programa, quando mostrou cenas de bastidores e de erros do jornalista. Foi engraçado assistir, mas acho que ele não teria gostado muito daquilo. Acho que o Manhattan Connection deveria ter mostrado algumas das sensacionais reportagens que o Francis fazia para o Jornal da Globo, com seus comentários irônicos e seu humor ferino. A produção do programa vai ficar nos devendo essa.
A morte de Paulo Francis deixou um vazio de inteligência no jornalismo brasileiro. E isso ficou mais nítido agora, sete anos após sua morte. A página que ele publicava às quintas e domingos no GLOBO nunca foi substituída. Quem lia aqueles textos não precisava ler mais nada na imprensa. Havia de tudo ali: análise política, comentários sobre economia, resenhas de livros, filmes e peças, artigos sobre comportamento, moda e estilo de vida. Tudo escrito com fundamento intelectual e um apurado senso de observação. Com a morte de Francis o que restou ao leitor do Globo? A mediocridade sem fim de gente como Xexeo, Jabor, Dapieve e Olavo de Carvalho. Whaal...
Com a morte de Paulo Francis a Globo decidiu inventar alguém para substituí-lo. Como se alguém pudesse substituir o gênio. Assim, trataram de transformar o cineasta Arnaldo Jabor em jornalista. Foi a partir daí que Jabor foi escalado para fazer comentários no Jornal da Globo, escrever uma coluna no jornal e, pasmem, participar do Manhattan Connection. Tudo o que o finado fazia. Puta que pariu, diria o saudoso Francis! A maior diferença entre eles é que o Jabor é um chato. Seu texto é pesado e amargo. Nas poucas vezes que li sua coluna no Globo eu tive a sensação de estar carregando um caminhão de tijolos. E seus comentários televisivos são patéticos. Foi uma ofensa a inteligência dos fãs do jornalista essa tentativa de inventar alguém para substituí-lo.
MANHATTAN CONNECTION continua sendo o meu programa favorito na TV, apesar da ausencia de Paulo Francis. Principalmente agora que o Jabor tomou um simancol e decidiu pular fora. Graças a Deus! O Lucas Mendes é ótimo como âncora. Caio Blinder é maravilhoso. O Ricardo Amorim é inteligente, culto e articulado. E além de tudo tem aquela boca carnuda, que parece estar pedindo para ser beijada. A Lúcia Guimarães faz reportagens magnificas. E tem o Diogo Mainardi... Afinal, nada na vida é perfeito.
MOON RIVER , música de Henry Mancini, letra de Johnny Mercer, tema do filme Bonequinha de Luxo, estrelado por Audrey Hepburn e George Peppard.
Moon river, wider than a mile
I'm crossing you in style some day
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're goin', I'm goin' your way
Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end, waitin' 'round the bend
My huckleberry friend, Moon River, and me
(Moon river, wider than a mile)
(I'm crossin' you in style some day)
Oh, dream maker, you heart breaker
Wherever you're goin', I'm goin' your way
Two drifters, off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after that same rainbow's end, waitin' 'round the bend
My huckleberry friend, Moon River, and me
(Moon River, Moon River)
25.11.04
SAMBA & AMOR – Nasce um novo bloco carnavalesco em Ipanema: Si num guenta porque veio? O bloco foi idealizado pelo empresário Fred Neci, que promoveu animados pagodes dominicais na Cobal do Leblon. O sucesso das rodas de samba, freqüentada pela juventude dourada da zona sul, acabou gerando o bloco que pretende agitar a cidade desfilando na terça-feira de carnaval. Os ensaios do novo bloco agora estão sendo realizados no Chiko’s Bar, na Lagoa quase esquina com a Joana Angélica. Mais Ipanema, impossível.
O ensaio do último domingo estava pura animação, lembrando os bons tempos do Suvaco de Cristo. Uma bateria nota dez animando a galera e, nos intervalos, o DJ Markus Kabul incendiava a pista com sucessos do carnaval. O clima perfeito para curtir o verão de Ipanema depois da praia. Na pista super lotada um batalhão de gente bonita. Rapazes e moças com aquele certificado de garantia do Posto Nove. Pois é! O filé mignon da juventude descolada do Rio de Janeiro se esbaldando ao som dos pandeiros e tamborins. Viva o verão!
ANGELS IN AMÉRICA - Já chegou às locadoras da cidade a versão para a TV de ANGELS IN AMÈRICA, espetáculo teatral de grande sucesso do autor Tony Kushner. Na TV a peça adquiriu o formato de minissérie e recebeu o reforço de um elenco de peso: Al Pacino, Meryl Streep e Emma Thompson. Como no teatro, a minissérie é um espetáculo grandioso, que conta de forma trágica e pungente o surgimento da AIDS em Nova York. E também o sofrimento das vítimas, o preconceito, o desespero. Junto com a AIDS o autor mistura outras grandes mazelas da sociedade americana como o preconceito racial, a mentalidade conservadora e o fundamentalismo republicano. É uma barra pesada.
Graças a um roteiro eficiente, diálogos corretos e a direção precisa de Mike Nichols, o espetáculo flui com a mesma beleza e lirismo da montagem teatral, que eu tive o prazer de assistir na versão brasileira estrelada por João Vitti. Destaque para os efitos especiais, principalmente nas aparições do anjo. Por outro lado é preciso reconhecer que a versão cinematográfica potencializou o coquetel AIDS+preconceito+conservadorismo+mentalidade republicana e isso elevou o quociente de amargura da trama de Mr. Kushner. O fato é que a América amargurada retratada no filme parece vislumbrar um prenúncio da América decadente dos dias de hoje.
Merece destaque a cena em que dois rapazes dançam ao som de Moon River, a música tema do filme Bonequinha de Luxo. Um deles está morrendo de AIDS e, num momento de delírio, ele se vê dançando num cenário idílico com o seu amante. É uma das cenas mais bonitas do filme de Mike Nichols. Curioso é que, a mais bela cena do filme Má Educação, de Almodóvar, também é ao som de Moon River. Na beira do Rio, o padre toca o violão enquanto um garotinho lindo canta em espanhol uma versão da mesma música, momentos antes da criança ser vítima de um assédio sexual. Nas duas cenas a canção de Bonequinha de Luxo está presente, imprimindo sua marca, determinando sua influência na história do cinema.
NUNCA MAIS POR ENQUANTO - O jornalista Luiz Antônio Giron, editor de cultura da revista Època, está lançando livro de contos: Nunca mais por enquanto. Fugindo ao realismo que vem dominando a prosa contemporânea, Giron lança mão de uma linguagem vertiginosa e dos mais variados recursos da
intertextualidade para dar vida a tramas nas quais seus personagens estão sempre caindo em precipícios, amando sem ser amados e, invariavelmente, sendo assediados pelo horror e pelo medo da linguagem. Linguagem esta que atravessa os contos cumprindo uma função de personagem dramático. Luiz Giron publicou seu primeiro conto em 1977. Desde então, vem produzindo ficção, paralelo a reportagens, críticas, crônicas e ensaios nos mais importantes veículos e sites do país. Dedica-se ao estudo da crítica e da música, campo no qual especializou-se com Doutorado em Artes Cênicas e Mestrado em Musicologia, ambos pela Universidade de São Paulo. É autor do romance Ensaio de Ponto.
O ensaio do último domingo estava pura animação, lembrando os bons tempos do Suvaco de Cristo. Uma bateria nota dez animando a galera e, nos intervalos, o DJ Markus Kabul incendiava a pista com sucessos do carnaval. O clima perfeito para curtir o verão de Ipanema depois da praia. Na pista super lotada um batalhão de gente bonita. Rapazes e moças com aquele certificado de garantia do Posto Nove. Pois é! O filé mignon da juventude descolada do Rio de Janeiro se esbaldando ao som dos pandeiros e tamborins. Viva o verão!
ANGELS IN AMÉRICA - Já chegou às locadoras da cidade a versão para a TV de ANGELS IN AMÈRICA, espetáculo teatral de grande sucesso do autor Tony Kushner. Na TV a peça adquiriu o formato de minissérie e recebeu o reforço de um elenco de peso: Al Pacino, Meryl Streep e Emma Thompson. Como no teatro, a minissérie é um espetáculo grandioso, que conta de forma trágica e pungente o surgimento da AIDS em Nova York. E também o sofrimento das vítimas, o preconceito, o desespero. Junto com a AIDS o autor mistura outras grandes mazelas da sociedade americana como o preconceito racial, a mentalidade conservadora e o fundamentalismo republicano. É uma barra pesada.
Graças a um roteiro eficiente, diálogos corretos e a direção precisa de Mike Nichols, o espetáculo flui com a mesma beleza e lirismo da montagem teatral, que eu tive o prazer de assistir na versão brasileira estrelada por João Vitti. Destaque para os efitos especiais, principalmente nas aparições do anjo. Por outro lado é preciso reconhecer que a versão cinematográfica potencializou o coquetel AIDS+preconceito+conservadorismo+mentalidade republicana e isso elevou o quociente de amargura da trama de Mr. Kushner. O fato é que a América amargurada retratada no filme parece vislumbrar um prenúncio da América decadente dos dias de hoje.
Merece destaque a cena em que dois rapazes dançam ao som de Moon River, a música tema do filme Bonequinha de Luxo. Um deles está morrendo de AIDS e, num momento de delírio, ele se vê dançando num cenário idílico com o seu amante. É uma das cenas mais bonitas do filme de Mike Nichols. Curioso é que, a mais bela cena do filme Má Educação, de Almodóvar, também é ao som de Moon River. Na beira do Rio, o padre toca o violão enquanto um garotinho lindo canta em espanhol uma versão da mesma música, momentos antes da criança ser vítima de um assédio sexual. Nas duas cenas a canção de Bonequinha de Luxo está presente, imprimindo sua marca, determinando sua influência na história do cinema.
NUNCA MAIS POR ENQUANTO - O jornalista Luiz Antônio Giron, editor de cultura da revista Època, está lançando livro de contos: Nunca mais por enquanto. Fugindo ao realismo que vem dominando a prosa contemporânea, Giron lança mão de uma linguagem vertiginosa e dos mais variados recursos da
intertextualidade para dar vida a tramas nas quais seus personagens estão sempre caindo em precipícios, amando sem ser amados e, invariavelmente, sendo assediados pelo horror e pelo medo da linguagem. Linguagem esta que atravessa os contos cumprindo uma função de personagem dramático. Luiz Giron publicou seu primeiro conto em 1977. Desde então, vem produzindo ficção, paralelo a reportagens, críticas, crônicas e ensaios nos mais importantes veículos e sites do país. Dedica-se ao estudo da crítica e da música, campo no qual especializou-se com Doutorado em Artes Cênicas e Mestrado em Musicologia, ambos pela Universidade de São Paulo. É autor do romance Ensaio de Ponto.
22.11.04
O REI DO ROCK - Ezequiel Neves, lenda viva da cultura brasileira completa 70 anos no próximo 29 de novembro, sem perder a energia, o bom humor ou a irreverência.
- Eu cheguei aos 70 porque sou profundamente superficial – diz ele, às gargalhadas.
Ezequiel, ou Zeca como o chamam os íntimos, nasceu numa Belo Horizonte bucólica, cujas maiores lembranças da infância são os quintais espaçosos, cheio de árvores frutíferas. Na família classe média a avó parteira teve 13 filhos e o pai foi um cientista louco, que mantinha contato com cientistas do mundo inteiro.
- Meu pai tinha uma língua ferina. Ele falava mal de todo mundo na cidade.
No início da adolescência foi expulso do tradicional Colégio Arnaldo, de padres jesuítas. Mas foi nesse colégio que conheceu a primeira pessoa que fez sua cabeça, um padre alemão chamado Geraldo, de quem lembra com carinho.
- Eu sempre tive a sorte de encontrar pessoas que me orientavam e me desorientavam no momento certo. E o padre Geraldo foi uma dessas pessoas.
Certa vez, durante a confissão, contou ao padre Geraldo que tinha se masturbado e o reverendo o tranqüilizou dizendo que aquilo não era pecado. Noutra ocasião ficou aflito porque havia tido uma ereção durante a missa. Ao contar ao Padre ele falou: “Deus vai adorar isso”.
Um outro momento marcante da sua vida foi quando, aos doze anos começou a freqüentar o casarão da família de Oscar Neto. uma tradicional família mineira, muito badalada na época, que recebia em casa gente importante como JK, Di Cavalcanti, Murilo Rubião e Zuzu Angel que era prima de Oscar.
- Na casa de Oscar Neto eu ouvi conversas absurdas que não vou confessar nunca.
Foi na casa de Oscar Neto que conheceu uma pessoa que marcou sua adolescência e foi muito importante na sua formação: Vanessa Neto, irmã do anfitrião. Logo ficaram amigos e, por ser culta e avançada Ezequiel pediu que ela o orientasse, mas a moça respondeu: “Eu quero é te desorientar”. Vanessa, que era sobrinha do escritor Lúcio Cardoso, o apresentou a livros de Dostoievski, Eça de Queiroz e o recomendou a ler “O morro dos ventos uivantes”.
Com 17 anos Ezequiel começou a trabalhar na biblioteca da Faculdade de Medicina. Também começou a fazer teatro, freqüentar um grupo de intelectuais mineiros e a escrever artigos no Diário de Minas. Ouvia muito Dalva de Oliveuira, Aracy de Almeida cantando Noel, além de Frank Sinatra e Billie Holiday. Um dia Vanessa veio passar uma temporada no Rio e quando voltou para Minas levou de presente para Ezequiel o disco de Bill Halley “Rock around the clock”.
- Eu pirei quando ouvi Bill Haley. Logo depois descobri Elvis Presley. Foi então que eu pirei mais ainda.
Foi Maria Bonomi quem o incentivou a sair de Minas. Em 1965 foi para São Paulo fazer teatro onde montou espetáculos de Shakespeare e Edward Albee. Circulando no meio teatral conheceu Tõnia Carrero, Paulo Autran e Adolfo Celi.
- A Tônia Carrero só me chamava de “O abominável Ezequiel Neves”.
Apesar de trabalhar no teatro, a cabeça de Ezequiel só pensava no rock e numa nova paixão: o conjunto Rolling Stones. Em 68 começou a escrever artigos sobre rock no Estadão, onde se dedicava a esmiuçar os trabalhos de Janis Joplin, Simon e Garfunkel e The Doors. Em 69 foi conhecer Nova York e essa viagem foi uma revolução na sua cabeça. Tinha acabado de acontecer Woodstock e a cidade estava fervendo. Assistiu shows de Hendrix e Crosby, Still e Nash.
- Em 1970 fui para Londres, pois Gil, Caetano & Cia já estavam exilados na cidade. Lá o Guilherme Araújo nos proporcionou coisas incríveis. O “ácido” era da melhor qualidade. Vi e ouvi tudo o que tinha direito: The Who, Alvin Lee e Eric Clapton.
Uma das melhores lembranças de Londres em 70 foi o show do jovem Elton John que, em início de carreira, abriu o concerto do The Who.
- Foram quarenta minutos inesquecíveis de Elton tocando piano. Nessa época ele tinha até cabelo.
Quando voltou de Londres abandonou o teatro imediatamente. Foi então que Luis Carlos Maciel o convidou para editar com ele a versão brasileira da revista Rolling Stone. Assim Ezequiel mudou para o Rio de Janeiro, indo morar em Ipanema, num apartamento na rua Farme de Amoedo, num prédio que ficava em frente ao Bofetada. Passou a freqüentar a praia na Montenegro, reduto da contracultura de então e a puxar fumo nas dunas da Gal.
- Foi nessa época que eu descobri que as únicas perfeições da vida são a alegria e o rock´n roll.
Como jornalista escreveu para as revistas Realidade, Playboy, Som Três e a revista Geração Pop, publicação para jovens da editora Abril, cuja publicidade era feita por adolescentes que diziam “é a primeira revista da nossa idade”. Ao mesmo tempo produziu o grupo de rock Made in Brazil, onde, nos shows, fazia backing vocal com o microfone desligado. Era só atitude.
- Era a época em que todo mundo tomava Mandrix, um anestésico para dormir, que nos provocava uma sensação epidérmica e coisas estranhas. A gente tomava Mandrix e acordava ao lado das pessoas mais deliciosas do Rio de Janeiro. Foram verões inesquecíveis. Tudo isso acabou quando as pessoas descobriram a cocaína, uma droga careta e do mal.
Em 1978 Guto Graça Melo o convidou para trabalhar na Som Livre onde produziram artistas como Cauby Peixoto e Elizeth Cardoso, que Zeca adorava pois a ouvia muito na adolescência.
- Nesse período fiquei 10 anos sem sair do Brasil porque o governo cobrava uma taxa caríssima para quem quisesse viajar. Essa taxa foi um dos maiores absurdos da história do Brasil. Onde já se viu uma coisa dessas? Pagar imposto para poder sair do país?
Em 1980 Ezequiel Neves viveu um momento marcante: foi a Nova York especialmente assistir aos Rolling Stones, sua banda favorita, no show Let´s spend the night together.
- No show dos Stones eu estava com todas as drogas em cima. Mas quando eles começaram a tocar eu não precisei de droga nenhuma. Pirei apenas com o som dos caras.
Na volta ao Brasil, depois de assistir ao show dos Stones, começou a achar tudo muito chato. Ficou dois anos no maior bode, achando a vida sem sentido, até que em 1982 descobriu o Barão Vermelho.
- Foi paixão à primeira vista. Com o Barão me deu novamente um “calor na bacurinha”. A chama do rock estava acesa no Brasil. O Cazuza me encantou como poeta e, de cara, vi que o Frejat era um guitarrista do caralho.
Agora, às véspera de completar sete décadas de vida, Ezequiel Neves faz uma reflexão e vê que seguiu o conselho de Vanessa Neto, sua musa da adolescência, e ficou desorientado.
- Vanessa foi a mulher mais importante da minha vida. E a minha grande paixão foi mesmo o Cazuza.
Ao longo de sua vida viveu muitas paixões e muitos amores, mas não gosta de falar sobre eles.
- Já casei um milhão de vezes. Só não moro junto porque o cotidiano é o túmulo do amor.
De presente de aniversário quer apenas saúde. Cheio de energia e animação, o velho roqueiro nem pensa em se aposentar. Está se preparando para cair na estrada com o Barão Vermelho, que vai fazer uma turnê por todo o Brasil na trilha do sucesso do disco que acabou lançar.
- Eu já devia estar quieto. Mas o Frejat, que é como um filho para mim, me disse: “Esse teu calor na bacurinha só vai acabar quando você sentar no iceberg que destruiu o Titanic.
Gargalhadas gerais.
FAZ PARTE DO MEU SHOW - Um novo livro sobre o cantor Cazuza promete causar polêmica. Faz parte do meu show é uma autobiografia do cantor, psicografada por Robson Pinheiro. Segundo a Casa dos Espíritos, editora responsável, especializada em livros espíritas, é um romance sobre a vida de um grande astro da MPB, que desencarnou vitima da Aids. O Livro retrata sua descoberta da realidade espiritual e o reencontro com a imortalidade. Ele relata também, seu encontro com outros artistas desencarnados e outras personalidades que fizeram parte da sua trajetória marcante, polêmica e rebelde somada a sexo, drogas e muito Rock and Roll. O que será que Lucinha Araújo vai achar desse livro?
- Eu cheguei aos 70 porque sou profundamente superficial – diz ele, às gargalhadas.
Ezequiel, ou Zeca como o chamam os íntimos, nasceu numa Belo Horizonte bucólica, cujas maiores lembranças da infância são os quintais espaçosos, cheio de árvores frutíferas. Na família classe média a avó parteira teve 13 filhos e o pai foi um cientista louco, que mantinha contato com cientistas do mundo inteiro.
- Meu pai tinha uma língua ferina. Ele falava mal de todo mundo na cidade.
No início da adolescência foi expulso do tradicional Colégio Arnaldo, de padres jesuítas. Mas foi nesse colégio que conheceu a primeira pessoa que fez sua cabeça, um padre alemão chamado Geraldo, de quem lembra com carinho.
- Eu sempre tive a sorte de encontrar pessoas que me orientavam e me desorientavam no momento certo. E o padre Geraldo foi uma dessas pessoas.
Certa vez, durante a confissão, contou ao padre Geraldo que tinha se masturbado e o reverendo o tranqüilizou dizendo que aquilo não era pecado. Noutra ocasião ficou aflito porque havia tido uma ereção durante a missa. Ao contar ao Padre ele falou: “Deus vai adorar isso”.
Um outro momento marcante da sua vida foi quando, aos doze anos começou a freqüentar o casarão da família de Oscar Neto. uma tradicional família mineira, muito badalada na época, que recebia em casa gente importante como JK, Di Cavalcanti, Murilo Rubião e Zuzu Angel que era prima de Oscar.
- Na casa de Oscar Neto eu ouvi conversas absurdas que não vou confessar nunca.
Foi na casa de Oscar Neto que conheceu uma pessoa que marcou sua adolescência e foi muito importante na sua formação: Vanessa Neto, irmã do anfitrião. Logo ficaram amigos e, por ser culta e avançada Ezequiel pediu que ela o orientasse, mas a moça respondeu: “Eu quero é te desorientar”. Vanessa, que era sobrinha do escritor Lúcio Cardoso, o apresentou a livros de Dostoievski, Eça de Queiroz e o recomendou a ler “O morro dos ventos uivantes”.
Com 17 anos Ezequiel começou a trabalhar na biblioteca da Faculdade de Medicina. Também começou a fazer teatro, freqüentar um grupo de intelectuais mineiros e a escrever artigos no Diário de Minas. Ouvia muito Dalva de Oliveuira, Aracy de Almeida cantando Noel, além de Frank Sinatra e Billie Holiday. Um dia Vanessa veio passar uma temporada no Rio e quando voltou para Minas levou de presente para Ezequiel o disco de Bill Halley “Rock around the clock”.
- Eu pirei quando ouvi Bill Haley. Logo depois descobri Elvis Presley. Foi então que eu pirei mais ainda.
Foi Maria Bonomi quem o incentivou a sair de Minas. Em 1965 foi para São Paulo fazer teatro onde montou espetáculos de Shakespeare e Edward Albee. Circulando no meio teatral conheceu Tõnia Carrero, Paulo Autran e Adolfo Celi.
- A Tônia Carrero só me chamava de “O abominável Ezequiel Neves”.
Apesar de trabalhar no teatro, a cabeça de Ezequiel só pensava no rock e numa nova paixão: o conjunto Rolling Stones. Em 68 começou a escrever artigos sobre rock no Estadão, onde se dedicava a esmiuçar os trabalhos de Janis Joplin, Simon e Garfunkel e The Doors. Em 69 foi conhecer Nova York e essa viagem foi uma revolução na sua cabeça. Tinha acabado de acontecer Woodstock e a cidade estava fervendo. Assistiu shows de Hendrix e Crosby, Still e Nash.
- Em 1970 fui para Londres, pois Gil, Caetano & Cia já estavam exilados na cidade. Lá o Guilherme Araújo nos proporcionou coisas incríveis. O “ácido” era da melhor qualidade. Vi e ouvi tudo o que tinha direito: The Who, Alvin Lee e Eric Clapton.
Uma das melhores lembranças de Londres em 70 foi o show do jovem Elton John que, em início de carreira, abriu o concerto do The Who.
- Foram quarenta minutos inesquecíveis de Elton tocando piano. Nessa época ele tinha até cabelo.
Quando voltou de Londres abandonou o teatro imediatamente. Foi então que Luis Carlos Maciel o convidou para editar com ele a versão brasileira da revista Rolling Stone. Assim Ezequiel mudou para o Rio de Janeiro, indo morar em Ipanema, num apartamento na rua Farme de Amoedo, num prédio que ficava em frente ao Bofetada. Passou a freqüentar a praia na Montenegro, reduto da contracultura de então e a puxar fumo nas dunas da Gal.
- Foi nessa época que eu descobri que as únicas perfeições da vida são a alegria e o rock´n roll.
Como jornalista escreveu para as revistas Realidade, Playboy, Som Três e a revista Geração Pop, publicação para jovens da editora Abril, cuja publicidade era feita por adolescentes que diziam “é a primeira revista da nossa idade”. Ao mesmo tempo produziu o grupo de rock Made in Brazil, onde, nos shows, fazia backing vocal com o microfone desligado. Era só atitude.
- Era a época em que todo mundo tomava Mandrix, um anestésico para dormir, que nos provocava uma sensação epidérmica e coisas estranhas. A gente tomava Mandrix e acordava ao lado das pessoas mais deliciosas do Rio de Janeiro. Foram verões inesquecíveis. Tudo isso acabou quando as pessoas descobriram a cocaína, uma droga careta e do mal.
Em 1978 Guto Graça Melo o convidou para trabalhar na Som Livre onde produziram artistas como Cauby Peixoto e Elizeth Cardoso, que Zeca adorava pois a ouvia muito na adolescência.
- Nesse período fiquei 10 anos sem sair do Brasil porque o governo cobrava uma taxa caríssima para quem quisesse viajar. Essa taxa foi um dos maiores absurdos da história do Brasil. Onde já se viu uma coisa dessas? Pagar imposto para poder sair do país?
Em 1980 Ezequiel Neves viveu um momento marcante: foi a Nova York especialmente assistir aos Rolling Stones, sua banda favorita, no show Let´s spend the night together.
- No show dos Stones eu estava com todas as drogas em cima. Mas quando eles começaram a tocar eu não precisei de droga nenhuma. Pirei apenas com o som dos caras.
Na volta ao Brasil, depois de assistir ao show dos Stones, começou a achar tudo muito chato. Ficou dois anos no maior bode, achando a vida sem sentido, até que em 1982 descobriu o Barão Vermelho.
- Foi paixão à primeira vista. Com o Barão me deu novamente um “calor na bacurinha”. A chama do rock estava acesa no Brasil. O Cazuza me encantou como poeta e, de cara, vi que o Frejat era um guitarrista do caralho.
Agora, às véspera de completar sete décadas de vida, Ezequiel Neves faz uma reflexão e vê que seguiu o conselho de Vanessa Neto, sua musa da adolescência, e ficou desorientado.
- Vanessa foi a mulher mais importante da minha vida. E a minha grande paixão foi mesmo o Cazuza.
Ao longo de sua vida viveu muitas paixões e muitos amores, mas não gosta de falar sobre eles.
- Já casei um milhão de vezes. Só não moro junto porque o cotidiano é o túmulo do amor.
De presente de aniversário quer apenas saúde. Cheio de energia e animação, o velho roqueiro nem pensa em se aposentar. Está se preparando para cair na estrada com o Barão Vermelho, que vai fazer uma turnê por todo o Brasil na trilha do sucesso do disco que acabou lançar.
- Eu já devia estar quieto. Mas o Frejat, que é como um filho para mim, me disse: “Esse teu calor na bacurinha só vai acabar quando você sentar no iceberg que destruiu o Titanic.
Gargalhadas gerais.
FAZ PARTE DO MEU SHOW - Um novo livro sobre o cantor Cazuza promete causar polêmica. Faz parte do meu show é uma autobiografia do cantor, psicografada por Robson Pinheiro. Segundo a Casa dos Espíritos, editora responsável, especializada em livros espíritas, é um romance sobre a vida de um grande astro da MPB, que desencarnou vitima da Aids. O Livro retrata sua descoberta da realidade espiritual e o reencontro com a imortalidade. Ele relata também, seu encontro com outros artistas desencarnados e outras personalidades que fizeram parte da sua trajetória marcante, polêmica e rebelde somada a sexo, drogas e muito Rock and Roll. O que será que Lucinha Araújo vai achar desse livro?
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