AS PRAIAS DESERTAS – Coqueirais e canaviais. Essa é a paisagem que se vislumbra nas redondezas do município de Ipojuca, no caminho que leva a paradisíaca praia de Porto de Galinhas. São incríveis as praias do estreito litoral pernambucano. Porto de Galinhas é uma das mais belas, mas é difícil determinar qual de todas é a mais incrível. Porto de Galinhas é um lugar mais jet-set, já que é voltada para o turismo internacional, com seus resorts cinco estrelas e suas mansões cinematográficas debruçadas sobre um mar encantador. Junto a Porto de Galinhas tem as não menos belas Praia dos Carneiros e Praia do Cupe, de um lado. Do outro lado a deslumbrante beleza do Pontal de Maracaípe, onde o pôr-do-sol é um acontecimento especial a cada dia.
Bem ao lado de Porto de Galinhas tem uma praia chamada Serrambi, que pertence a um povoado de mesmo nome. Ao contrário da Vila de Porto, que é um lugar bonito, bem produzido, com restaurantes chiques e lojas sofisticadas, o povoado de Serrambi é um lugar simples, um vilarejo mesmo, uma vila de pescadores e operários esquecida pelo turismo internacional. E é isso que torna o lugar particularmente charmoso. Há algo de selvagem e bruto nas praias da região.
Bem depois de Serrambi tem uma praia que é um pedaço do paraíso na terra: Tamandaré. Para ir até lá, saindo de Serrambi, é preciso pegar a estrada margeada por imensos canaviais. Depois, ao dobrar no caminho que vai direto a Tamandaré, a estrada fica ainda mais bonita, já que atravessa um trecho de mata atlântica nativa. As árvores frondosas se encontram lá no alto e formam um túnel de vegetação que vai desembocar numa praia misteriosa, elegante e sensual. “No carnaval isso aqui pega fogo”, me disse um nativo quanto comentei sobre o astral calmo do lugar.
Foram dias muito felizes. Num momento eu estava nadando nas águas mornas de Tamandaré, desfrutando os prazeres hedonistas daquela praia misteriosa. Noutro instante eu andava de jangada no Pontal de Maracaípe, chocado com o sol mergulhando no horizonte no final da tarde. “Esse aqui é o pôr-do-sol mais bonito do mundo”, me disse o jangadeiro, quando notou minha expressão de perplexidade. É muito bom caminhar solitário na praia deserta, numa noite estrelada, com uma lua expressiva iluminando o mar, escutando apenas a música das ondas fazendo eco ao som dos coqueirais reagindo leso à brisa do mar. Melhor que isso só se, das sombras dos coqueirais, aparecesse um bofe inesquecível disposto a vivenciar uma noite de amor. Como eu sempre tive muita sorte na vida (obrigado meu Deus!), foi isso mesmo que aconteceu. Numa dessas noites mágicas no litoral de Pernambuco um bofe inesquecível surgiu das sombras dos coqueirais e tornou aquela uma das noites mais felizes da minha vida. Seus olhos esverdeados refletiam de um modo envolvente a luz da lua. E seu semblante exalava bondade pureza. E havia também o charme irresistível no sotaque pernambucano do rapaz magro e depilado. Mais tarde, quando a gente tava se divertindo de um modo mais íntimo, eu me lembro de seu sotaque carregado me dizendo: “Faz assim que tá gostoso que só a porra!”.
“...que só a porra”, é uma expressão que faz parte do linguajar pernambucano. É um modo de falar muito usado. Diz-se assim, por exemplo: Essa cerveja está gelada que só a porra! Hoje o dia está quente que só a porra! A mulher melancia é gostosa que só a porra. “Que só a porra”, significa muito, bastante, demasiado.
Blog também é cultura.
A lembrança dessa noite sob o luar de Porto de Galinhas vai sempre ficar na minha memória. Mas, o litoral de Pernambuco é tão cheio de surpresas que logo depois uma nova praia ia me deixar estupefato. Agora estou falando da Enseada dos Golfinhos, uma miragem em forma de paisagem, que fica na Ilha de Itamaracá. Minha temporada naquele lugar foram dias de muita felicidade. Minha irmã tem uma casa de veraneio na Ilha, na Praia do Jaguaribe, bem perto da Ciranda de Lia de Itamaracá. Para ir até a Enseada dos Golfinhos eu atravessa de barco o encontro do rio com o oceano. Ali eu desembarcava direto numa praia que tinha o singelo nome de Praia do Sossego. Então eu atravessava toda a Praia do Sossego e ficava mergulhando nas águas mágicas da Enseada dos Golfinhos. Depois, no final da tarde, eu ia ver o pôr do sol no pontal, tomando cerveja na barraca da Marilene e degustando fartas dose de caldo de sururu, caldo de ostras e outras iguarias da culinária nordestina. Caldeirada de frutos do mar, macaxeira com carne de xarque, agulha frita, sarapatel...
A vida é bela!
As praias desertas (Tom Jobim)
As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
A este encontro eu não devo faltar
O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar
O vento que venta lá fora
O mato onde não vai ninguém
Tudo me diz
Não podes mais fingir
Porque tudo na vida há de ser sempre assim
Se eu gosto de você
E você gosta de mim
As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
21.8.09
17.8.09
FUI A RECIFE E ESCAPEI DOS TUBARÕES – Eu tinha esquecido como a cidade do Recife é bonita. Os rios que cortam a cidade, as pontes, a arquitetura da parte antiga, as praias, os coqueirais, os casarões... Fiquei encantado com a beleza da cidade onde passei minha infância. Olhei para tudo aquilo como se fosse a primeira vez. Na minha lembrança tudo parecia tão sem graça, mas agora, muitos anos depois, tudo me pareceu irresistivelmente belo. “Recife é uma segunda Paris...”, me disse o motorista de taxi quanto eu coloquei a cabeça fora da janela para admirar os prédios históricos vistos da ponte. E eu, que já estava pronto para uma temporada de férias em Paris, acabei mudando o destino depois de ouvir um apelo de minha irmã: você nunca vem visitar a gente! Não me arrependi. A cidade linda, as praias, o clima, a gastronomia, a cultura, os bofes...
Claro que muita coisa foi destruída. O massacre que foi feito na Praia de Piedade é algo imperdoável. As casas de praia com arquitetura dos anos 50 e os imensos coqueirais deram lugar a prédios medonhos, que agora estão ameaçados com a invasão do mar, que insiste em avançar em direção ao continente. O mesmo aconteceu com a Praia de Boa Viagem. Saudosista, fui dar um mergulho em frente ao Condomínio Transatlântico, formado por dois prédios de 16 andares, onde eu costumava ir quando tinha 14 ou15 anos. Na época esses edifícios eram os mais altos da orla, e muita gente já os considerava uma heresia. Pois bem. Ao lado deste condomínio, onde antes era um terreno baldio construíram um prédio de 39 andares. Como é que se constrói um prédio de 39 andares na beira da praia? Logo cedo o edifício derrama uma imensa sombra sobre a água do mar. Minha irmã me conta que o governo de Pernambuco acaba de sancionar uma lei proibindo a construção de edifícios com mais de dez andares na orla de Boa Viagem. É a Lei do Cinismo. Agora é tarde. Todas as casas da orla, com sua arquitetura que remetia à Cuba de Fulgêncio Batista, já foram demolidas e deram lugar a arranha céus medonhos.
E por falar em arranha-céus, está quase pronto um conjunto de dois edifícios perto do centro velho do Recife, que são idênticos ao World Trade Center. São prédios residenciais e, com eles, a Prefeitura pretende revitalizar o Cais de Santa Rita, zona portuária da cidade. Ao ver os dois edifícios tão parecidos com o World Trade Center eu disse para minha irmã que agora só estava faltando o ataque dos aviões. Vilma deu uma gostosa gargalhada...
Apesar da agressividade praticada pelo homem, a Praia de Boa Viagem continua maravilhosa. O lugar tem um astral gostoso. Uma calma. Uma falta de pressa. O mergulho no mar, é claro, tem que ser feito no raso. Os ataques de tubarão que causam pavor aos banhistas, agora também fazem parte do folclore da cidade. Camelôs vendem aos turistas uma camiseta onde se lê: Estive em Recife e escapei dos tubarões. A frase é ilustrada com um desenho de um tubarão com a mandíbula cheia de dentes, onde se lê, em letras menores: Da próxima vez te pego!
Claro que muita coisa foi destruída. O massacre que foi feito na Praia de Piedade é algo imperdoável. As casas de praia com arquitetura dos anos 50 e os imensos coqueirais deram lugar a prédios medonhos, que agora estão ameaçados com a invasão do mar, que insiste em avançar em direção ao continente. O mesmo aconteceu com a Praia de Boa Viagem. Saudosista, fui dar um mergulho em frente ao Condomínio Transatlântico, formado por dois prédios de 16 andares, onde eu costumava ir quando tinha 14 ou15 anos. Na época esses edifícios eram os mais altos da orla, e muita gente já os considerava uma heresia. Pois bem. Ao lado deste condomínio, onde antes era um terreno baldio construíram um prédio de 39 andares. Como é que se constrói um prédio de 39 andares na beira da praia? Logo cedo o edifício derrama uma imensa sombra sobre a água do mar. Minha irmã me conta que o governo de Pernambuco acaba de sancionar uma lei proibindo a construção de edifícios com mais de dez andares na orla de Boa Viagem. É a Lei do Cinismo. Agora é tarde. Todas as casas da orla, com sua arquitetura que remetia à Cuba de Fulgêncio Batista, já foram demolidas e deram lugar a arranha céus medonhos.
E por falar em arranha-céus, está quase pronto um conjunto de dois edifícios perto do centro velho do Recife, que são idênticos ao World Trade Center. São prédios residenciais e, com eles, a Prefeitura pretende revitalizar o Cais de Santa Rita, zona portuária da cidade. Ao ver os dois edifícios tão parecidos com o World Trade Center eu disse para minha irmã que agora só estava faltando o ataque dos aviões. Vilma deu uma gostosa gargalhada...
Apesar da agressividade praticada pelo homem, a Praia de Boa Viagem continua maravilhosa. O lugar tem um astral gostoso. Uma calma. Uma falta de pressa. O mergulho no mar, é claro, tem que ser feito no raso. Os ataques de tubarão que causam pavor aos banhistas, agora também fazem parte do folclore da cidade. Camelôs vendem aos turistas uma camiseta onde se lê: Estive em Recife e escapei dos tubarões. A frase é ilustrada com um desenho de um tubarão com a mandíbula cheia de dentes, onde se lê, em letras menores: Da próxima vez te pego!
ETERNAMENTE DUSE - Os amigos da atriz Duse Nacarati estão organizando uma homenagem a atriz, que morreu recentemente. Vai ser no próximo dia 27 de Agosto, Quinta-feira, às 19 horas, na Rua Paissandú, 313, no Flamengo. Ali é a sede da SRF - Self Realization Fellowship, uma organização fundada em 1920 pelo iogue e guru indiano Paramahansa Yogananda. Ele é considerado um dos maiores emissários da antiga filosofia da Índia para o ocidente. Através da SRF - Self Realization Fellowship, organização que fundou logo ao chegar à América, foi pioneiro ao promover a prática da meditação por meio de lições estudadas nos lares, o que permitiu realizar sua missão mundial de difusão das técnicas de Yoga. Duse Nacarati era seguidora dos princípios de Yogananda.
Cultuada por artistas e intelectuais, Duse foi recentemente homenageada em textos de importantes escritores. Miguel Falabella, seu grande amigo, escreveu Batom Grená, texto emocionado que foi publicado na revista Isto É. Já a escritora portuguesa Margarida Rebelo Pinto publicou texto em seu blog. Ambos os textos são reproduzidos a seguir.
BATOM GRENÁ - Os apresentadores da televisão argentina avisaram que aquele seria o dia mais frio do ano e estavam certos. Ainda que a manhã portenha apresentasse um sol cheio de timidez e o céu, um traje de azul muito claro, como o véu de uma menina a caminho de sua comunhão, o frio cobrava seu preço e os termômetros despencaram para dois graus negativos. Na esquina da Santa Fé com Callao, onde fui à cata de chuteiras para meus sobrinhos, a aglomeração humana produzia ondas de uma fumaça branca que eram os pensamentos de toda aquela gente em estado gasoso, eu pensei - e ainda imaginei a intricada sopa de emoções que subia aos céus, quando o telefone tocou no bolso do casaco.
- Você já soube? - a voz era conhecida.
- A Soberana fez a passagem.
Soberana era como eu chamava Duse Naccarati, desde os tempos em que morávamos na Travessa Pepe, num pequeno prédio, onde durante alguns anos imperou a comédia. Não era uma atriz conhecida do grande público e os críticos quase sempre lhe torciam o nariz, mas não importava. Era amada e respeitada por uma geração de comediantes que conseguiam ver nela aquilo que nem todos eram capazes de enxergar. Duse era uma inspiração e agora mesmo, enquanto escrevo essa crônica, vejo seus lábios, sempre pintados de batom grená (ela dizia gre-nahhh, separando as sílabas e mostrando a fileira de dentes brancos), chamando por mim, na pequena área cimentada do apartamento térreo de Botafogo, onde ela cultivava roseiras que teimavam em prender-se nos seus xales, seus panos e suas bijuterias, porque ela era sempre uma festa para os sentidos.
- Hoje essa roseira está impossível, Príncipe! - ela me chamava assim e eu tenho tantas saudades de ouvir o seu chamado, meu Deus! Tanta vontade de mandar o tempo voltar e recuperar aquilo que se foi na enxurrada e que ainda hoje repousa naquele quadrado de cimento perdido na tarde de Botafogo, eu penso.O termo tiete, hoje verbete do mestre Aurélio, foi criado por ela, que roubou o nome de uma colega de funcionalismo público. Tiete, segundo Duse, era aquela que entrava numa sala, via alguém comendo um sanduíche e, antes que a pessoa tivesse a oportunidade de lhe oferecer um pedaço, já ia exclamando: Não! Muito obrigado! Bom apetite! Assim, qualquer pessoa que tentava se enxertar numa situação era imediatamente catalogada por ela, de maneira fulminante: - é uma tiete! Mais tarde Gilberto Gil popularizou o termo numa canção e o Brasil inteiro passou a usá-lo.
A Soberana fez a passagem. Saí da loja, atarantado, com o peito arrebentando de dor e fui caminhando, enquanto o frio intenso secava as lágrimas antes que terminassem seu percurso. Nunca mais o seu chamado, nunca mais aquelas reuniões de gente engraçada, inteligente e divertida que definitivamente entendiam a rapidez da passagem e que mudaram a minha vida.Adeus, minha querida Duse. Obrigado pelo aprendizado. Tenho tentado passá-lo adiante, pois você me ensinou muito sobre a generosidade. Beije Mauro Rasi e Vicente Pereira por mim, diga que sinto saudades de cada um dos nossos momentos e saiba que eu continuo aqui, com a dor de uma criança que foi deixada para trás. (Miguel Falabella)
SIMPLESMENTE DUSE - Eu me lembro da Duse como um colar feito de pedras exóticas, repleto de brilhos e de cores, de tons e de cambiantes, como ela era. Recordo o seu passo curto e nem sempre orientado, os abraços longos e os beijos lânguidos, aquelas mãos pousadas nas nossas caras como conchas para nos protegerem do bem, do mal e de tudo.Tudo nela era único e intransmissível, embora fácil de imitar; a voz rouca, o barulho das pulseiras, o desalinho dos cabelos. Mas o olhar… o olhar era mesmo só dela, e era comovente a forma como varria a nossa alma quando nos olhava por dentro, sempre cheio de ternura e de tantas coisas boas, muitas delas indizíveis… Lembro a boca tão perfeita e a pele já gasta, lembro do seu apartamento caótico e suas narrativas mirabolantes, sem tempo nem época. O que lhe sobrava em identidade não se encontrava na idade, porque a Duse era mais jovem do que todos nós juntos. Ela nos viu crescer, e seguiu todos de tão perto que acabou não crescendo ela. O seu coração era ainda o de uma menininha endiabrada, daquelas que faz tudo o que quer, sem medo nem remorso, sem maldade, mas com malícia… Querida Duse, do lado de cá do Atlântico, eu te abraço longamente, eu te dou mil beijos, eu te prometo que vou lembrar sempre o seu coração de menina, para nunca deixar de o ser. Bem, hajas, onde quer que estejas. Todos te amamos muito. E tu sabes, tu sabes melhor que ninguém. (Margarida Rebelo Pinto)
Cultuada por artistas e intelectuais, Duse foi recentemente homenageada em textos de importantes escritores. Miguel Falabella, seu grande amigo, escreveu Batom Grená, texto emocionado que foi publicado na revista Isto É. Já a escritora portuguesa Margarida Rebelo Pinto publicou texto em seu blog. Ambos os textos são reproduzidos a seguir.
BATOM GRENÁ - Os apresentadores da televisão argentina avisaram que aquele seria o dia mais frio do ano e estavam certos. Ainda que a manhã portenha apresentasse um sol cheio de timidez e o céu, um traje de azul muito claro, como o véu de uma menina a caminho de sua comunhão, o frio cobrava seu preço e os termômetros despencaram para dois graus negativos. Na esquina da Santa Fé com Callao, onde fui à cata de chuteiras para meus sobrinhos, a aglomeração humana produzia ondas de uma fumaça branca que eram os pensamentos de toda aquela gente em estado gasoso, eu pensei - e ainda imaginei a intricada sopa de emoções que subia aos céus, quando o telefone tocou no bolso do casaco.
- Você já soube? - a voz era conhecida.
- A Soberana fez a passagem.
Soberana era como eu chamava Duse Naccarati, desde os tempos em que morávamos na Travessa Pepe, num pequeno prédio, onde durante alguns anos imperou a comédia. Não era uma atriz conhecida do grande público e os críticos quase sempre lhe torciam o nariz, mas não importava. Era amada e respeitada por uma geração de comediantes que conseguiam ver nela aquilo que nem todos eram capazes de enxergar. Duse era uma inspiração e agora mesmo, enquanto escrevo essa crônica, vejo seus lábios, sempre pintados de batom grená (ela dizia gre-nahhh, separando as sílabas e mostrando a fileira de dentes brancos), chamando por mim, na pequena área cimentada do apartamento térreo de Botafogo, onde ela cultivava roseiras que teimavam em prender-se nos seus xales, seus panos e suas bijuterias, porque ela era sempre uma festa para os sentidos.
- Hoje essa roseira está impossível, Príncipe! - ela me chamava assim e eu tenho tantas saudades de ouvir o seu chamado, meu Deus! Tanta vontade de mandar o tempo voltar e recuperar aquilo que se foi na enxurrada e que ainda hoje repousa naquele quadrado de cimento perdido na tarde de Botafogo, eu penso.O termo tiete, hoje verbete do mestre Aurélio, foi criado por ela, que roubou o nome de uma colega de funcionalismo público. Tiete, segundo Duse, era aquela que entrava numa sala, via alguém comendo um sanduíche e, antes que a pessoa tivesse a oportunidade de lhe oferecer um pedaço, já ia exclamando: Não! Muito obrigado! Bom apetite! Assim, qualquer pessoa que tentava se enxertar numa situação era imediatamente catalogada por ela, de maneira fulminante: - é uma tiete! Mais tarde Gilberto Gil popularizou o termo numa canção e o Brasil inteiro passou a usá-lo.
A Soberana fez a passagem. Saí da loja, atarantado, com o peito arrebentando de dor e fui caminhando, enquanto o frio intenso secava as lágrimas antes que terminassem seu percurso. Nunca mais o seu chamado, nunca mais aquelas reuniões de gente engraçada, inteligente e divertida que definitivamente entendiam a rapidez da passagem e que mudaram a minha vida.Adeus, minha querida Duse. Obrigado pelo aprendizado. Tenho tentado passá-lo adiante, pois você me ensinou muito sobre a generosidade. Beije Mauro Rasi e Vicente Pereira por mim, diga que sinto saudades de cada um dos nossos momentos e saiba que eu continuo aqui, com a dor de uma criança que foi deixada para trás. (Miguel Falabella)
SIMPLESMENTE DUSE - Eu me lembro da Duse como um colar feito de pedras exóticas, repleto de brilhos e de cores, de tons e de cambiantes, como ela era. Recordo o seu passo curto e nem sempre orientado, os abraços longos e os beijos lânguidos, aquelas mãos pousadas nas nossas caras como conchas para nos protegerem do bem, do mal e de tudo.Tudo nela era único e intransmissível, embora fácil de imitar; a voz rouca, o barulho das pulseiras, o desalinho dos cabelos. Mas o olhar… o olhar era mesmo só dela, e era comovente a forma como varria a nossa alma quando nos olhava por dentro, sempre cheio de ternura e de tantas coisas boas, muitas delas indizíveis… Lembro a boca tão perfeita e a pele já gasta, lembro do seu apartamento caótico e suas narrativas mirabolantes, sem tempo nem época. O que lhe sobrava em identidade não se encontrava na idade, porque a Duse era mais jovem do que todos nós juntos. Ela nos viu crescer, e seguiu todos de tão perto que acabou não crescendo ela. O seu coração era ainda o de uma menininha endiabrada, daquelas que faz tudo o que quer, sem medo nem remorso, sem maldade, mas com malícia… Querida Duse, do lado de cá do Atlântico, eu te abraço longamente, eu te dou mil beijos, eu te prometo que vou lembrar sempre o seu coração de menina, para nunca deixar de o ser. Bem, hajas, onde quer que estejas. Todos te amamos muito. E tu sabes, tu sabes melhor que ninguém. (Margarida Rebelo Pinto)
28.7.09
23.7.09
Um lágrima para Duse



UMA LÁGRIMA PARA DUSE NACARATI – Ela foi uma grande atriz. Tinha um humor peculiar, uma voz com entonação muito especial (Bibi Ferreira costuma dizer que teatro é voz), e uma presença de palco desconcertante. A peculiaridade do seu modo de interpretar fez dela a musa do teatro besteirol. Era queridinha dos autores Mauro Rasi e Vicente Pereira e dos diretores Miguel Falabella e Jorge Fernando. Sua atuação na peça A Mente Capta, de Mauro Rasi, marcou época no teatro carioca. Assim como sua performance em As 1001 Encarnações de Pompeu Loredo, também de Mauro Rasi, em parceria com Vicente Pereira.
Apesar de musa convicta do teatro besteirol, o maior orgulho de Duse Nacarati como atriz era ser considerada uma atriz rodriguiana, por causa de sua atuação em peças de Nelson Rodrigues. Ela costumava contar aos amigos, com uma ponta de orgulho, que em 1968, quando participou de uma montagem da peça A Mulher sem Pecado, de Nelson Rodrigues, o próprio autor a procurou depois do espetáculo e lhe disse: “Você é uma atriz rodriguiana!”. Esse seu encontro com o dramaturgo marcou sua vida. Ao longo de sua carreira pôde exercitar sua condição de atriz rodriguiana em várias peças do autor. Atuou em Vestido de Noiva, na montagem protagonizada por Malu Mader e O Beijo no Asfalto, na montagem protagonizada por Alessandra Negrini. Sua última atuação no teatro carioca foi exatamente numa peça de Nelson Rodrigues, A Falecida, com direção de João Fonseca. Marcos Alvisi, que a dirigiu em Beijo no Asfalto costumava dizer: “Nenhuma atriz é mais rodriguiana do que Duse Nacarati”.
Certa vez, num jantar em sua casa, ela comentou sua atuação em Vestido de Noiva. Dizia que tinha adorado fazer esse clássico do Nelson, que se sentia totalmente à vontade no papel, e que antes de entrar em cena sempre lembrava do Nelson Rodrigues lhe dizendo: “Você é uma atriz rodriguiana”. E ela disse isso imitando o jeito do dramaturgo falar, provocando gargalhadas em todos que estavam presentes. Duse era uma mulher muito engraçada e seus amigos adoravam estar com ela, por que isso era garantia de boas risadas. Do seu trabalho em Vestido de Noiva ela também guardava boas lembranças da sua convivência com a Malu Mader. Elogiava muito a Malu, que além de protagonista, era produtora da peça. Contava que a Malu era super carinhosa com ela e muito cuidadosa com toda a equipe que fazia a peça. E ela achava isso muito bonito.
Jorge Fernando e Miguel Falabella também adoravam Duse Nacarati. Jorge Fernando a dirigiu duas vezes. Em 1980, na montagem original de As mil e uma encarnações de Pompeu Loredo, de Mauro Rasi e Vicente Pereira, e em 2002, na remontagem dessa mesma peça que recebeu o nome de Aqui se faz, aqui se paga. Eram grandes amigos e Jorge tinha um carinho muito especial por ela. Já Falabella costumava dizer que Duse era a mulher da vida dele. Tinha ternura, paixão e afeto pela atriz. Gostava tanto da Duse que em 2001 lhe deu de presente um belo apartamento no Jardim Botânico. Não que ela precisasse. Ela vivia muito bem, tinha seus próprios rendimentos e uma família que a amava. Mas Miguel é rico e quis presentear a amiga com um apartamento. E ponto final!
Mas o grande amor da sua vida era o ator Leonardo Vieira. Posso imaginar como ele deve ter sofrido e chorado ao saber da morte dela. O Leo simplesmente adorava a Duse. Eles eram super amigos, se falavam quase diariamente, saíam juntos. Pareciam namorados. Certa vez o Leo Vieira a levou para Portugal, foram passar férias na Quinta da família do ator, nos arredores de Lisboa. Ela gostava de contar aos amigos da sua viagem e dos lugares incríveis que Leonardo lhe mostrou em Portugal. A última vez que eles foram vistos juntos em público foi na vernissage do artista plástico Gilvan Nunes, grande amigo do casal.
Descanse em paz, querida Duse! Descanse em paz...
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