11.11.10

Só é digno da vida aquele que vai, todos os dias, à luta por ela.


Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do "stop"
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola

(Letra da música Mistério do Planeta, eterno sucesso dos Novos Baianos).


Escute aqui:


5.11.10



Algumas das maiores dádivas de Deus são preces não atendidas.



EU VI DEUS E ELA É NEGRA – Essa é uma frase que aparece escrita num dos cartazes que os personagens da peça Hair seguram durante uma passeata. Sem dúvida o musical Hair é um belo espetáculo. Tem um elenco habilidoso que canta, dança e representa. Uma direção profissional, antenada com os valores dos musicais da Broadway. E uma produção caprichada. Apesar de ter sido um espetáculo que ficou muito associado a uma época, a virada dos anos de 1960 para 1970, nos dias de hoje Hair continua um espetáculo jovem, alto astral e comovente. Uma peça que as novas gerações podem assistir como uma aula de história, já que mostra com muita propriedade o que foi o movimento hippie, um estilo de vida que se evaporou com a história.


A dramaturgia de Hair não foi enfraquecida com o tempo. A trama ainda comove o público, já que é ambientada num período histórico muito específico. Entretanto, é fundamental ressaltar o seguinte: o ponto forte do espetáculo é a música. A música de Hair continua vibrante, moderna, envolvente. A trilha sonora não envelheceu em nada. Pelo contrário. São as músicas que conduzem a emoção do espetáculo. E é a excelência da música que torna Hair um grande musical.


Charles Moeller e Cláudio Botelho, os magos do musical no Brasil, responsáveis pela montagem de Hair, estão de parabéns. Mais uma vez eles conseguiram acertar e montar um espetáculo com as mesmas características dos musicais de Londres e Nova York. Mas eu tenho uma única restrição ao espetáculo. Acho um absurdo que Aquarius, a música mais famosa da trilha de Hair, que dá início ao espetáculo, seja cantada numa versão em português. Aquilo ficou estranhíssimo. A música é um hit há mais de quarenta anos, todo mundo conhece a versão em inglês. Quando o elenco começa a cantar a música em português soa estranho. Fica esquisito quando eles pronunciam “aquário” em vez de “aquarius”. Hoje em dia quase todo mundo sabe inglês e a música é tão incrível que ninguém precisa saber a letra para entender a música. Pena que Charles e Cláudio não tenham percebido isso. De qualquer modo, é apenas um detalhe diante da beleza que é a montagem brasileira do musical.


A sessão de estréia no Teatro Casa Grande foi frenética e badalada. O teatro lotado, a platéia vibrando com o espetáculo. Tinha Sergio Brito, Gloria Pires, Ingrid Guimarães, Tiago Lacerda, Paulo Próspero, Danielle Winnits, Denis Carvalho, Elba Ramalho, Ciro Barcelos, Totia Meirelles, Sabrina Korgut, Bruno Chateubriand, André Ramos, Zeca Camargo, Antonio Cícero, Tuca Andrada, Claudia Jimenez... e a poderosa Bárbara Heliodora. No coquetel que se seguiu a estréia muita gente comparou a atual versão com a histórica montagem do final dos anos de 1960. Denis Carvalho, por exemplo disse que adorou a montagem de Charles e Cláudio, “mas que não chega nem aos pés da primeira versão”. “É muito Broadway, muito showbizz. Falta rebeldia, contestação”, disse o coreógrafo Ciro Barcelos que, como Denis, também atuou na primeira versão.


Quem também ficou decepcionado com o espetáculo foi o psicanalista Paulo Próspero. “A questão é que a primeira versão do espetáculo montada no Brasil era absolutamente genial. A montagem brasileira era, por exemplo, mil vezes melhor do que a versão inglesa. Eu assisti no Rio e assisti em Londres e a montagem do Rio era muito melhor”, dizia Próspero, sem tirar os olhos do Tiago Lacerda. “Hair é um espetáculo que pede ousadia e transgressão e falta isso nessa nova montagem. É bem feito, tudo certinho, mas falta rebeldia. O problema é que o Charles Moeller e o Cláudio Botelho são muito caretas e só viram o lado Broadway da peça”, continuou Próspero, hipnotizado pela beleza do Tiago Lacerda.


Um dos grandes momentos do espetáculo é a famosa cena em que o elenco tira toda a roupa e fica todo mundo nu em cena. É um elenco jovem. Rapazes e moças no frescor da juventude. É uma coisa linda a nudez do elenco de Hair. Mas Paulo Próspero, ainda sem tirar os olhos de Tiago Lacerda, criticou esse momento mágico do espetáculo. “Na versão original o elenco ficava nu, descia do palco e ficava circulando no meio da platéia. Em 1968 isso era ousadíssimo. Hoje em pleno século 21 a gente vê essa nudez contida”.


Veja um trecho de Hair na Broadway:

Veja a sensacional abertura do filme Hair, de Milos Forman:

(Fotos de Waldir Leite)

1.11.10

O cuidado em ouvir é o caminho mais curto para o saber.




NAVEGAR É PRECISO – Era uma linda manhã de sábado. O sol brilhava por entre nuvens esparsas e uma brisa suave soprava do oceano. Parecia um dia perfeito para um passeio de barco. Quando cheguei no Iate Clube do Rio de Janeiro o Apeiron já estava no ancoradouro pronto para zarpar. Apeiron. Esse é o nome do barco do Maurício, um velho amigo, que pilotava a embarcação com sua mulher Andréia. Além de nós, mais um casal, Dulce e Marcelo Bundchen, primo da Gisele.


Um passeio de barco num sábado ensolarado. Era tudo o que a gente precisava no início do feriadão, véspera da eleição presidencial. Logo o Apeiron estava navegando na Baía da Guanabara. Uma imagem de sonhos se descortinava aos nossos olhos. A enorme pedra do Pão de Açúcar dando um ar imponente ao bairro da Urca. Ao longe a silhueta montanhosa e o Cristo Redentor lá no alto. “Como é linda essa cidade”, não se cansava de exclamar a gaúcha Dulce, com sua voz cheia de sotaque. A linda paisagem que se via só fazia ratificar as palavras da gaúcha.


Como o vento estava suave Maurício ligou o motor do barco, que adquiriu velocidade, e logo estávamos em mar aberto. Eu me divertia ajudando Maurício a pilotar, enquanto as mulheres se espreguiçavam no convés e Marcelo pegava cervejas na geladeira. Bebíamos, comíamos canapés e navegávamos no oceano tranquilo. No alto mar Maurício desligou o motor e içou as velas. Agora não havia mais o ruído do motor e tudo pareceu perfeito. Velejávamos ao sabor dos ventos. Com habilidade Mauricio nos levou até a Praia de Itaipu, em Niterói. Ali mergulhamos, nadamos até a praia, comemos camarões fritos e bebemos muitas cervejas. O sábado se revelava um dia maravilhoso para todos nós.


Quando voltamos para o barco, depois da parada na Praia de Iatipu, um vento diferente começou a soprar. “O tempo está virando”, comentou Maurício, mirando o horizonte. Logo o mar começou a ficar agitado e um vento forte começou a soprar agitando as velas e balançando o barco. Foi tempo de içar a âncora e zarpar de volta ao Iate Clube. E, se o início do passeio foi como um sonho, não seria exagero dizer que a viagem de volta foi como um pesadelo. O mar foi ficando cada vez mais agitado, com ondas enormes que pareciam querer engolir o barco. Do Iate Clube passaram um radio para todos os barcos que tinham zarpado de lá. “Perigo no mar”, uma voz metálica ecoou pelo barco, aumentando ainda mais meu nervosismo. “Waldir, põe um colete salva-vidas”, ordenou Maurício, segurando o leme com uma mão e na outra uma lata de cerveja, me deixando definitivamente em pânico.


As ondas foram ficando cada vez maiores. E entre elas surgiam cavidades que pareciam querer sugar o barco para as profundezas. A embarcação era jogada de um lado para o outro num ritmo frenético. Eu estava apavorado com aquela sucessão de emoções fortes. Mas os dois casais que estavam comigo pareciam se divertir com aquilo tudo. Eles não paravam de beber e davam gritos de farra quando uma onda maior fazia as velas do barco quase encostar nas águas do oceano. “Fica tranqüilo, Waldir, se o barco virar a gente nada até o litoral”, gritava o primo da Gisele, dando gargalhadas, enquanto eu o fuzilava com um olhar de ódio.


“Quer uma cerveja, Waldir?”, me perguntava Maurício, quando uma onda gigantesca avançou sobre o barco e lançou um incrível jato de água sobre o meu rosto. “Não, Maurício, eu não quero cerveja! Eu quero terra firme!”, respondi sem conseguir esconder o pânico e a irritação. Maurício sorria sem parar, parecendo estar se divertindo muito com tudo aquilo. “Fica tranqüilo que esse barco é inglês e ele não vira nunca”, disse ele quando, mais uma vez, uma onda enorme quase vira o barco. Logo começou a chover, aumentando a sensação de frio provocada pelo vento.


Os minutos pareciam intermináveis naquela tarde de sábado. Eu ansiava por terra firme mas, ao mesmo tempo, conseguia perceber uma beleza muito grande naquele movimento do mar. Aos poucos fui percebendo que a melhor maneira de lidar com aquela situação era me deixar levar pelas ondas. Não reagir ao seu movimento, nem mesmo emocionalmente. Certos estavam meus amigos ao encarar aquilo como um privilégio. Uma oportunidade rara de diversão que a natureza estava proporcionando. Aos poucos fui ficando mais calmo e aceitando com serenidade as ondas, a chuva e o vento. E foi assim que chegamos de volta à Baía da Guanabara. Agora o mar estava com menos ondas, o vento havia diminuído e só a chuva caía inclemente sobre as nossas cabeças.



Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, a
inda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.


Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.


É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.


(Fernando Pessoa)

23.10.10

Não há poder maior do que a liberdade de cair fora.


Há fases em que os sonhos
não se convertem em planos
nem as intuições em conhecimentos
nem a nostalgia nos incita
a nos movimentarmos.
Esses são maus tempos
para a arte.



(Bertold Brecht)


TEATRO QUASE SEMPRE – Uma peça com três horas e meia de duração! Pode até parecer assustador para o público. Mas o que a Companhia do Latão oferece com sua peça Ópera dos Vivos são três horas e meia de puro deleite para o espectador. Um teatro com criativos recursos visuais, texto inteligente, direção segura e um elenco equilibrado com atores de talento. Ópera dos Vivos é um espetáculo divertido e inteligente sobre a produção cultural no Brasil durante o governo militar.


A peça é dividida em quatro atos. No primeiro ato o elenco encena um espetáculo sobre lavradores nordestinos, inspirado nos conceitos das Ligas Camponesas que organizavam os camponeses em torno da luta pela Reforma Agrária, no sertão pernambucano, até a Revolução de 1964, tendo o comunista Francisco Julião como líder. A peça é uma espécie de Morte e Vida Severina revisitada, com intervenções irônicas e um humor saboroso.


O segundo ato é um filme. Desce um telão no palco onde é exibido um filme em preto e branco, no estilo dos filemes do Cinema Novo. Com esse filme a Companhia do Latão praticamente recria Terra em Transe, o mais importante filme de Glauber Rocha. Na versão do grupo teatral o filme, numa linguagem cheia de metáforas, mostra guerrilheiros assaltando bancos, um cineasta maldito tentando convencer um banqueiro a produzir seu filme, uma dama da alta sociedade tentando a carreira de atriz... A fotografia é belíssima e o elenco mostra que também é afiado diante de uma câmera.


O terceiro ato é um grande musical e conta a história de uma grande diva da MPB que volta aos palcos depois de ter passado uma temporada em estado de coma num hospital. Existe muita expectativa diante da volta da cantora, já que ela sempre foi uma revolucionária e fazia críticas a ditadura. Nos bastidores o marido/empresário pede que a artista apenas cante e não faça declarações, já que não existe clima no Brasil para críticas ao governo e ao sistema. Na platéia ocorre uma discussão entre uma revolucionária que deseja a liberdade de expressão e um reacionário que ameaça agredir os músicos e artistas como ocorreu em Roda Viva. É uma encenação tensa e muito bem realizada na sua proposta de retratar os conflitos da produção cultural brasileira nos anos 70, com muita censura e repressão.


No quarto ato a peça dá um salto no tempo e a trama acontece nos dias atuais. Agora os personagens estão num estúdio de uma grande rede de televisão gravando o último capítulo de uma novela de sucesso. É uma cena em que, depois de uma discussão com a mocinha, um dos protagonistas se revela o vilão e dá um tiro na cabeça. Mas, na hora da gravação, o ator tem uma crise e se recusa a gravar a cena alegando que seu personagem não deve morrer. A partir dessa situação a peça leva as últimas conseqüências o principal tema discutido durante todo o espetáculo: o conflito do artista que se vê obrigado a submeter sua arte ao sistema.


Ópera dos Vivos é um grande espetáculo.

7.10.10


A admiração torna a alma leve e feliz e por isso devemos ser gratos às coisas belas que nos causam prazer.





HILDEGARD ANGEL ESTÁ NA RECORD – A grande dama do colunismo social finalmente se rendeu aos encantos da Internet. Hildegard Angel agora é a mais nova colunista do R-7, o portal de notícias da Rede Record. Certamente seu texto elegante, seu humor e seus personagens fascinantes vão bombar na Internet. Afinal, Hildegard Angel é a última das grandes colunistas sociais do Brasil.



Adoro Hildezinha. Guardo boas lembranças da época em que trabalhamos juntos no Jornal do Brasil. Foi uma época em que trabalhar era pura diversão. Ela é uma pessoa muito bem humorada (depois do meio-dia, antes dessa hora ela é um tanto quanto impaciente) e divertida. Uma das minhas atividades no jornal era cobrir algumas das festas mais badaladas da cidade. Ela é convidada para todas as festas, mas nem sempre gostava de ir, e me escalava para ir no lugar dela. “Você escreve de um jeito que deixa a gente com vontade de estar na festa que você cobriu”, me disse ela certa vez. Quando eu elogiava algum texto que ela escrevia, alguma nota que ela dava, ela me dizia: “Sua opinião não vale pois você é apaixonado por mim”.



Trabalhar com Hildegard Angel foi uma das mais gratificantes experiências profissionais que tive na vida. Ela me cobria de elogios, mas sabia ser exigente com meu trabalho. Às vezes era um pouco tirana, mas isso fazia parte do seu charme. Seu jeito carinhoso de lidar com os colegas, seu bom humor e sua criatividade serviam de estímulo para a equipe que fazia o Cadeno H, suplemento semanal editado por ela. Espero que sua coluna no site da Rede Record seja um grande sucesso.



Clique no link abaixo e leia as últimas do high society!







O ÚLTIMO TANGO – Uma experiência sonora magnífica. Assim é a música do grupo Gotan Project, que fez show de lançamento do novo CD no Vivo Rio. Tocando ao vivo os músicos conseguem ser ainda mais convicentes no seu trabalho que mistura o tango tradicional com a música eletrônica e a música pop. A partir do som do bandoneon, instrumento musical usado principalmente para tocar o tango, o grupo cria uma música que toca profundamente a alma de quem ouve. É uma música melodiosa, harmônica, suave, delicada. Ao mesmo tempo sensual, vibrante, e contundente.




O novo CD chama-se Tango 3.0 e é o terceiro disco de estúdio do trio formado pelo argentino Eduardo Makaroff, pelo suíço Cristoff Muller e pelo francês Philippe Solal. O disco tem a mesma classe, o mesmo estilo, a mesma qualidade musical dos álbuns anteriores. O carro chefe do disco é um belíssimo tema instrumental chamado La Glória, um tango onde o bandoneon nos provoca vertigens suaves com seu ritmo dramático e sensual. A música vem acompanhada com um clipe cheio de bossa. Delírios para os ouvidos e para a visão.




Veja e escute La Gloria no link:







Aqui uma entrevista com os músicos do Gotan Project:







7.9.10

O jovem oficial do batalhão de pára-quedistas mostrou sua melhor cara pintada especialmente para o blog do Waldir.



Verás que um filho teu não foge à luta!


Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil!


Recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil, querido simbolo da terra, da amada terra do Brasil.


Fulguras, ó Brasil, florão da América, iluminado ao sol do novo mundo.


Qual Cisne Branco que em noite de lua, vai navegando num lago azul, o meu navio também flutua nos verdes mares de norte a sul.



Nossos bosques tem mais vida. Nossa vida no teu seio mais amores, ó Pátria amada!



Nem teme quem te adora a própria morte, terra adorada!


Que fofo! Teus risonhos lindos campos tem mais flores...


Um sonho intenso, um raio vívido, de amor e de esperança à terra desce...


Em teu seio, ó liberdade, desafia em nosso peito a própria morte...


O teu futuro espelha essa grandeza, terra adorada, entre outras mil!


Se em teu formoso céu risonho e límpido, a imagem do cruzeiro resplandece!


Teu futuro espelha essa grandeza, terra adorada.


Hoje o rubro lampejo da aurora, acha irmãos, não tiranos hostis...


Do Ipiranga é preciso que o brado, seja um grito soberbo de fé, o Brasil já surgiu libertado...


Em teu seio formoso retratas, esse céu de um puríssimo azul...


Os galantes soldados brasileiros fazem pose especialmente para o blog do Waldir.


Brava gente brasileira, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil.


És belo, és forte, impávido colosso. Gigante pela própria natureza!


Em seu dia de festa os bravos soldados brasileiros ensaiam seu melhor sorriso para os leitores deste blog.


Que sorriso lindo! Já com garbo juvenil, do universo entre as nações, resplandece a do Brasil.


Vossos peitos, vossos braços, são muralhas do Brasil!


O brado retumbante de um povo heróico foi ouvido às margens do Ipiranga.


O soldado da esquerda fez as sobrancelhas especialmente para o desfile de Sete de Setembro.


Com o braço forte conseguimos conquistar o sol da liberdade em raios fúlgidos. Não é mesmo, bonitão?


Ao som do mar e à luz do céu profundo...




OU FICAR A PÁTRIA LIVRE OU MORRER PELO BRASIL!

PAZ NO FUTURO E GLÓRIA NO PASSADO – Minha presença na Parada de Sete de Setembro é mais certa do que a presença do Comandante Militar do Leste. Nada me encanta mais do que os desfiles dos nossos queridos soldados. É uma data sagrada para mim, tanto quanto meu aniversário, ou o dia de Natal, ou a Sexta-Feira Santa. Acho lindo o desfile e o clima de festa que se instala na cidade. Fico emocionado com as músicas, com as fardas e com a alegria dos rapazes que vivem ali seu momento de estrelas da festa. Faço esse programa desde criança, quando era levado ao desfile pelas minhas tias, que iam paquerar os soldados. Hoje quem vai paquerar os soldados sou eu.


Se Waldir Leite é uma presença garantida nos desfiles de Sete de Setembro, o mesmo não se pode dizer do Governador Sergio Cabral. Cabralzinho nunca vai aos desfiles. Ele se recusa terminantemente a prestigiar os militares. Normalmente, a abertura dos desfiles em todo o Brasil é feita pelo Governador que, acompanhado do Comandante das Forças Armadas local, passa as tropas em revista, antes do início da Parada. Sergio Cabral, a exemplo de seus antecessores, ignora totalmente a Parada Militar.


Ora bolas! Todo ano o Governador Sergio Cabral faz questão de prestigiar a Parada Gay. Todo ano ele está lá em cima do trio elétrico, dando pinta ao lado do Cláudio Nascimento, do Grupo Arco-Iris. Tudo bem. É chique e moderno fazer discurso para a comunidade gay. Mas, custava nada ele prestigiar também os militares? (Os rapazes se arrumam com classe, engraxam seus coturnos com capricho, vestem seus uniformes de gala. Eu disse "de gala"! E o Governador simplesmente não aparece.) E não foi só ele. O Prefeito Eduardo Paes, a exemplo do seu antecessor César Maia, também não foi a Parada. Qual o problema desses políticos com os militares? Qual o problema dessa gente com um dos símbolos nacionais? Por que os políticos brasileiros fazem questão de se colocar como antagonistas dos militares, quando deviam estar atuando juntos?


Esse comportamento dos políticos brasileiros com relação aos militares merece uma séria reflexão da sociedade. O fato é que os políticos brasileiros querem que o Brasil tenha um Exército fraco, desprestigiado e sem poder. Foi esse raciocínio que permitiu que a bandidagem adquirisse um status profissional no país. (Um Exército fraco significa uma sociedade fraca). As Forças Armadas é um dos símbolos da Nação, assim como a língua, a bandeira, o hino nacional e a cultura. Para uma Nação ser segura e forte ela precisa de um Exército seguro e forte. Mas, desde o advento da democracia, que as Forças Armadas vem sofrendo um forte processo de desestabilização e falta de prestígio. Como se democracia e Forças Armadas fossem elementos incompatíveis para um Brasil feliz.


Até quando o Brasil vai conviver com esse trauma do Governo Militar? Chega! Basta! Não podemos viver eternamente nos anos 70! O tempo passou e só Carolina não viu.


A eleição presidencial no próximo mês reflete o que aconteceu hoje na Parada Militar. Os dois principais candidatos, José Serra e Dilma Roussef, devem sua carreira política ao fato de terem feito oposição ao Governo Militar. É lamentável que em pleno século 21 a sociedade brasileira ainda esteja tendo que engolir esses fantasmas. Isso só mostra como nós estamos parados no tempo. A história já nos mostrou que a era dos militares no governo não foi tão terrível assim, e que os opositores do regime não eram esses santinhos que querem parecer.


Eis o que eu queria dizer: a gente precisa dar um passo à frente. Chega de ficar olhando pra trás. Chega de ficar “faturando” em cima de uma ditadura que apenas refletiu a vontade da sociedade brasileira de então. Os militares fizeram apenas o que o povo brasileiro da época queria que eles fizessem. No momento em que o povo brasileiro quis a democracia, ele teve a democracia.


A história recente do país precisa ser reescrita com isenção e mais rigor histórico. Como disse o José Vitor Rack "nosso Exército é muito mais do que Geisel e Médici".


Voltando ao Governador Sergio Cabral. Nos anos 70, quando ele era criança, viu seu pai ser preso pelos militares. O velho Sergio Cabral pai era um dos jornalistas arruaceiros do Pasquim e, por causa de seus textos por demais contestadores, acabou indo passar uma temporada num quartel do fantástico subúrbio de Realengo. (A Vila Militar de Realengo é um dos lugares mais chiques e elegantes do Rio. São vários quartéis na mesma região, além das casas que servem de residência aos militares. Tudo numa área de ruas largas e arborizadas e construções com uma arquitetura cheia de bossa. É um ótimo lugar para alguém ficar preso!). Cabralzinho algumas vezes foi levado pela mãe para visitar o pai preso no quartel. E ficou traumatizado com isso. Corta para o ano de 2010. Agora o jovem Cabral é o Governador do Estado e, para se vingar do que os militares fizeram com sua família, ele se recusa a cumprir sua obrigação de participar do desfile comemorativo da Independência do Brasil.


Waal, como diria o saudoso Paulo Francis...


Alguém precisa dizer ao Sergio Cabral que os cidadãos do Rio de Janeiro não tem nada a ver com seus traumas de infância. Quando o Governador vira as costas para as Forças Armadas ele está estimulando a insegurança pública. Ele está valorizando a atuação de criminosos que dão as cartas em determinadas regiões do estado. Curiosamente, por ocasião da campanha política quando ganhou a eleição, Cabral, em diversas ocasiões, disse que ia chamar os militares para atuar na segurança pública do Rio. Votei nele por causa disso e fiquei decepcionado. Era tudo bravata de político. Sergio Cabral nunca quis saber dos militares.

No link abaixo escute Dalva de Oliveira cantando "Cisne Branco", o hino oficial da Marinha do Brasil. É lindo!


(Fotos de Waldir Leite)

6.9.10

Júlia e Malu nos bastidores do Teatro Maison de France, onde está em cartaz a peça O Deus da carnificina. "Vocês já foram irmãs numa novela", disse eu, quando fiz essa foto, me referindo a novela Eu Prometo, a última de Janete Clair. "Somos irmãs até hoje", respondeu Malu, com esse sorriso lindo que a câmera captou.




TEATRO QUASE SEMPRE – Num dado momento da peça O Deus da carnificina, de Yasmina Reza, a atriz Júlia Lemmertz começa a vomitar no palco. Usando de um artifício qualquer, que a platéia não percebe, ela vomita em cima de um livro de arte. Um catálogo de uma exposição antiga, que pertence a Verônica, personagem da atriz Débora Evelyn, que dá um piti quando vê o que está acontecendo. A mulher fica indignada com o fato, afinal é um livro raro, um dos seus favoritos, na verdade. Até que o marido dela a lembra que a outra está passando mal.


É uma cena de tensão e densidade dramática que provoca desconforto e risos da platéia. Mas a tensão e a densidade dramática estão presentes desde o primeiro diálogo da peça, onde os personagens, pessoas aparentemente cultas e civilizadas, acabam mostrando seu lado primitivo e selvagem, quando se vêem diante de uma situação-limite.


A peça mostra o encontro de dois casais, depois que o filho de um, agrediu o filho do outro com um pedaço de pau, quebrando dois dentes. Foi uma briga de crianças que freqüentam a mesma turma, onde uma acabou machucando a outra. Os pais do menino que apanhou querem que o agressor peça desculpas, pois, como são civilizados, acreditam que isso vai amenizar os traumas da criança. A reunião de pais que se acham civilizados, vai, aos poucos, saindo do controle. Começa com trocas de farpas, insinuações, ironias e maledicências. Depois vai num crescendo até chegar a gritos, ameças, agressões... E toda uma série de baixarias difíceis de classificar.


Sabe essas pessoas que são politicamente corretas, não admitem nenhum tipo de racismo, mas quando se irritam com um negro o chamam de macaco? Sabe essas pessoas que se acham civilizadas, usam no carro adesivos contra a homofobia, mas quando discutem com o vizinho gay o chamam de veado? A peça é sobre isso! Um texto com uma excelente dramaturgia, cheio de boas sacadas sobre o monstro selvagem que existe atrás de cada um de nós, burgueses que se pretendem civilizados.


O Deus da carnificina é uma experiência teatral valiosa. É um drama muito barra pesada, mas que nos faz rir e pensar. São quatro atores magníficos que tornam a encenação um grande prazer para quem gosta de teatro. Débora Evelyn, Júlia Lemmertz, Orã Figueredo e Paulo Betti, dirigidos por Emílio de Mello, fazem uma festa com o texto de Yasmina Reza. Cada inflexão, cada gesto, cada movimento em cena, cada olhar, é uma celebração à magia do teatro.


Depois do espetáculo, quando o elenco estava recebendo os cumprimentos de amigos e convidados, Paulo Betti contou que eles ainda estão aprendendo a fazer o espetáculo. “O peça de hoje foi muito diferente da de ontem. O público ri nas cenas de maior densidade dramática. A gente está precisando fazer algumas pausas entre os diálogos pra dar tempo das pessoas rirem”, disse ele para Antônio Fagundes. Malu Mader, que aplaudiu a peça com entusiasmo, foi super carinhosa com a Júlia Lemmertz. Olhou bem nos olhos da colega e falou: “Você é incrível, sabia? Você é muito incrível”. Júlia, por sua vez, estava emocionada por estar atuando no teatro onde, na infância, viu sua mãe, Liliam Lemmertz, atuar em Quem tem medo de Virginia Wolf?

Saí do teatro sem conseguir parar de pensar no drama que havia assistido. É impossível não comparar a situação vivida por aqueles personagens, com a nossa vida cotidiana. Fiquei pensando em quais momentos da minha vida de homem civilizado eu havia perdido o controle sobre essa vontade burguesa de ser digno e superior. Aqui mesmo, nesse blog. Quantas vezes já arrasei tantas pessoas. Quantas vezes fui maledicente e cruel com quem, de alguma forma, havia me atingido. Será que, como os casais da peça, eu não perdi o controle por uma coisa pequena? E na vida, como já disse Clarice Lispector, tudo são coisas pequenas...


Sobre isso Yasmina Reza, a autora da peça, escreveu:



Não acredito que o ser humano seja pacífico. Penso que ele não evoluiu desde a Idade da Pedra e que o verniz social que nos protege da selvageria é inquietantemente suave e sempre a ponto de estourar. Eu escrevo um teatro de tensão, porque as tensões nos governam. Meus personagens são pessoas educadas que pretendem manter a compostura. Mas como são também impulsivos, não conseguem manter as regras que impuseram a si mesmos. É precisamente essa luta contra si mesmo que me interessa. Minhas obras sempre foram consideradas comédias, mas penso que são tragédias divertidas. Mas tragédias, ao fim...


Madonna vem aí...

 

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