OS VERSOS DE UM POETA - A última vez que encontrei Eucanãa Ferraz foi no aniversário da Luciana de Moraes. Ele demonstrava estar feliz e buscava distribuir sua felicidade com todas as pessoas da festa. O poeta Eucanãa não admitia de ninguém nada menos do que a felicidade. Dançou o tempo inteiro ao som do samba cheio de gingado da cantora Martinália. No meio do salão sua figura de poeta era a perfeita tradução da delicadeza dos seus versos...
MORTE NO MAR
a T. S. Elliot
Lembro do rapaz que vi morrer na praia.
Os olhos abertos
- uma luz tão fria -
conchas espantadas que eram.
As mãos nada diziam de
anêmonas e navios.
Eu era um menino e
o azul verde da água.
Alto e belo, o afogado,
um capitão.
CONTO
para Eugénio de Andrade
Ainda não era menino
ou menina.
Tudo o que sabia
era o nome das cores.
Tudo o que sentia era
sede e fome.
Mas houve o verão em que
os barcos não regressaram. Foi quando,
apontando a linha do horizonte, a mãe
disse ao seu ouvido:
- és um homem.
DESEJO
Que venham as flores, o doce,
a blandícia e o azul
mais que azul
das calmarias.
Ainda assim, sonharemos
- secretos - com
beijar a boca das espadas.
LEMBRANÇAS DO ÚLTIMO VERÃO - Quando fui passar uma temporada na praia de Trindade conheci um cara, Abrahão, um rapaz judeu de 22 anos, que tinha vindo de Israel conhecer o Brasil. Era a primeira vez que ele viajava sozinho, sem a família. Tinha planos de ficar seis meses viajando. Queria primeiro conhecer o Brasil, começando pelo Rio, em seguida Bahia, Nordeste e Amazonas. Depois ia viajar pela América do Sul, começando pela Venezuela, até chegar a Argentina. É um ritual da educação judaica, quando o homem se torna maior de idade, faz uma longa viagem sem a família, para conhecer o mundo. É uma espécie de rito de passagem para a vida adulta.
Abrahão é muito simpático e logo ficamos amigos. Fazíamos longas caminhadas pelas trilhas que levavam as praias. Fumamos vários baseados admirando a paisagem magnífica da região. Nadamos na praia e conversávamos muito. Falávamos em inglês, mas ele me ensinou algumas palavras em hebraico. Abrahão me contou que morava em Jerusalem, bem perto do lugar onde Cristo nasceu. Disse que Jerusalem hoje é uma cidade bem moderna e agitada, e que lá ele tem muitos amigos.
Abrahão me disse para não acreditar no que os noticiários dos jornais e das TVs mostram sobre as desavenças entre os judeus e palestinos. Segundo ele existe muito sensacionalismo no noticiário. "A maioria dos judeus convivem pacificamente com os palestinos. Eu tenho vários amigos palestinos. Eles vão na minha casa. Eu vou na casa deles. Aquelas pessoas que vivem em guerra é apenas um grupo que vive apegado ao passado. São pessoas que vivem numa outra época. Como esses hippies que estão ali." De fato, Trindade é um povoado cheio de hippies que vivem de artesanato, como se estivessem nos anos 60.
Um dia Abrahão comentou que estava com saudades de seu cachorro, um pastor alemão. Eu perguntei como era o nome do cachorro e ele me respondeu: Edmundo. Fiquei surpreso. Por que Edmundo? Abrahão me explicou que era em homenagem ao nosso jogador de futebol. Ele mesmo. Edmundo, o animal. Foi assim que eu descobri que o jovem judeu sabia tudo sobre o futebol brasileiro. Conhecia o nome dos times, dos jogadores, dos campeonatos... Até já tinha visto a seleção brasileira jogando em Paris. Chiquérrimo.
Abrahão também falava muito de sua namorada. Ele me disse o nome dela em hebraico e explicou que aquele nome significava happiness em inglês. Eu expliquei que a tradução da palavra happiness para o portugues era felicidade. Desde então ele só se referia a namorada como Felicidade. Eu achava muito engraçado o jeito como pronunciava a palavra em portugues... Ele andava pela praia repetindo: felicidade, felicidade, felicidade...
A ligação de Abrahão com o Brasil não se fazia apenas através do futebol. Existia uma ligação também através da literatura. O jovem e belo judeu tinha lido todos os livros do Paulo Coelho. E falava da obra do Mago com intimidade e conhecimento de causa. Disse que os livros, na essência, contavam sempre a mesma história. Mas que era uma única história de grandeza espiritual.
Depois da temporada em Trindade voltamos a nos encontrar no Rio. Quando o moço chegou na cidade eu dei algumas dicas para ele, como por exemplo, ir à praia no posto nove. Ele adorou essa dica. Na sua temporada carioca foi todos os dias à praia no 9, onde logo se enturmou e fez amigos. Numa das vezes, quando cheguei na praia, ele estava num grupo, batendo papo, fumando um baseado. "Voce está parecendo um carioca", eu disse. Ele sorriu e disse que era assim que estava se sentindo.
Abrahão fez todos os programas clássicos do turista que vem ao Rio. Foi ao Pão de Açucar, mas preferiu o Cristo Redentor. Foi à Lapa, mas achou muito barra pesada. Disse que tinha muita gente e muita droga. Muito pó. Mas gostou do baile de Carnaval na Fundição Progresso, onde se divertiu e dançou muito. Detestou Copacabana, onde pivetes tentaram roubá-lo. "Copacabana não é legal", me disse. Adorou Ipanema, a Lagoa e o Jardim Botânico. Foi sozinho ao desfile das escolas de samba e se divertiu a valer com a música, as fantasias e as mulheres seminuas. Também curtiu de montão a Banda de Ipanema e achou os travestis muito divertidos. Tentou ir, com mais dois turistas, até a favela de Rio das Pedras, conhecer o famoso baile funk do lugar. Mas o taxi se perdeu na favela, não achou o baile e eles foram parados pela polícia. Os policias deram uma dura nos turistas, depois ameaçaram levá-los para a delegacia, alegando que eles estavam à procura de drogas. Caso eles não quisessem ser detidos teriam que pagar dez reais cada um.
Quando Abrahão me contou essa história dos policiais eu fiquei morrendo de vergonha. O Rio de Janeiro tem uma policia que se corrompe por dez reais! Puta que pariu! Essa cidade realmente está com sérios problemas. Outra coisa que me chocou foi a forma como ele se referiu a Copacabana, local onde pivetes tentaram assaltá-lo. Eu sei como ele estava se sentindo. Copacabana realmente se transformou numa cilada para turistas. Quem é da cidade e anda por ali percebe que as ruas do bairro estão cheia de gente que está ali para se dar bem com os gringos. Traficantes, assaltantes, pivetes, ambulantes, meretrizes, gigolôs... O bairro oferece um péssimo serviço de bares, restaurantes e suas ruas são verdadeiras armadilhas para os turistas. Um bairro de fama internacional! Que horror! Infelizmente o Rio é uma cidade que não tem prefeitura, nem governo.
Um dia antes de Abrahão viajar para a Bahia e o Nordeste, eu o convidei para almoçarmos no Via Farme, um lugar onde eu adoro comer massas. Lá Abrahão me contou que não é um judeu ortodoxo, que come carne de porco e que estava gostando muito de conhecer o Brasil. Eu dei telefones e endereços de amigos que poderia procurar nas suas andanças pelo País. Dei dicas de praias, cidades e locais que deveria conhecer. Recomendei que quando chegasse em Manaus procurasse o lutador Wallid Ismail, meu amigo, que é Palestino e ele adorou a idéia e me explicou o significado da palavra "Ismail". Grande figura o Abrahão.
29.3.06
27.3.06
Uma lágrima para Ariclê Perez. Uma atriz competente, que levava muito a sério sua profissão. Trabalhamos juntos na novela Salsa e Merengue, onde ela interpretava Gilda, a interesseira mãe de Adriana, uma garota de programa arrivista, personagem da atriz Cristiana Oliveira. Ela era uma pessoa doce, gentil e divertida, que tinha um humor muito sutil. Na época da novela ela estava fazendo pesquisa para um livro sobre o seu falecido marido, o diretor de teatro Flavio Rangel.
Descanse em paz...
EU SEI QUE VOU TE AMAR - Luciana de Moraes fez 50 anos e promoveu festão para comemorar a data. Uma feijoada no Bar do Tom, no Leblon. Filha de Vinicius de Moraes, Luciana está cada dia mais parecida com o pai. No bolo de aniversário estava escrito um verso da valsinha "Luciana", música composta por Tom e Vinicius quando ela nasceu. A música fez parte do disco Canção do Amor Demais, de Elisete Cardoso, considerado pelos estudiosos e pesquisadores como o álbum que lançou a Bossa-Nova.
A feijoada da Luciana estava deliciosa. E uma galera muito alto astral e divertida marcou presença no Bar do Tom para comemorar com ela, lhe desejar felicidades e curtir de um jeito bem carioca a tarde de sábado. Empresária bem sucedida, Luciana é uma pessoa muito querida no meio artístico. E muito admirada pela sua personalidade forte. Aliás, a festa estava cheia de mulheres de personalidade forte: Lúcia Veríssimo, Claudia Otero, Laura Gasparian e Maria Zilda; a bonitona Maria Luiza Jucá, ex-empresária de Maria Bethânia, acompanhada de uma moça ainda mais bonita que ela; Adriana Calcanhoto e sua companheira Suzana Moraes, irmã da aniversariante; Cissa Guimarães, Maria Gladys, Liége Monteiro, Scarlett Moon de Chevalier e Tânia Caldas; Claude Amaral Peixoto, com a neta Maria Luiza, que é bisneta de Vinicius, já que a menina é filha de Mariana de Moraes, neta do poetinha, com Cláudio Amaral, filho da Claude.
Flora Gil foi acompanhada da sua atual melhor amiga, a inspetora da Policia Civil Marina Magessi que foi a personalidade mais cumprimentada e badalada da feijoada da Luciana. Tod mundo queria falar com ela, cumprimentá-la. Sem dúvida alguma, Marina Magessi é uma estrela. Eu ouvi um garçom dizer para ela: A senhora devia se candidatar a alguma coisa... Na noite daquele sábado a policial foi entrevistada no programa do Sergio Groissman e num noticiário da Globo News. A estrela sobe!
Paulo Jobim comandava uma mesa que reunia vários integrantes da família Jobim. Na mesa ao lado Cacá Diegues e Renata Magalhães, Ruy Castro e Heloisa Seixas, Geraldinho Carneiro, diogo Gonçalves e Luisa Mariani, Miúcha e Guilherme Araújo; o cineasta Miguelzinho Faria, diretor do documentário sobre Vinícius que bateu recordes de público; Antônio Carlos Miguel e Katty Pinto, chiquérrimos e animados, com o gerente da Fundação Roberto Marinho Hugo Sukman; Gilda Matoso e Nelita Leclery, ex-mulheres de Vinicius; Rodrigo Argollo, padrinho de Zeca, filho de Caetano e Paula. Georgiana de Moraes, irmã da aniversariante; Thereza Eugênia.
O poeta Eucanãa Ferraz foi um dos personagens mais animados da festa. A musa da bossa-nova Wanda Sá, foi com o filho Bernardo Lobo, cada dia mais bonito e charmoso; Marcelo Serrado, o galã da novela Prova de Amor da TV Record também marcou presença; assim como o ator Dartagnan Júnior e a sapatoníssima Rita Matos, secretária de Maria Carmem Barbosa
Durante toda a tarde os privilegiados que foram convidados para o aniversário puderam se deliciar com a feijoada e beber muito chope e uísque servidos por garçons prestativos. Mas, além dos comes e bebes, Luciana de Moraes deu um presente muito especial aos seus convidados: um show de Martinália.
Quando a cantora Martinália subiu ao palco e começou a cantar ninguém resistiu. Todo mundo começou a dançar, graças ao suingue de sua música, um jeito moderno de cantar samba, que empolga corações e mentes. Motivada pela vitória de sua escola de samba, a Vila Isabel, a filha de Martinho da Vila levantou ainda mais a platéia quando vestiu a faixa da escola e cantou o samba campeão. No intervalo entre as músicas a cantora provocava risos na galera, graças ao seu jeito moleque de ser, que a deixava parecendo um rapazinho. Depois do show, quando ela apareceu no salão eu a cumprimentei, disse que tinha adorado o seu show. Gentil e amorosa, ela me deu um abraço, encostou a cabeça no meu ombro e disse: - A gente faz o que pode...
Feliz aniversário...
Luciana
Vinicius / Tom
Olha que o amor, Luciana
É como a flor, Luciana
Olhos que vivem sorrindo
Riso tão lindo
Canção de paz
Olha que o amor, Luciana
É como a flor que não dura demais
Embriagador
Mas também traz muita dor, Luciana
Descanse em paz...
EU SEI QUE VOU TE AMAR - Luciana de Moraes fez 50 anos e promoveu festão para comemorar a data. Uma feijoada no Bar do Tom, no Leblon. Filha de Vinicius de Moraes, Luciana está cada dia mais parecida com o pai. No bolo de aniversário estava escrito um verso da valsinha "Luciana", música composta por Tom e Vinicius quando ela nasceu. A música fez parte do disco Canção do Amor Demais, de Elisete Cardoso, considerado pelos estudiosos e pesquisadores como o álbum que lançou a Bossa-Nova.
A feijoada da Luciana estava deliciosa. E uma galera muito alto astral e divertida marcou presença no Bar do Tom para comemorar com ela, lhe desejar felicidades e curtir de um jeito bem carioca a tarde de sábado. Empresária bem sucedida, Luciana é uma pessoa muito querida no meio artístico. E muito admirada pela sua personalidade forte. Aliás, a festa estava cheia de mulheres de personalidade forte: Lúcia Veríssimo, Claudia Otero, Laura Gasparian e Maria Zilda; a bonitona Maria Luiza Jucá, ex-empresária de Maria Bethânia, acompanhada de uma moça ainda mais bonita que ela; Adriana Calcanhoto e sua companheira Suzana Moraes, irmã da aniversariante; Cissa Guimarães, Maria Gladys, Liége Monteiro, Scarlett Moon de Chevalier e Tânia Caldas; Claude Amaral Peixoto, com a neta Maria Luiza, que é bisneta de Vinicius, já que a menina é filha de Mariana de Moraes, neta do poetinha, com Cláudio Amaral, filho da Claude.
Flora Gil foi acompanhada da sua atual melhor amiga, a inspetora da Policia Civil Marina Magessi que foi a personalidade mais cumprimentada e badalada da feijoada da Luciana. Tod mundo queria falar com ela, cumprimentá-la. Sem dúvida alguma, Marina Magessi é uma estrela. Eu ouvi um garçom dizer para ela: A senhora devia se candidatar a alguma coisa... Na noite daquele sábado a policial foi entrevistada no programa do Sergio Groissman e num noticiário da Globo News. A estrela sobe!
Paulo Jobim comandava uma mesa que reunia vários integrantes da família Jobim. Na mesa ao lado Cacá Diegues e Renata Magalhães, Ruy Castro e Heloisa Seixas, Geraldinho Carneiro, diogo Gonçalves e Luisa Mariani, Miúcha e Guilherme Araújo; o cineasta Miguelzinho Faria, diretor do documentário sobre Vinícius que bateu recordes de público; Antônio Carlos Miguel e Katty Pinto, chiquérrimos e animados, com o gerente da Fundação Roberto Marinho Hugo Sukman; Gilda Matoso e Nelita Leclery, ex-mulheres de Vinicius; Rodrigo Argollo, padrinho de Zeca, filho de Caetano e Paula. Georgiana de Moraes, irmã da aniversariante; Thereza Eugênia.
O poeta Eucanãa Ferraz foi um dos personagens mais animados da festa. A musa da bossa-nova Wanda Sá, foi com o filho Bernardo Lobo, cada dia mais bonito e charmoso; Marcelo Serrado, o galã da novela Prova de Amor da TV Record também marcou presença; assim como o ator Dartagnan Júnior e a sapatoníssima Rita Matos, secretária de Maria Carmem Barbosa
Durante toda a tarde os privilegiados que foram convidados para o aniversário puderam se deliciar com a feijoada e beber muito chope e uísque servidos por garçons prestativos. Mas, além dos comes e bebes, Luciana de Moraes deu um presente muito especial aos seus convidados: um show de Martinália.
Quando a cantora Martinália subiu ao palco e começou a cantar ninguém resistiu. Todo mundo começou a dançar, graças ao suingue de sua música, um jeito moderno de cantar samba, que empolga corações e mentes. Motivada pela vitória de sua escola de samba, a Vila Isabel, a filha de Martinho da Vila levantou ainda mais a platéia quando vestiu a faixa da escola e cantou o samba campeão. No intervalo entre as músicas a cantora provocava risos na galera, graças ao seu jeito moleque de ser, que a deixava parecendo um rapazinho. Depois do show, quando ela apareceu no salão eu a cumprimentei, disse que tinha adorado o seu show. Gentil e amorosa, ela me deu um abraço, encostou a cabeça no meu ombro e disse: - A gente faz o que pode...
Feliz aniversário...
Luciana
Vinicius / Tom
Olha que o amor, Luciana
É como a flor, Luciana
Olhos que vivem sorrindo
Riso tão lindo
Canção de paz
Olha que o amor, Luciana
É como a flor que não dura demais
Embriagador
Mas também traz muita dor, Luciana
24.3.06
AS MAIS BELAS FOTOS DO RIO - A fotógrafa Thereza Eugênia é uma personalidade da cultura brasileira. Baiana, ela acompanha a carreira da gal, bethânia, caetano e gil desde os primórdios, fotografando os baianos em seus momentos mais íntimos. O seu arquivo de fotos é precioso e ela só mostra para os amigos. Atualmente sua paixão é fotografar o Rio. Essas fotos, da cidade que já foi maravilhosa, ela gosta de mostar para todo mundo. No seu fotoblog, sensação da internet, ela exibe um pouco das paisagens cariocas e um pouco do seu arquivo histórico da MPB. Clique acima para acessar as fotos. Quando chegar no fotoblog clique no comando "todas as fotos" que voce vai encontrar imagens deliciosas. Não percam.
13.3.06
O LIVRO É O MELHOR AMIGO DO HOMEM - A seguir, duas resenhas publicadas no Jornal do Brasil, de livros lançados na semana passada. Ambos foram escritos por mulheres inteligentes que possuem o dom da literatura. O primeiro, Teresa, que esperava as uvas, reúne contos de uma gaúcha cheia de sotaque. O segundo, é o comovente conto que deu origem ao filme O segredo de Brokeback Mountain. Tão surpreendente quanto o filme, o livro conta exatamente a mesma história, deixando claro que o diretor soube respeitar as idéias e os conceitos da autora. É uma edição de luxo, em capa dura, num belo trabalho de produção da editora Intrínseca, que aproveitou uma bobeira da sua concorrente Bertrand Brasil, que era dona dos direitos de publicação dos titulos de Annie Proulx, mas deixou vencer o prazo do contrato.
PEQUENAS EPOPÉIAS DO COTIDIANO - Nos últimos meses, o mercado editorial brasileiro foi invadido por uma infinidade de novos títulos. Um grande número de lançamentos de livros de autores que se destacam em outras áreas de atuação que não a literatura. Coletâneas de artigos publicados por jornalistas famosos, memórias profissionais de executivos bem sucedidos e obras de celebridades surgidas na TV, no teatro, na internet. Títulos que atendem aos interesses comerciais imediatos das editoras e à vaidade intelectual de seus autores. Mas, e a literatura? Cadê a literatura? Essa, que seria a principal razão para a existência de um livro, parece estar esquecida.
Na contramão dessa tendência perversa do mercado de livros, a Geração Editorial está lançando Teresa, que esperava as uvas, conjunto de contos da gaúcha Monique Revillion. A autora não é jornalista famosa, não é empresária bem sucedida, nem celebridade da TV, do teatro ou da internet. É apenas uma pessoa que escreve bem. O único argumento a seu favor é a literatura, que brota em abundância de seu livro, sem fazer economia. Monique faz parte do grupo de escritores que sabe transformar pequenos fatos da vida cotidiana em epopéias. Com sensibilidade e emoção, suas histórias parecem querer mostrar ao leitor que tudo na vida é milagre. Cada descoberta, cada amanhecer, cada sorriso estampado num rosto, cada sabor degustado numa refeição. Tudo é um milagre da vida.
Eficiente manipuladora de palavras, ela conta histórias que nos envolvem e surpreendem. No conto Soldado Ezequiel, ela cria um clima de tensão ao narrar a aventura de um policial obrigado a passar a noite na mata, tomando conta dos cadáveres de uma família vítima de um grupo de extermínio. Já Bolinha mostra como o encontro com um cão abandonado transforma a vida de uma criança, fazendo-a amadurecer ao descobrir as crueldades da vida. Uma história de M narra com ternura surpreendente a vida trágica de uma menor abandonada. O peixe descreve com amarga ironia como o tédio diluiu a paixão na vida de um casal.
São 36 contos, que revelam uma escritora sensível e inteligente, totalmente à vontade com seu estilo e personalidade. Teresa, que esperava as uvas é um belo exemplo da moderna literatura brasileira.
TODO HOMEM TEM UM SEGREDO! - É um equívoco afirmar que O segredo de Brokeback Mountain, livro de Annie Proulx que deu origem ao premiado filme de Ang Lee, é uma história sobre gays ou sobre o mundo gay. Na verdade é uma história sobre o mundo masculino. E impressiona que, uma obra que mexeu tão fundo no universo machista, tenha sido escrita por uma mulher.
A relação homossexual é algo que, ao mesmo tempo, causa repulsa e fascínio nos homens. A sociedade, que é machista, classifica a atividade homossexual como algo que diminui o sujeito, que o torna inferior. Mas, na sua consciência, todo homem sabe que não é bem assim. Principalmente, quando, dentro de si, cada um tem seus momentos em que brota a faísca da homossexualidade. Quando admira muito ou se identifica em demasia com um amigo ou mesmo quando sente desejo pelo traseiro bonito de um companheiro de pelada no vestiário do clube. É nesse quesito que se descortina o talento de Annie Proulx. Seu agudo senso de observação foi capaz de criar uma obra que nos mostra algo de novo. No seu conto ela revela uma verdade que nenhum outro escritor havia tido a oportunidade de contar: todo homem tem um segredo! O mundo está cheio de caras como Ennis del Mar e Jack Twist, os vaqueiros protagonistas do livro. Másculos, viris, casados, com filhos, vivendo plenamente sua vida heterossexual e tendo um segredo que o envolve com outro homem. Aliás, guardar segredo com relação a uma amizade mais íntima com outro homeme é um dos pilares da cultura machista. Fazer sim, tornar público, jamais, diria um possível manual do comportamento masculino. Quando Jack Twist propõe a Ennis del Mar viverem juntos na fazenda de seu pai, o amigo recusa dizendo que eles têm que se encontrar em segredo já que não pode admitir dois homens vivendo juntos. Em seguida Del Mar conta um fato que resume a grande tragédia que ronda o seu mundo viril. Quando tinha apenas nove anos, seu pai o levou para ver o cadáver de Earl, assassinado com golpes de chave de roda, depois de ter o pênis decepado. O crime de Earl foi viver com outro homem. O pai do vaqueiro fez questão de mostrar ao filho o que pode acontecer com um sujeito que decide viver com outro. Este, aliás, é um ritual corriqueiro no universo machista. Num certo momento da vida todo pai se sente na obrigação de mostrar para o filho, de forma bem dura, como deve ser tratado um sujeito que se deita com outro. Sem medir as consequências do trauma que isso pode causar na alma da criança. Foi a visão tenebrosa do cadáver de Earl que fez com que Ennis del Mar recusasse a grande chance de felicidade que a vida lhe deu.
São essa pequenas observações, tão agudas quanto pertinentes, que fazem de Annie Proulx uma grande escritora. Com uma história simples e romântica ela conseguiu ir fundo na alma masculina e revelou segredos que, ao longo dos séculos, os machos sempre tiveram pânico em revelar. O segredo de Brokeback Mountain é um livro que todo homem deveria ler.
PEQUENAS EPOPÉIAS DO COTIDIANO - Nos últimos meses, o mercado editorial brasileiro foi invadido por uma infinidade de novos títulos. Um grande número de lançamentos de livros de autores que se destacam em outras áreas de atuação que não a literatura. Coletâneas de artigos publicados por jornalistas famosos, memórias profissionais de executivos bem sucedidos e obras de celebridades surgidas na TV, no teatro, na internet. Títulos que atendem aos interesses comerciais imediatos das editoras e à vaidade intelectual de seus autores. Mas, e a literatura? Cadê a literatura? Essa, que seria a principal razão para a existência de um livro, parece estar esquecida.
Na contramão dessa tendência perversa do mercado de livros, a Geração Editorial está lançando Teresa, que esperava as uvas, conjunto de contos da gaúcha Monique Revillion. A autora não é jornalista famosa, não é empresária bem sucedida, nem celebridade da TV, do teatro ou da internet. É apenas uma pessoa que escreve bem. O único argumento a seu favor é a literatura, que brota em abundância de seu livro, sem fazer economia. Monique faz parte do grupo de escritores que sabe transformar pequenos fatos da vida cotidiana em epopéias. Com sensibilidade e emoção, suas histórias parecem querer mostrar ao leitor que tudo na vida é milagre. Cada descoberta, cada amanhecer, cada sorriso estampado num rosto, cada sabor degustado numa refeição. Tudo é um milagre da vida.
Eficiente manipuladora de palavras, ela conta histórias que nos envolvem e surpreendem. No conto Soldado Ezequiel, ela cria um clima de tensão ao narrar a aventura de um policial obrigado a passar a noite na mata, tomando conta dos cadáveres de uma família vítima de um grupo de extermínio. Já Bolinha mostra como o encontro com um cão abandonado transforma a vida de uma criança, fazendo-a amadurecer ao descobrir as crueldades da vida. Uma história de M narra com ternura surpreendente a vida trágica de uma menor abandonada. O peixe descreve com amarga ironia como o tédio diluiu a paixão na vida de um casal.
São 36 contos, que revelam uma escritora sensível e inteligente, totalmente à vontade com seu estilo e personalidade. Teresa, que esperava as uvas é um belo exemplo da moderna literatura brasileira.
TODO HOMEM TEM UM SEGREDO! - É um equívoco afirmar que O segredo de Brokeback Mountain, livro de Annie Proulx que deu origem ao premiado filme de Ang Lee, é uma história sobre gays ou sobre o mundo gay. Na verdade é uma história sobre o mundo masculino. E impressiona que, uma obra que mexeu tão fundo no universo machista, tenha sido escrita por uma mulher.
A relação homossexual é algo que, ao mesmo tempo, causa repulsa e fascínio nos homens. A sociedade, que é machista, classifica a atividade homossexual como algo que diminui o sujeito, que o torna inferior. Mas, na sua consciência, todo homem sabe que não é bem assim. Principalmente, quando, dentro de si, cada um tem seus momentos em que brota a faísca da homossexualidade. Quando admira muito ou se identifica em demasia com um amigo ou mesmo quando sente desejo pelo traseiro bonito de um companheiro de pelada no vestiário do clube. É nesse quesito que se descortina o talento de Annie Proulx. Seu agudo senso de observação foi capaz de criar uma obra que nos mostra algo de novo. No seu conto ela revela uma verdade que nenhum outro escritor havia tido a oportunidade de contar: todo homem tem um segredo! O mundo está cheio de caras como Ennis del Mar e Jack Twist, os vaqueiros protagonistas do livro. Másculos, viris, casados, com filhos, vivendo plenamente sua vida heterossexual e tendo um segredo que o envolve com outro homem. Aliás, guardar segredo com relação a uma amizade mais íntima com outro homeme é um dos pilares da cultura machista. Fazer sim, tornar público, jamais, diria um possível manual do comportamento masculino. Quando Jack Twist propõe a Ennis del Mar viverem juntos na fazenda de seu pai, o amigo recusa dizendo que eles têm que se encontrar em segredo já que não pode admitir dois homens vivendo juntos. Em seguida Del Mar conta um fato que resume a grande tragédia que ronda o seu mundo viril. Quando tinha apenas nove anos, seu pai o levou para ver o cadáver de Earl, assassinado com golpes de chave de roda, depois de ter o pênis decepado. O crime de Earl foi viver com outro homem. O pai do vaqueiro fez questão de mostrar ao filho o que pode acontecer com um sujeito que decide viver com outro. Este, aliás, é um ritual corriqueiro no universo machista. Num certo momento da vida todo pai se sente na obrigação de mostrar para o filho, de forma bem dura, como deve ser tratado um sujeito que se deita com outro. Sem medir as consequências do trauma que isso pode causar na alma da criança. Foi a visão tenebrosa do cadáver de Earl que fez com que Ennis del Mar recusasse a grande chance de felicidade que a vida lhe deu.
São essa pequenas observações, tão agudas quanto pertinentes, que fazem de Annie Proulx uma grande escritora. Com uma história simples e romântica ela conseguiu ir fundo na alma masculina e revelou segredos que, ao longo dos séculos, os machos sempre tiveram pânico em revelar. O segredo de Brokeback Mountain é um livro que todo homem deveria ler.
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